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  • SkyRail da BYD: o ambicioso monotrilho verde que ainda busca seu caminho

    Após investir mais de US$ 1 bilhão no desenvolvimento de monotrilhos elétricos, a BYD tenta transformar o SkyRail em um novo símbolo de mobilidade sustentável mas o projeto enfrenta lentidão na adoção e estruturas ainda subutilizada. SkyRail da BYD: o ambicioso monotrilho verde que ainda busca seu caminho A gigante chinesa BYD , conhecida mundialmente pela liderança em veículos elétricos e baterias de íon-lítio, também sonha em revolucionar o transporte urbano sobre trilhos. Com o SkyRail , um sistema de monotrilhos elétricos de baixa emissão, a empresa apostou em uma visão ousada: oferecer uma solução de mobilidade limpa, silenciosa e economicamente acessível para cidades congestionadas e poluídas. Lançado oficialmente em 2016, o projeto recebeu investimentos superiores a US$ 1 bilhão  e foi apresentado como uma alternativa sustentável aos metrôs e ônibus tradicionais. O sistema, totalmente elétrico e automatizado, prometia reduzir custos de construção, minimizar o impacto urbano e gerar emissões quase nulas. No entanto, quase uma década depois, o retorno desse investimento ainda não se concretizou. Diversas linhas e estruturas permanecem ociosas , e as expansões internacionais previstas não avançaram no ritmo esperado. Em algumas cidades chinesas, os monotrilhos funcionam parcialmente, com trechos limitados e demanda abaixo do projetado. Mesmo assim, o fundador da empresa, Wang Chuanfu , mantém o discurso otimista. Ele continua a apresentar o SkyRail como uma “ solução verde para o futuro da mobilidade urbana ”, destacando que a transição para sistemas elétricos integrados é inevitável nas grandes cidades. O desafio, segundo especialistas, está em convencer governos e investidores de que o modelo pode ser escalável e competitivo frente a outros modais sustentáveis, como os ônibus elétricos , sistemas de VLT  e até redes de transporte por hidrogênio , que ganham força em países como Japão e Alemanha. Além da China, o SkyRail chegou a ser anunciado em projetos no Brasil, Egito e Filipinas , mas boa parte das iniciativas segue em fase de planejamento ou sem avanço prático. Em 2023, a BYD voltou a enfatizar o potencial do monotrilho como parte do seu ecossistema de mobilidade elétrica que inclui desde carros de passeio e caminhões até soluções para transporte público e armazenamento de energia. Enquanto o setor de veículos elétricos da empresa bate recordes de vendas globais, o SkyRail permanece como um lembrete dos riscos de inovar em áreas complexas de infraestrutura urbana. Ainda assim, para a BYD, o projeto continua sendo uma vitrine tecnológica  e uma aposta de longo prazo na transformação das cidades em ambientes inteligentes, interconectados e de baixo carbono . SkyRail da BYD: o ambicioso monotrilho verde que ainda busca seu caminho

  • Brasil como vetor da integração energética sul-americana

    Por Laís Víctor – Especialista em energias renováveis e Diretora executiva Brasil como vetor da integração energética sul-americana A urgência climática, combinada à crescente pressão internacional por metas concretas de descarbonização, tem transformado profundamente a forma como os países pensam e estruturam seus sistemas energéticos. Na América do Sul, essa transformação passa, necessariamente, por uma pergunta estratégica: será possível construir uma rede energética regional integrada, segura e limpa, que atenda às demandas ambientais, sociais e econômicas do presente e do futuro? O Brasil, com sua matriz elétrica majoritariamente renovável e uma geografia que favorece a produção em larga escala de energia solar, eólica e hidrelétrica, está em posição privilegiada para liderar esse processo. Mas liderança regional em energia não se limita à capacidade de geração. Ela exige articulação política, visão estratégica, vontade de cooperação e, principalmente, ação coordenada entre governos, reguladores, investidores e empresas. A integração energética sul-americana, portanto, vai além de uma escolha técnica. Trata-se de uma oportunidade concreta para o Brasil exercer influência positiva, fortalecer laços comerciais e diplomáticos, reduzir custos sistêmicos e impulsionar um modelo de desenvolvimento mais resiliente. Neste artigo, abordarei como a interconexão elétrica entre países, os acordos bilaterais em andamento e os desafios