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24 anos sem Lutzenberger

Há 24 anos, em 14 de maio de 2002, o Brasil perdeu José Lutzenberger, mas sua ausência nunca significou silêncio.


24 anos sem Lutzenberger
24 anos sem Lutzenberger

Ao contrário, sua voz continua ecoando em cada debate sobre meio ambiente, em cada iniciativa que busca conciliar desenvolvimento com preservação. Lutzenberger foi engenheiro agrônomo, poliglota, viajante incansável e, sobretudo, um pensador ético que dedicou sua vida a mostrar que a humanidade não é dona da natureza, mas parte dela. Sua trajetória é um convite permanente à reflexão sobre o que significa viver em equilíbrio com o planeta.


Homem de estudos profundos e de uma ética inabalável, Lutzenberger não se deixava seduzir por holofotes. Seu pragmatismo ou, em termos mais simples, sua postura prática e objetiva o levava a buscar soluções concretas e aplicáveis, em vez de discursos vazios. Ele não colecionava prêmios nem honrarias, mas sim resultados: projetos de agricultura regenerativa, defesa contra agrotóxicos, incentivo à produção orgânica e ao plantio direto, práticas que hoje são amplamente difundidas, mas que em sua época pareciam utopias. Sua luta era pela vida, pela biodiversidade e pela dignidade dos povos que dependem da floresta.


Falava várias línguas e percorreu o mundo levando suas ideias. Em Londres, durante uma palestra, o então Príncipe Charles interrompeu o mediador que tentava encerrar a fala de Lutzenberger e disse: “Deixe-o prosseguir. O que ele diz é puro ouro.”


Essa lembrança, registrada por Ed Posey da The Gaia Foundation, mostra o impacto universal de sua mensagem. Na Amazônia, seus encontros com lideranças locais e indígenas reforçaram sua convicção de que a floresta em pé é infinitamente mais valiosa do que qualquer exploração predatória. Lutzenberger foi aliado de Chico Mendes, Ailton Krenak e tantos outros guardiões da natureza, fortalecendo a resistência contra a devastação planejada.


Seu acervo, hoje cuidado pela Fundação Gaia com apoio de voluntários, é um tesouro de cartas, artigos e fotografias. As imagens revelam um homem espontâneo, sempre em ação, mais preocupado em trabalhar do que em posar. Aproximando-me desse legado, convivendo com pessoas que o conheceram, especialmente suas filhas Lara e Lilly, descubro histórias que revelam não apenas o ambientalista, mas o ser humano que acreditava na possibilidade de uma sociedade inteligente e integrada com a natureza.


É curioso pensar que Lutzenberger, em vida, talvez não aprovasse esse esforço de manter viva sua memória. Diria que é “improdutivo” gastar energia com homenagens quando o essencial é agir. Mas justamente por isso sua lembrança é tão necessária. Desde sua partida, a natureza sofreu golpes severos e a humanidade ainda não encontrou um caminho para frear a degradação acelerada. Seus ensinamentos precisam ser semeados novamente, para que germinem em novas gerações e iluminem consciências antes que pontos de não retorno tornem-se irreversíveis.


Lutzenberger não era político no sentido convencional. Sua crítica ao capitalismo não se baseava em ideologias, mas na constatação de que o modelo econômico voltado apenas ao lucro destrói a base da vida. Ele mostrava que qualquer sistema, seja qual for sua orientação, pode e deve integrar-se à natureza. Sua visão era ética e filosófica: cultivar uma sociedade que se reconheça como parte de um organismo maior, que preserve em vez de explorar, que regenere em vez de degradar.


Hoje, a Fundação Gaia trabalha para que sua mensagem inspire novos despertares. O centenário de seu nascimento, em 2026, torna esse resgate ainda mais significativo. Lutzenberger nos deixou um mapa de possibilidades: agricultura familiar, produção orgânica, defesa da biodiversidade. Cabe a nós seguir suas trilhas, não como quem reverencia um ícone, mas como quem assume um compromisso. Sua voz, mesmo após 24 anos, continua necessária. Sua mensagem ainda precisa ser semeada e gerar frutos. Porque, como ele nos ensinou, não somos proprietários da Terra somos parte dela. E é nesse reconhecimento que reside a esperança de um futuro possível.


Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética


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