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Daniel Rosende Völker: “Os projetos renováveis precisam nascer preparados para os sistemas elétricos do futuro”


ENTREVISTA ESPECIAL


Em entrevista ao EnergyChannel, o Managing Director Latin America da SMA Solar Technology, Daniel Rosende Völker, analisa a nova fase do mercado renovável, o avanço do armazenamento de energia, as tecnologias grid forming e os desafios impostos pela expansão das redes, além de apontar como data centers e inteligência artificial deverão transformar a demanda e a infraestrutura elétrica global.


Por Ricardo Honório | EnergyChannel


O mercado global de energia renovável entrou em uma nova etapa. Depois de uma década marcada pela expansão acelerada da capacidade solar e eólica e pela redução dos custos tecnológicos, o setor passa agora por um processo de consolidação, escala e, principalmente, maior sofisticação técnica.


A discussão deixou de estar concentrada apenas em quanto custa instalar um megawatt de capacidade fotovoltaica. Flexibilidade, armazenamento de energia, estabilidade da rede, controle avançado, digitalização e novas formas de remuneração dos ativos passaram a ocupar o centro das decisões de investimento.


Essa transformação foi um dos principais temas da entrevista concedida por Daniel Rosende Völker, Managing Director Latin America da SMA Solar Technology, ao jornalista Ricardo Honório, do EnergyChannel.


Na conversa, o executivo analisou a evolução dos mercados renováveis, os gargalos de transmissão, o avanço dos sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS), as tecnologias grid forming e o surgimento de uma nova geração de projetos híbridos capazes não apenas de produzir energia, mas também de contribuir para a estabilidade dos sistemas elétricos.


Renováveis entram em uma nova fase de maturidade


Para Daniel Rosende, o mercado renovável já superou sua fase inicial e está entrando em um período caracterizado por escala, integração e sofisticação.


Segundo ele, diferentes regiões do mundo vivem momentos distintos dessa transformação. Enquanto a Europa avança rapidamente em flexibilidade, digitalização e serviços de rede, mercados asiáticos estão fortemente concentrados em volume e expansão de infraestrutura. Nos Estados Unidos, mudanças regulatórias caminham paralelamente ao desenvolvimento de soluções relacionadas à estabilidade e digitalização.


Na América Latina, por sua vez, o enorme potencial solar mantém o mercado em trajetória de crescimento, mas traz desafios importantes relacionados à transmissão, armazenamento e bancabilidade dos projetos.


⁠“Hoje entramos em uma fase de escala, integração e também de sofisticação do mercado.”

Na avaliação do executivo, essa mudança altera inclusive a forma como os projetos são concebidos.


O custo por megawatt instalado continua relevante, mas deixa de ser a única variável determinante. O valor passa a estar também na capacidade de combinar geração fotovoltaica, armazenamento, sistemas inteligentes de controle e tecnologias capazes de fornecer energia de maneira mais previsível e flexível.


Em outras palavras, a próxima geração de usinas renováveis deverá entregar mais do que simplesmente megawatts.


Deverá entregar *flexibilidade, estabilidade e capacidade de integração com a rede elétrica*.


O grande gargalo está nas redes elétricas


O crescimento acelerado da geração renovável criou um desafio estrutural: em muitos mercados, a velocidade de implantação de novos projetos passou a ser superior à expansão das redes de transmissão e distribuição.


Daniel destaca que essa diferença já provoca congestionamentos, restrições de conexão e episódios de curtailment quando parte da energia renovável disponível precisa ser cortada ou deixa de ser aproveitada devido às limitações do sistema.


O problema tem consequências que vão além da operação técnica.


Quando um empreendimento não possui segurança sobre quanto conseguirá efetivamente injetar na rede, aumenta a volatilidade das receitas e diminui a previsibilidade financeira, afetando diretamente a confiança dos investidores e a bancabilidade dos projetos.


Na avaliação do executivo da SMA, portanto, ampliar e modernizar as redes será uma das condições fundamentais para sustentar a próxima etapa da transição energética.


Ao mesmo tempo, as próprias usinas precisarão mudar.


De geradores de energia para ativos que ajudam a rede


Uma das transformações mais importantes apontadas durante a entrevista é a evolução conceitual dos projetos renováveis.


Segundo Daniel, novas usinas precisam começar a ser planejadas não apenas como fontes de geração, mas como ativos capazes de *apoiar ativamente a operação da rede elétrica.


É nesse contexto que tecnologias como BESS, eletrônica de potência avançada, sistemas inteligentes de controle e grid forming ganham importância.


Tradicionalmente, grandes sistemas elétricos foram estabilizados por máquinas síncronas associadas principalmente a fontes convencionais de geração. À medida que essas fontes são substituídas por geração renovável baseada em inversores, novas tecnologias precisam assumir parte dessas funções.


Soluções grid forming podem contribuir para controle de tensão e frequência, resposta rápida a contingências e maior estabilidade em sistemas com alta participação de fontes renováveis.


Para Daniel, essa capacidade precisa estar prevista desde o início do empreendimento.


⁠“Os projetos precisam estar preparados desde o começo para as variações regulatórias, os novos requerimentos e a maior complexidade dos sistemas.”

A tentativa de adicionar essas funcionalidades posteriormente, por meio de retrofit, pode ser mais complexa, arriscada e até tecnicamente inviável em determinadas situações.


BESS deixa de ser apenas backup


Outra mudança importante está acontecendo no mercado de armazenamento.


Durante muito tempo, baterias foram associadas principalmente a backup, arbitragem de energia ou mitigação de curtailment.


