Energia do futuro: novas carreiras e oportunidades para a juventude
A energia do futuro foi o tema que levei à Latinoware 2026, em Foz do Iguaçu. Falar desse assunto em um congresso de software livre e tecnologias abertas pode parecer, à primeira vista, uma escolha inesperada.

Para mim, a conexão é direta: a transformação do setor elétrico depende cada vez mais de dados, software, comunicação entre equipamentos e participação de quem consome energia. O modo como o Brasil vai organizar essas mudanças definirá também que tipo de mercado e de autonomia os brasileiros terão nos próximos anos.
A Latinoware tem um propósito que conversa com esse debate. O congresso promove o software livre e as tecnologias abertas, aproximando pessoas que querem compreender, criar e compartilhar soluções. Seu público reúne estudantes, pesquisadores, desenvolvedores, profissionais de tecnologia, comunidades, representantes de instituições públicas e organizações privadas. Não é um encontro restrito a especialistas de uma única área. É justamente essa mistura que permite que temas como energia, inteligência artificial, segurança digital, robótica, educação e empreendedorismo apareçam lado a lado. A apresentação oficial da Latinoware descreve esse público e a variedade de atividades.
A programação também ultrapassa o formato tradicional de palestras. Há oficinas, sessões técnicas, exposições, atividades interativas e eventos paralelos, como a Latin.Science, o Hackathon Latinoware, competições de programação e segurança digital e atividades ligadas à cultura geek.
Esses espaços colocam as pessoas em contato com ferramentas, problemas reais e outras comunidades. A energia do futuro exige exatamente essa aproximação entre quem trabalha com redes elétricas, software, dados, equipamentos e novos modelos de negócio. A programação e as atividades paralelas da edição de 2026 mostram como esses diferentes formatos convivem no evento.
Na palestra, comecei com uma pergunta: energia é apenas um insumo para fazer dispositivos elétricos e eletrônicos funcionarem? A resposta é não. Energia sustenta a atividade econômica, condiciona a capacidade produtiva de um país e influencia sua autonomia. É também uma questão civilizatória. Recorri à escala de Kardashev, uma proposta que mede o desenvolvimento de uma civilização pela quantidade de energia que consegue aproveitar. A escala é hipotética, mas sua provocação é concreta: o modo como produzimos, distribuímos e usamos energia diz muito sobre a sociedade que estamos construindo.
No Brasil, o mercado começa a se modelar em torno de uma realidade diferente daquela para a qual a rede foi concebida. A arquitetura tradicional foi planejada para levar eletricidade em um fluxo predominantemente unidirecional, das grandes usinas até os consumidores. Hoje, painéis solares, baterias, veículos elétricos e cargas flexíveis criam novos pontos de geração, armazenamento e controle. Uma casa pode produzir energia, armazenar parte dela e consumir ou injetar excedentes na rede. Uma empresa pode ajustar horários de consumo. Uma bateria pode responder a necessidades locais do sistema.
Esses recursos energéticos distribuídos podem parecer pequenos quando vistos individualmente. Conectados e coordenados, ganham escala. Uma usina virtual, por exemplo, reúne sistemas solares, baterias, veículos e cargas flexíveis por meio de uma plataforma digital. A coordenação pode ajudar a equilibrar a rede e a usar melhor a energia disponível. Para que isso aconteça com segurança, a infraestrutura precisa observar as condições locais, comunicar informações e coordenar respostas. Medidores, sensores, sistemas de controle e algoritmos passam a complementar a rede física.
Essa nova arquitetura também pode tornar o sistema mais resiliente.
Ondas de calor, enchentes, tempestades e secas pressionam as redes e podem interromper serviços essenciais. Redes inteligentes e mais fluídas, com tecnologias embarcadas, geração local, armazenamento e microrredes, podem responder melhor às mudanças nas condições de operação. Elas ajudam a identificar falhas, reorganizar fluxos e manter cargas críticas funcionando quando parte da rede convencional fica indisponível. Não eliminam todos os riscos, mas podem reduzir a vulnerabilidade do sistema e os prejuízos que uma interrupção prolongada impõe à população e à economia.
A transformação abre também um campo amplo de oportunidades profissionais para os jovens. Na palestra, destaquei que não é preciso esperar por uma profissão inteiramente nova: muitas carreiras existentes já estão se encontrando nesse setor. Engenharia elétrica e automação se conectam com software, análise de dados, inteligência artificial, telecomunicações e cibersegurança. Há espaço em instalação e manutenção, gestão de energia, armazenamento, plataformas digitais, planejamento, finanças, regulação e empreendedorismo. São milhões de possibilidades para construir uma carreira ao combinar conhecimentos, resolver problemas concretos e criar serviços para um mercado que está mudando.
Por isso, a regulação é decisiva. A Consulta Pública 033/2026 da ANEEL discute requisitos para conectar geração distribuída, baterias, veículos elétricos e cargas flexíveis, incluindo aspectos de observabilidade, comunicação, controle, proteção e qualidade. A consulta está aberta a contribuições até 9 de novembro de 2026. É positivo que as regras reconheçam a complexidade crescente da rede. Ao mesmo tempo, precisamos acompanhar como as novas atribuições serão distribuídas e quais agentes terão poder para coordenar esses recursos.
Nesse debate aparece o DSO, sigla para Distribution System Operator, ou operador do sistema de distribuição. Em termos simples, é a função de coordenar a rede local, integrar informações e administrar a participação de geração, armazenamento e consumo flexível. Minha preocupação é que a evolução regulatória concentre essa função nas próprias distribuidoras sem estabelecer salvaguardas suficientes para garantir neutralidade, transparência e espaço para outros participantes. A distribuidora tem um papel essencial na rede, mas o desenho do novo mercado precisa prevenir conflitos de interesse e manter o foco no benefício coletivo.
Sandboxes regulatórios também podem ajudar a testar soluções antes de adotá-las em larga escala. Para isso, precisam oferecer critérios transparentes, avaliar resultados e permitir que consumidores e novos agentes participem do aprendizado. A inovação não deve se resumir à instalação de equipamentos digitais em uma estrutura que mantém o cidadão passivo. O desafio é criar condições para que ele participe das decisões e para que novas empresas e comunidades encontrem espaço no setor.
Foi esse o sentido de levar a discussão à Latinoware. Em um evento que valoriza tecnologias abertas, faz sentido perguntar se a infraestrutura energética do futuro permitirá participação e criação distribuída. A experiência da telefonia e da internet mostra como uma infraestrutura pode abrir caminho para novos serviços, negócios e formas de interação. A eletricidade tem requisitos próprios de segurança e equilíbrio, mas também pede uma rede mais fluida para que novas tecnologias se difundam.
O mercado brasileiro está se redesenhando. O resultado não depende apenas de quantos painéis, baterias ou veículos elétricos serão conectados. Depende das regras, da arquitetura digital e das oportunidades oferecidas aos cidadãos. A energia do futuro precisa ser inteligente, resiliente e acessível. Precisa também ser livre e universal, para que a transição amplie a autonomia das pessoas, abra caminhos profissionais para uma nova geração e fortaleça a soberania do país.
Energia do futuro: novas carreiras e oportunidades para a juventude









Comentários