A usina está pronta. Agora começa o desafio de gerenciar a energia: digitalização ganha espaço no novo mercado elétrico
Em entrevista ao EnergyChannel durante a The Smarter E South America 2026 (Intersolar), Frederico Boschin analisa a transformação do setor elétrico e explica por que automação, gestão de créditos e informação serão cada vez mais importantes em um mercado no qual o consumidor assume o protagonismo
Por Ricardo Honório | EnergyChannel
Cobertura Especial — The Smarter E South America 2026 (Intersolar) | São Paulo
SÃO PAULO — Durante boa parte da expansão da energia solar no Brasil, o grande desafio esteve em colocar projetos de pé. Encontrar clientes, estruturar investimentos, instalar equipamentos, conectar usinas e transformar a geração distribuída em um mercado capaz de alcançar consumidores em praticamente todas as regiões do país.
Agora, uma nova questão começa a ganhar importância.
Depois que a usina entra em operação, quem administra toda essa energia?
A pergunta parece simples, mas esconde uma operação cada vez mais complexa. Existem consumidores para gerenciar, créditos para distribuir, faturas para conferir, concessionárias com procedimentos diferentes, particularidades tributárias, regras que mudam de estado para estado e uma quantidade crescente de informações que precisa ser processada todos os meses.
Para Frederico Boschin, advogado especialista no setor elétrico, é justamente nessa camada menos visível da operação que a digitalização começa a assumir um papel estratégico.
Boschin conversou com o EnergyChannel durante a The Smarter E South America 2026 (Intersolar), após participar como palestrante no Hub DG, treinamento exclusivo na área de energia, no estande da Digital Grid. Em entrevista a Ricardo Honório, ele analisou um setor que continua demonstrando resiliência, mas que entra em uma fase muito mais sofisticada.
“O setor está acontecendo”, resumiu Boschin ao observar a movimentação da feira. “A gente ainda vai acabar vendo muita coisa nova acontecendo nesse setor.”
A mudança, em sua visão, não será provocada apenas por novos equipamentos. Virá também das regras, dos modelos de negócio, da abertura do mercado e das tecnologias digitais que começam a se conectar ao sistema elétrico.
O mercado muda e a complexidade aumenta
Em sua apresentação no Hub DG, Boschin abordou justamente esse novo momento: mudanças de mercado, novas regras e tecnologias que passam a ocupar espaços antes inexistentes dentro do setor elétrico.
É uma transformação que ocorre em várias frentes ao mesmo tempo.
A geração se tornou mais distribuída. O consumidor ganhou alternativas. O Mercado Livre ampliou sua relevância. Novos modelos comerciais surgiram. Armazenamento começa a entrar na equação. E uma quantidade cada vez maior de dados precisa circular entre geradores, gestores, consumidores e empresas do setor.
Quanto mais descentralizado se torna o sistema, mais importante passa a ser a capacidade de organizar essa complexidade.
E é nesse ponto que Boschin identifica um problema recorrente.
A empresa consegue construir a usina.
Mas, quando começa a operar uma carteira de consumidores, percebe que administrar o negócio pode ser muito mais trabalhoso do que imaginava.
“Na minha prática, o que acontece é que o cara monta a usina, mas a gestão do crédito e a gestão do consumidor acabam tomando tempo e comendo margem”, afirma.
O problema aparece quando tarefas que poderiam ser automatizadas continuam dependendo de processos manuais.
No início, isso talvez pareça administrável.
Com poucos consumidores, uma equipe consegue acompanhar planilhas, conferir documentos e corrigir inconsistências. Mas, à medida que a carteira cresce, a operação cresce junto.
Mais clientes significam mais faturas.
Mais créditos.
Mais conferências.
Mais exceções.
Mais pessoas.
E mais custo.
O resultado é uma equação perigosa: A empresa cresce comercialmente, mas parte desse crescimento desaparece dentro da própria operação.
A margem também pode desaparecer em uma planilha
Esse talvez seja um dos pontos mais interessantes levantados por Boschin.
Quando um empreendedor desenvolve um projeto de energia, é natural dedicar enorme atenção ao investimento inicial, à geração prevista, ao retorno financeiro e às receitas esperadas.
Mas custos operacionais aparentemente pequenos podem ser subestimados.