técnicos e regulatórios moldam esse cenário. E porque, agora, mais do que nunca, o Brasil precisa assumir um papel de liderança ativa na construção do futuro energético da região. Panorama das interconexões elétricas existentes O Brasil já conta com interconexões elétricas operacionais com diversos países sul-americanos entre eles Uruguai, Argentina, Paraguai e Venezuela. Essas ligações, que somam mais de 6 GW de capacidade instalada segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), foram projetadas originalmente para garantir segurança energética em momentos críticos, mas hoje se revelam como ativos estratégicos diante de um novo cenário: a transição para uma matriz regional mais limpa, flexível e integrada. Brasil como vetor da integração energética sul-americana Um dos exemplos mais emblemáticos dessa cooperação é a Usina Hidrelétrica Binacional de Itaipu, compartilhada com o Paraguai. Além de seu papel histórico na segurança energética dos dois países, Itaipu é também um símbolo de integração energética bem-sucedida. A energia gerada na usina é transmitida para o Sudeste brasileiro por meio do sistema HVDC Itaipu, que utiliza corrente contínua para garantir maior eficiência e menor perda técnica na longa distância até o estado de São Paulo. Em outros pontos da fronteira, como no Sul do país, a interconexão com o Uruguai permite o intercâmbio em tempo real de energia, especialmente em momentos de pico de geração renovável de um dos lados. Já com a Argentina, os fluxos têm ocorrido de forma pontual, geralmente em contextos de escassez hídrica ou sobrecarga do sistema argentino, revelando uma dinâmica de complementaridade que ainda pode ser bastante ampliada. Estudos publicados pelo Grupo de Estudos do Setor Elétrico (GESEL/UFRJ), no documento “Integração elétrica internacional do Brasil”, apontam que essas conexões têm sido utilizadas com frequência abaixo do seu potencial. Os fatores que contribuem para essa subutilização são variados desde gargalos técnicos na infraestrutura de transmissão até limitações regulatórias e ausência de mecanismos tarifários regionais bem definidos. O próprio Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2034), elaborado pela EPE, indica que a expansão da malha de transmissão brasileira não tem ocorrido no mesmo ritmo das oportunidades de integração regional. A falta de planejamento conjunto entre países e a carência de investimentos estruturantes para modernizar e ampliar essas conexões podem comprometer o papel do Brasil como hub energético continental. Em outras palavras, o Brasil já possui a base técnica e institucional para atuar como protagonista regional, mas ainda precisa superar os desafios que impedem o pleno aproveitamento dessa rede de interligações. A questão não é apenas ampliar a infraestrutura, mas também alinhar regras, sincronizar decisões e, acima de tudo, estabelecer uma visão compartilhada de futuro energético para a América do Sul. Oportunidades para exportação de excedentes renováveis O avanço das fontes renováveis no Brasil, sobretudo solar e eólica, tem ampliado significativamente a geração de energia limpa além da demanda nacional em determinados períodos. Essa dinâmica cria um cenário cada vez mais favorável à exportação de excedentes para países vizinhos, reforçando o papel do Brasil como fornecedor estratégico de eletricidade renovável na América do Sul. Atualmente, as exportações de energia elétrica ocorrem principalmente com Argentina e Uruguai, por meio das interligações já existentes nas regiões Sul e Centro-Oeste. Essas exportações são mais frequentes em momentos de vertimento dos reservatórios ou em períodos de elevada geração hidrelétrica, quando o sistema brasileiro atinge capacidade acima das necessidades internas. Vale destacar que o excedente renovável brasileiro não se limita à geração hídrica. Em 2023, a geração por biomassa atingiu 24 mil gigawatts-hora (GWh) , frente aos 22 mil GWh registrados em 2022, sinalizando crescimento consistente em uma fonte que, embora menos visada, tem papel importante na diversificação e estabilidade da matriz. Essa expansão reflete o potencial do setor sucroenergético, do biogás e de resíduos agrícolas como fontes complementares à base renovável nacional. No caso das regiões Norte e Nordeste, onde a produção solar e eólica tem crescido em ritmo acelerado, o desafio principal está em viabilizar a escoação dessa energia até os centros de consumo ou