Esse conceito está mudando rapidamente.


Daniel destaca que o armazenamento passa a fazer parte da própria estratégia de estabilidade das novas redes elétricas.


Em 2025, segundo os números apresentados pelo executivo durante a entrevista, aproximadamente *110 GW de armazenamento foram instalados globalmente*, crescimento de cerca de 40% em relação ao ano anterior, com mais de 80% desse volume associado a projetos de grande escala.


A tendência é que os sistemas BESS assumam funções cada vez mais sofisticadas.


Combinados com tecnologias grid forming e sistemas avançados de controle, poderão ajudar projetos renováveis a fornecer estabilidade, reduzir vertimentos, aumentar previsibilidade operacional e participar de diferentes mercados de serviços elétricos.


Revenue stacking muda a economia do armazenamento


Essa evolução tecnológica também abre espaço para novos modelos de negócio.


Daniel chama atenção para o conceito de revenue stacking, no qual um mesmo ativo de armazenamento pode combinar diferentes fontes de receita.


Em vez de depender exclusivamente da compra e venda de energia, por exemplo, um BESS pode participar de mercados relacionados a potência, serviços complementares, controle de frequência e estabilidade da rede.


Essa combinação pode transformar significativamente a viabilidade econômica dos projetos.


Quanto maior a quantidade de serviços que um ativo consegue oferecer ao sistema, maior tende a ser sua capacidade de geração de receita e, consequentemente, sua atratividade para investidores.


Mercados como Reino Unido e Austrália já avançaram na criação de mecanismos de remuneração relacionados a esses serviços.


Na América Latina, Daniel aponta o Chile como uma das principais referências regionais na incorporação de armazenamento e no desenvolvimento de novos requisitos regulatórios de estabilidade.


SMA apresenta nova arquitetura para solar + armazenamento


Durante a entrevista, Daniel também comentou uma das tecnologias apresentadas pela SMA em 2026.


A companhia anunciou uma nova solução voltada ao acoplamento de armazenamento no lado DC, incorporando também capacidades de grid forming.


Grande parte dos projetos híbridos de armazenamento desenvolvidos até agora utiliza arquiteturas de acoplamento no lado AC. A nova abordagem busca ampliar as possibilidades de integração entre geração solar e baterias.


Entre os potenciais benefícios apontados estão a redução da quantidade de equipamentos de conversão e transformação, otimização do CAPEX e simplificação da arquitetura do sistema.


Essa integração também pode gerar impactos positivos no OPEX, na operação e manutenção e até na pegada ambiental dos projetos, devido à menor utilização de hardware.


Segundo Daniel, a solução despertou interesse global desde seu lançamento e vem sendo acompanhada de perto também por clientes latino-americanos.


Data centers podem deixar de ser apenas grandes consumidores


Outro ponto de destaque da conversa foi o crescimento dos data center's.


A expansão da inteligência artificial está provocando uma corrida global por novas infraestruturas computacionais, algumas delas com demandas energéticas de escala comparável à de grandes instalações industriais.


O primeiro impacto é evidente: aumento significativo da demanda por eletricidade.


Mas Daniel propõe uma visão diferente.


Com armazenamento, tecnologias grid forming e sistemas avançados de gerenciamento energético, os data centers podem deixar de ser vistos exclusivamente como grandes cargas e passar a atuar também como *ativos energéticos capazes de interagir com a rede*.


Baterias e sistemas de controle podem permitir respostas rápidas às condições do sistema elétrico, oferecendo flexibilidade e potencialmente serviços de estabilidade.


Assim, uma infraestrutura criada inicialmente para atender às demandas da inteligência artificial poderia assumir também um papel ativo no funcionamento dos sistemas elétricos.


O futuro será integrado


A mensagem central da entrevista é que a próxima fase da transição energética será muito mais complexa do que simplesmente instalar mais geração solar e eólica.


O desafio passa a ser integrar grandes volumes dessas fontes a sistemas elétricos que precisam continuar operando com segurança, qualidade e estabilidade.


Isso significa aproximar tecnologias que durante anos foram tratadas separadamente:


Geração renovável, armazenamento, eletrônica de potência, digitalização, controle avançado e infraestrutura de rede.


Para Daniel Rosende, os projetos desenvolvidos hoje precisam considerar desde sua concepção os requisitos que provavelmente enfrentarão ao longo de décadas de operação.


A capacidade de responder às necessidades da rede poderá se tornar tão importante quanto a própria capacidade instalada de geração.


E essa transformação também modifica a lógica econômica do setor.


A usina renovável do futuro tende a deixar de ser apenas uma instalação que produz energia quando há sol ou vento.


Ela passa a ser um *ativo energético inteligente*, capaz de produzir, armazenar, controlar, responder e prestar serviços ao sistema elétrico.


Ao encerrar a conversa com o EnergyChannel, Daniel destacou a importância do intercâmbio de conhecimento para acelerar essa evolução e reforçou o compromisso da SMA em contribuir com projetos e discussões relacionadas ao desenvolvimento dos mercados renováveis.


Para um setor que durante anos mediu sua evolução principalmente pela quantidade de gigawatts instalados, a próxima fronteira parece estar ficando clara:


Não será suficiente gerar mais energia renovável. Será necessário integrá-la de maneira cada vez mais inteligente, flexível e estável aos sistemas elétricos do futuro.

Daniel Rosende Völker: “Os projetos renováveis precisam nascer preparados para os sistemas elétricos do futuro”


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