Uma atividade manual demanda pessoas.
Pessoas demandam estrutura.
E, conforme o número de consumidores aumenta, aquilo que parecia uma despesa secundária pode começar a comprometer a rentabilidade do negócio.
“Obviamente você subdimensiona esse custo porque são pessoas. Então, quanto mais automatizar, melhor”, explica.
A digitalização, nesse contexto, deixa de ser apenas uma questão de conveniência.
Passa a ser uma questão de margem.
Automatizar tarefas repetitivas permite que a empresa cresça sem necessariamente multiplicar sua estrutura administrativa na mesma velocidade.
E libera a equipe para aquilo que efetivamente pode gerar novos negócios: atender melhor, vender, desenvolver projetos e cuidar do relacionamento com o consumidor.
Gerenciar créditos de energia é mais complexo do que parece
Para quem olha de fora, administrar créditos de energia pode parecer apenas uma operação matemática.
A realidade é diferente.
Boschin lembra que o Brasil possui particularidades tributárias e regulatórias que tornam a gestão mais complexa.
Estados podem apresentar diferenças tributárias. Municípios possuem particularidades. Distribuidoras têm processos e modelos de faturamento que nem sempre seguem exatamente a mesma dinâmica operacional.
Isso significa que uma experiência bem-sucedida em determinada região não pode necessariamente ser simplesmente copiada para outra.
“Operar em um estado não necessariamente é igual a operar em outro”, afirma.
A consequência é importante para empresas que desejam ganhar escala.
Quanto maior a expansão geográfica, maior tende a ser o número de particularidades que precisam ser administradas.
E é justamente aí que uma plataforma digital começa a deixar de ser apenas um sistema de apoio.
Ela passa a funcionar como infraestrutura do negócio.
A tecnologia precisa permitir que a empresa volte a olhar para o cliente
Boschin vê valor em plataformas como a Digital Grid justamente porque elas podem absorver parte dessa complexidade operacional.
Ao automatizar processos, organizar informações e conectar diferentes pontas da operação, a empresa pode dedicar menos energia à burocracia e mais ao mercado.
“Você pode focar melhor no comercial e pode dar uma experiência melhor para o consumidor”, afirma.
Essa mudança de foco é importante porque o próprio consumidor de energia está mudando.
Durante décadas, a relação com eletricidade foi essencialmente passiva.
A conta chegava.
O consumidor pagava.
Havia pouco espaço para escolha.
A geração distribuída começou a alterar essa relação. O Mercado Livre acrescentou novas possibilidades. Armazenamento e gestão digital podem aprofundá-la ainda mais.
O consumidor começa a perguntar.
Quanto estou pagando?
Quanto estou economizando?
De onde vem minha energia?
Qual é o meu desconto?
Tenho créditos disponíveis?
Existe uma alternativa melhor?
A energia deixa lentamente de ser apenas uma despesa mensal incompreensível e começa a se transformar em algo que o consumidor pode acompanhar e administrar.
O consumidor passa a ter a energia na mão
Na conversa com Ricardo Honório, essa transformação aparece de maneira bastante clara.
O novo consumidor tem mais informação e, consequentemente, tende a ser mais exigente.
Boschin relaciona esse movimento à própria abertura do Mercado Livre.
Quanto mais alternativas aparecem, maior é a necessidade de transparência.
O consumidor quer compreender o benefício que está recebendo.
Quer visualizar resultados.
Quer acompanhar sua relação com a energia.
E isso obriga as empresas a melhorar não apenas seus produtos, mas também a experiência oferecida ao cliente.
Nesse cenário, uma plataforma digital pode funcionar como uma ponte entre diferentes participantes do ecossistema.
Gerador.
Gestor.
Consumidor.
Distribuidora.
Comercial.
Financeiro.
Operação.
“Você consegue facilitar para que todas as pontas falem a mesma língua”, resume Boschin.
Talvez esteja justamente aí uma das grandes transformações silenciosas do setor elétrico brasileiro.
O próximo ganho de eficiência pode não estar no painel
Durante anos, a indústria fotovoltaica perseguiu eficiência principalmente no hardware.
Módulos mais potentes.
Inversores melhores.
Trackers mais inteligentes.
Estruturas otimizadas.
Redução de perdas.