exportação. Estimativas da EPE, confirmadas por análises recentes da MegaWhat, apontam que a liberação de cerca de 4 gigawatts (GW)  de nova capacidade de transmissão será fundamental para destravar projetos já outorgados e permitir a expansão da geração renovável voltada ao mercado externo. Esses investimentos são essenciais para evitar o chamado “estrangulamento de rede” e garantir a fluidez dos fluxos energéticos tanto internos quanto internacionais. Diante desse cenário, cresce o interesse de países como a Argentina, que enfrentam limitações em suas capacidades de geração e buscam reduzir a dependência de fontes fósseis. A energia exportada pelo Brasil, por ser limpa, abundante e, muitas vezes, mais barata, torna-se uma alternativa competitiva para abastecer mercados regionais que precisam avançar em suas metas de transição energética. A construção de uma agenda comercial estruturada, com contratos de médio e longo prazo, poderia transformar esses fluxos ainda pontuais em um mercado regional robusto de energia renovável, promovendo estabilidade, previsibilidade e ganhos mútuos. Para isso, no entanto, será necessário avançar na integração regulatória, criar mecanismos de precificação justos e adotar modelos contratuais que ofereçam segurança jurídica às partes envolvidas. Em resumo, o Brasil não apenas tem excedentes renováveis crescentes ele tem, sobretudo, a oportunidade de convertê-los em influência estratégica e liderança regional em energia limpa. Acordos bilaterais em andamento O avanço da cooperação energética regional tem ganhado novo fôlego com a retomada de diálogos diplomáticos e técnicos entre o Brasil e seus países vizinhos. A integração elétrica deixou de ser apenas um tema de contingência para emergências energéticas e passou a ser considerada uma estratégia permanente de fortalecimento regional. Nesse contexto, os acordos bilaterais se consolidam como instrumentos práticos e fundamentais para viabilizar trocas energéticas mais eficientes, previsíveis e alinhadas com as metas de transição energética. Recentemente, o Ministério de Minas e Energia (MME), em parceria com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), anunciou a abertura de estudos para avaliar novas possibilidades de interligação com a Bolívia . A proposta envolve principalmente a conexão de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e sistemas isolados localizados em regiões de fronteira, com o objetivo de atender áreas carentes de infraestrutura e, ao mesmo tempo, permitir fluxos de energia exportável para o país vizinho. Trata-se de uma oportunidade relevante tanto do ponto de vista energético quanto geopolítico, pois reforça a presença brasileira em áreas estratégicas da Amazônia Legal e contribui para o desenvolvimento regional. Com o Uruguai , a integração é a mais consolidada da região. Há um intercâmbio ativo em tempo real, sustentado por infraestrutura moderna e por um histórico de cooperação técnica contínua. Essa parceria tem sido particularmente útil nos momentos em que a geração renovável intermitente, como solar e eólica, exige maior flexibilidade e respaldo no suprimento. No caso da Argentina , os diálogos têm se intensificado com foco na ampliação da capacidade de interconexão elétrica entre os dois países. O objetivo é criar condições estruturais para que o Brasil possa exportar energia de forma mais recorrente e em volumes superiores, especialmente quando suas ofertas forem mais competitivas que a geração térmica argentina, fortemente dependente do gás natural. A crise energética enfrentada pela Argentina em anos recentes tem impulsionado esse movimento, abrindo espaço para a construção de uma agenda conjunta de segurança energética. Paralelamente, observa-se também uma aproximação no setor de gás natural. Projetos como a extensão do gasoduto Néstor Kirchner até a fronteira brasileira ou o desenvolvimento de hubs de GNL no Sul do país reforçam a perspectiva de uma integração energética mais ampla, que combine eletricidade e gás natural  como vetores complementares. Essa abordagem integrada fortalece a segurança do suprimento regional e amplia o portfólio de soluções disponíveis para a transição energética. No entanto, apesar desses avanços, os acordos bilaterais ainda não atingem escala plena. Um dos principais entraves é a inexistência de mecanismos padronizados de compensação e tarifação pelo uso das redes transfronteiriças. Cada país adota regras e metodologias distintas para cálculo de tarifas, o que dificulta a previsibilidade e a atratividade dos contratos de intercâmbio. Além disso, há assimetrias regulatórias significativas envolvendo desde critérios de despacho até exigências ambientais e fiscais que impõem barreiras operacionais e jurídicas à integração em larga escala. Superar essas barreiras depende de uma atuação conjunta entre governos, agências reguladoras e operadores dos sistemas. A criação de fóruns técnicos permanentes, o compartilhamento de dados operacionais e o desenvolvimento de modelos de contratos binacionais mais flexíveis podem ser caminhos viáveis para acelerar essa agenda. A construção de confiança institucional entre os países será o ativo mais importante para que os acordos deixem de ser pontuais e passem a compor uma política energética regional articulada e duradoura. Obstáculos técnicos e regulatórios Embora o potencial de integração energética regional seja promissor, sua concretização plena ainda esbarra em uma série de desafios técnicos e regulatórios que precisam ser enfrentados com pragmatismo, coordenação política e visão de longo prazo. Mais do que questões operacionais, trata-se de construir um arcabouço institucional capaz de sustentar um mercado regional de energia renovável seguro, competitivo e confiável. Um dos principais entraves é o desalinhamento regulatório entre os países sul-americanos. Cada sistema elétrico possui suas próprias regras para contratação de energia, definição de tarifas, estrutura de garantias e incentivos à geração renovável. Essa heterogeneidade torna complexa a formulação de contratos transfronteiriços, pois compromete a previsibilidade e dificulta o equilíbrio de riscos entre as partes. Por exemplo, enquanto o Brasil utiliza leilões centralizados para expansão da oferta, outros países operam com sistemas de contratos bilaterais ou subsídios diretos à geração local. Outro ponto crítico é o custo de transmissão associado às longas distâncias e ao cruzamento de fronteiras. Para permitir o intercâmbio eficiente de energia entre países, são necessários investimentos robustos em linhas de alta tensão, subestações conversoras e tecnologias que minimizem perdas técnicas. Esses projetos exigem planejamento conjunto, alinhamento de cronogramas e definição clara de quem arca com os custos e como serão remunerados os ativos transfronteiriços o que, até hoje, ainda não foi padronizado na região. A padronização operativa também representa um desafio significativo. Sistemas nacionais operam com distintos níveis de confiabilidade, critérios de despacho, frequências nominais e esquemas de proteção. Em uma rede interconectada, essas diferenças podem gerar instabilidades e riscos operacionais. Garantir a sincronia entre sistemas que combinam fontes variáveis (como solar e eólica) com fontes estáveis (como hidrelétricas) exige protocolos técnicos harmônicos e interoperabilidade entre os Centros de Operação dos Sistemas (COS) de cada país. No campo institucional, a viabilização de financiamentos internacionais é outro gargalo. Projetos de integração regional envolvem riscos políticos, cambiais e regulatórios, o que muitas vezes afasta investidores privados. Para contornar isso, é fundamental que instituições multilaterais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Corporação Andina de Fomento (CAF) e o Banco Mundial participem ativamente do desenho e financiamento dessas iniciativas. Além de recursos, essas entidades oferecem credibilidade, capacidade técnica e instrumentos para mitigar riscos. Ainda, os próprios contratos internacionais de intercâmbio precisam ser aprimorados. A ausência de mecanismos claros de garantias, penalidades e compensações monetárias dificulta a comercialização de energia em bases sustentáveis. A experiência da Usina de Itaipu mostrou que é possível estruturar modelos binacionais de sucesso, mas replicar isso para outras fronteiras requer arcabouços legais específicos e diplomacia ativa. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), por sua vez, define atualmente as modalidades possíveis de exportação e importação de energia nos casos do Brasil: intercâmbio por devolução (emergencial), por oportunidade (em momentos de excedente) ou em bases comerciais restritas. Essas categorias, detalhadas no documento normativo IOCG.BR .05, limitam a amplitude da comercialização, uma vez que não preveem, por exemplo, contratos de fornecimento contínuo ou de longo prazo com plena liberdade de precificação e liquidação bilateral. Superar esses entraves exigirá mais do que vontade política. É necessário construir um modelo de governança regional que una competências técnicas, jurídicas e econômicas, com instrumentos adequados para lidar com os diferentes graus de maturidade regulatória entre os países. Apenas com segurança jurídica, alinhamento institucional e uma arquitetura operacional confiável será possível transformar o potencial técnico em realidade econômica para toda a região. O papel do Brasil nos fóruns regionais O Brasil ocupa uma posição geopolítica e energética privilegiada na América do Sul. Como maior gerador e consumidor de energia do continente, e com uma matriz elétrica composta por mais de 80% de fontes renováveis, o país tem não apenas capacidade técnica, mas também responsabilidade estratégica para liderar os debates e iniciativas de integração energética regional. Nos fóruns institucionais como Mercosul, UNASUL e CEPAL , o Brasil tem exercido uma voz ativa nas discussões sobre infraestrutura, segurança energética, cooperação técnica e desenvolvimento sustentável. Esses espaços multilaterais são fundamentais para alinhar agendas entre os países, harmonizar marcos regulatórios e viabilizar projetos de infraestrutura transfronteiriça. Em especial no âmbito do Mercosul, onde já há grupos técnicos formados por representantes de ministérios de energia e agências reguladoras, o Brasil pode impulsionar a criação de instrumentos jurídicos e operacionais para facilitar o comércio de energia elétrica entre os países-membros. Além disso, estudos publicados pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), como o relatório Integração Energética Regional , indicam claramente as áreas prioritárias para cooperação técnica e os corredores de transmissão com maior viabilidade econômica. O documento destaca que, para além da infraestrutura, a integração depende de um esforço coordenado para desenvolver modelos institucionais e financeiros robustos, com regras claras, mecanismos de governança e metas compartilhadas de longo prazo. Nesse contexto, o Brasil pode atuar como hub regional de know-how técnico e diplomático, promovendo a padronização de processos, o intercâmbio de boas práticas e a capacitação de operadores, planejadores e reguladores do setor elétrico. O país já possui instituições de excelência como o ONS, a EPE, a ANEEL e centros de pesquisa como o CEPEL capazes de liderar missões técnicas, formar redes de cooperação e fornecer suporte a países com menor capacidade institucional. Em um segundo plano, mas não menos importante, está a atuação brasileira nos fóruns multilaterais de clima e financiamento internacional, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a Corporação Andina de Fomento (CAF) e o Banco Mundial. A partir dessas instituições, é possível desenhar mecanismos de crédito e garantias específicos para projetos de integração energética regional, incluindo linhas para expansão de linhas de transmissão, construção de subestações binacionais, modernização de interligações existentes e implantação de tecnologias de medição e controle transfronteiriço. Esses organismos multilaterais também podem apoiar a criação de um “Fundo Regional de Transição Energética Justa”, que canalize recursos para infraestrutura resiliente, com critérios de sustentabilidade e inclusão social, alinhados às metas climáticas do Acordo de Paris. O Brasil, ao assumir protagonismo nessa agenda, reforça sua posição de liderança não apenas técnica, mas também política e institucional na transição energética continental. Por fim, vale destacar que a diplomacia energética brasileira pode e deve atuar de forma propositiva. Em vez de esperar por consensos frágeis, o país pode liderar pela demonstração de viabilidade: apresentando projetos-piloto, mobilizando consórcios binacionais, e oferecendo seu próprio modelo de regulação e operação como referência para harmonização regional. A liderança não precisa ser imposta ela pode ser exercida por influência, coerência e capacidade de entregar resultados. Integração é infraestrutura, mas também decisão O Brasil tem, hoje, uma oportunidade concreta de transformar seu potencial energético em liderança regional. A combinação de matriz renovável consolidada, capacidade de geração excedente e posição geográfica estratégica coloca o país no centro