Tudo isso continuará sendo importante.
Mas existe outra eficiência começando a ganhar espaço: a eficiência operacional.
Não adianta construir uma excelente usina se administrar seus consumidores se torna caro demais.
Não adianta conquistar centenas de clientes se cada novo consumidor aumenta de maneira desproporcional o custo administrativo.
Não adianta gerar créditos corretamente se a gestão deles cria uma estrutura manual que consome a margem do negócio.
A digitalização entra justamente nessa lacuna.
Ela não produz elétrons.
Mas pode fazer com que o negócio construído ao redor desses elétrons funcione melhor.
Digitalização também é uma estratégia de crescimento
Essa mudança é especialmente importante para empresas que pretendem ganhar escala.
Imagine uma operação que administra dezenas de consumidores.
Depois centenas.
Depois milhares.
Se cada etapa exigir aumento proporcional de pessoas e processos manuais, existe um limite econômico para o crescimento.
O software muda essa relação.
Uma plataforma capaz de automatizar tarefas, organizar informações e padronizar processos permite que a carteira cresça sem exigir que a estrutura administrativa aumente na mesma proporção.
É o princípio básico da escalabilidade aplicado ao setor elétrico.
E, para Boschin, existe um segundo benefício igualmente importante: melhorar a margem.
A automação não serve apenas para trabalhar mais rápido.
Serve para trabalhar com menos desperdício operacional.
Análise EnergyChannel | A próxima revolução da energia também acontecerá nos dados
A energia solar brasileira passou sua primeira grande década construindo ativos físicos.
Painéis.
Inversores.
Usinas.
Subestações.
Linhas.
Milhões de quilowatts de capacidade foram adicionados ao sistema e uma nova indústria nasceu ao redor dessa infraestrutura.
Mas quanto maior esse ecossistema se torna, maior é a quantidade de informação necessária para fazê-lo funcionar.
Cada novo consumidor gera dados.
Cada fatura gera dados.
Cada crédito gera dados.
Cada unidade consumidora gera dados.
Cada contrato gera dados.
Cada mudança regulatória altera a forma como parte desses dados precisa ser interpretada.
É por isso que a digitalização não deve ser vista apenas como uma tendência paralela à transição energética.
Ela é uma consequência da própria expansão das renováveis e da descentralização do sistema.
Quanto mais distribuída se torna a energia, mais sofisticada precisa ser sua gestão.
E existe ainda uma mudança mais profunda acontecendo.
O setor elétrico brasileiro está deixando de ser organizado apenas ao redor de grandes agentes e começa a incorporar um consumidor com maior poder de decisão.
Esse consumidor pode produzir energia.
Pode contratar energia.
Pode comparar propostas.
Pode acompanhar a economia.
E, progressivamente, poderá armazenar e administrar sua própria eletricidade.
Isso muda completamente a relação entre empresa e cliente.
A experiência digital que durante anos foi natural em bancos, telecomunicações, comércio eletrônico e serviços financeiros começa a chegar também à energia.
O consumidor não quer apenas receber uma fatura.
Quer entender o que está acontecendo.
Nesse novo ambiente, empresas capazes de transformar uma operação extremamente complexa em uma experiência simples terão uma vantagem importante.
E talvez esse seja o principal ensinamento da conversa com Frederico Boschin na Intersolar 2026.
Durante muito tempo, a pergunta central do setor solar foi:
Como construir mais usinas?
A próxima pode ser diferente:
Como administrar melhor tudo o que já construímos?
A resposta provavelmente passará por automação, software e inteligência aplicada aos dados.
Porque construir a usina é apenas o começo.
O verdadeiro desafio começa quando milhares de consumidores, créditos, contratos e decisões precisam funcionar juntos todos os dias.
EnergyChannel Special Coverage | The Smarter E South America 2026 (Intersolar)
Entrevistado: Frederico Boschin
Especialidade: Direito de Energia e Setor Elétrico
Participação: Palestrante na edição especial do Hub DG
Entrevista: Ricardo Honório — EnergyChannel
Evento:The Smarter E South America 2026 (Intersolar) São Paulo, Brasil
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A usina está pronta. Agora começa o desafio de gerenciar a energia: digitalização ganha espaço no novo mercado elétrico






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