das discussões sobre uma nova fase de integração elétrica sul-americana mais limpa, mais eficiente e mais colaborativa. Mas essa liderança não se impõe apenas com megawatts. Ela se constrói com coordenação diplomática, alinhamento regulatório, investimento em infraestrutura e vontade política. Os dados mostram que as interconexões existem, os excedentes estão disponíveis e os acordos já começaram a se formar. O que falta é transformar esse cenário em política de Estado, com visão de longo prazo e articulação entre governo, setor privado e instituições regionais. Assumir esse protagonismo não é apenas viável. É estratégico. Significa reforçar a segurança energética da região, abrir novos mercados para a energia brasileira, atrair investimentos estrangeiros e consolidar a imagem do Brasil como referência global em transição energética. O momento de avançar é agora com pragmatismo, cooperação e ambição proporcional ao desafio. Sobre a autora   Laís Víctor é especialista em energias renováveis e diretora executiva de parcerias, com 14 anos de atuação no setor de energia. Sua atuação inclui o desenvolvimento de negócios, estruturação de alianças estratégicas e apoio à atração de investimentos para projetos de transição energética, com foco na construção de ecossistemas sustentáveis e inovação no mercado global de renováveis.  Brasil como vetor da integração energética sul-americana

  • Ovelhas sob o sol: a nova fronteira da agricultura solar nos Estados Unidos

    Nos Estados Unidos, uma revolução silenciosa está transformando o campo e ela vai muito além da colheita tradicional. Ovelhas sob o sol: a nova fronteira da agricultura solar nos Estados Unidos À medida que a demanda por energia limpa cresce, um número crescente de fazendas rurais tem encontrado uma maneira criativa de unir produção agrícola e geração solar: os “projetos agrovoltaicos”, onde painéis solares dividem espaço com pastagens e... ovelhas. A integração entre energia solar e pecuária está mostrando que é possível produzir eletricidade e alimento no mesmo terreno, sem comprometer a fertilidade do solo ou a tradição agrícola local. Enquanto os painéis captam luz solar para gerar eletricidade, os rebanhos de ovelhas ajudam a controlar naturalmente a vegetação sob as estruturas, substituindo o uso de tratores e herbicidas um exemplo claro de economia circular aplicada ao campo. De acordo com o American Farmland Trust , muitos agricultores veem nessa combinação um caminho para preservar suas terras e diversificar a renda. Em uma pesquisa recente realizada na Virgínia, quase dois terços dos produtores afirmaram que a energia solar é mais adequada para áreas menos produtivas, reduzindo a pressão sobre solos férteis e mantendo a vocação agrícola das propriedades. Os defensores dessa tendência destacam que a energia solar é muito mais eficiente no uso da terra do que os biocombustíveis. Enquanto o etanol consome cerca de 30 milhões de acres de milho nos EUA, um único acre de painéis solares pode gerar a mesma quantidade de energia que 31 acres destinados ao etanol. Além de ser mais produtiva, a energia solar reduz o impacto ambiental, evitando o escoamento de fertilizantes e diminuindo a erosão do solo. Entretanto, a decisão de instalar painéis solares em fazendas ainda envolve dilemas pessoais e culturais. Para muitos produtores, a terra é mais do que um ativo é herança, identidade e legado familiar. A adoção da energia solar, portanto, vem acompanhada de debates sobre equilíbrio: entre tradição e inovação, produção de alimentos e geração de energia, passado e futuro. O que parece certo é que a “nova colheita solar” está lançando as bases de um modelo mais resiliente para a agricultura americana um modelo onde ovelhas e painéis podem, lado a lado, cultivar sustentabilidade. Ovelhas sob o sol: a nova fronteira da agricultura solar nos Estados Unidos

  • Brookfield aposta em células de combustível da Bloom Energy para impulsionar data center's de IA com energia limpa

    A transição energética do setor digital ganhou um novo impulso. A gestora global Brookfield Asset Management  anunciou uma parceria estratégica com a Bloom Energy , empresa californiana especializada em soluções de energia limpa, para expandir o uso de células de combustível de óxido sólido  em data center's de inteligência artificial (IA)  em todo o mundo. O acordo prevê investimentos de até US$ 5 bilhões  na implantação da tecnologia. Imagem apenas ilustrativa, IA - Brookfield aposta em células de combustível da Bloom Energy para impulsionar data center's de IA com energia limpa A colaboração surge em um momento em que o consumo de energia dos data center's especialmente os dedicados à IA cresce de forma exponencial. A solução da Bloom Energy promete uma alternativa sustentável e de alta confiabilidade: sistemas capazes de gerar eletricidade no próprio local, sem depender das redes elétricas tradicionais, com baixo teor de carbono e alta eficiência . “A IA está redefinindo a infraestrutura digital global, e isso exige uma nova abordagem energética”, destacou um porta-voz da Brookfield. “Com a tecnologia da Bloom, conseguimos garantir uma operação contínua e limpa, fundamental para o futuro da computação intensiva.” Fundada em 2001, a Bloom Energy  é referência em geração distribuída de energia elétrica e hidrogênio. Suas células de combustível convertem hidrogênio e oxigênio em eletricidade  por meio de um processo eletroquímico sem combustão, reduzindo drasticamente as emissões de carbono. A empresa já opera centenas de megawatts em data centers de grandes companhias, como American Electric Power, Equinix e Oracle . Agora, com o aporte da Brookfield, a expectativa é acelerar a implantação global  dessas soluções e atender à nova onda de demanda energética provocada pela IA . Brookfield aposta em células de combustível da Bloom Energy para impulsionar data centers de IA com energia limpa

  • Stegra acelera corrida global pelo aço verde com nova rodada de investimentos para megaprojeto na Suécia

    A startup sueca pretende transformar a indústria do aço com uma planta movida a hidrogênio verde, prometendo reduzir drasticamente as emissões e inaugurar uma nova era na siderurgia mundial. Créditos da imagem Stegra EnergyChannel International A sueca Stegra  acaba de anunciar uma nova rodada de financiamento para impulsionar a construção da primeira usina siderúrgica verde de grande escala do mundo , localizada em Boden , no norte da Suécia. O projeto, que já atraiu forte apoio de investidores estratégicos e fundos voltados à transição energética, marca um passo decisivo rumo à descarbonização da indústria do aço , um dos setores mais intensivos em emissões de CO₂ do planeta. Fundada em 2020 , a Stegra desenvolveu um processo inovador que substitui o carvão por hidrogênio verde  na separação do oxigênio do minério de ferro etapa responsável pela maior parte das emissões na siderurgia convencional. O método elimina praticamente todo o uso de combustíveis fósseis e opera com eletricidade proveniente de fontes 100% renováveis , como energia eólica e hidrelétrica. A construção da planta teve início em 2022 , e a empresa prevê o início das operações em 2026 . A meta é ambiciosa: alcançar a produção anual de cinco milhões de toneladas de aço verde até 2030 . Caso atingida, essa capacidade colocará a Stegra na vanguarda da revolução industrial verde, posicionando a Suécia como referência global em siderurgia sustentável . Segundo a companhia, o novo ciclo de investimentos será direcionado à expansão da infraestrutura, aquisição de equipamentos de alta eficiência e fortalecimento das parcerias estratégicas com fornecedores de energia e tecnologia. A aposta da Stegra reflete uma tendência crescente na Europa : o surgimento de polos industriais dedicados à produção de materiais com baixo carbono, apoiados por políticas de incentivo climático e pela demanda de grandes compradores corporativos por cadeias de suprimento mais limpas. Com o avanço desse projeto, a Stegra se junta a um movimento que pode redefinir os padrões de sustentabilidade e competitividade no mercado global de aço , abrindo caminho para um futuro industrial de emissões quase nulas. Stegra acelera corrida global pelo aço verde com nova rodada de investimentos para megaprojeto na Suécia

  • Sob ataque — e crescendo: como o mercado solar resiste ao lobby global da energia

    Por Eduardo Nicol, PMP, MBA  CFO @SUN-I Solar Energy USA / CEO Renew Energia BR O setor solar, de baterias e recarga veicular vive um paradoxo. De um lado, enfrenta tarifas novas, medidas provisórias controversas, campanhas de desinformação e pressões das grandes corporações de energia. De outro, continua crescendo — e rápido. A pergunta que não quer calar é: como?  Sob ataque — e crescendo: como o mercado solar resiste ao lobby global da energia O jogo do poder:  O lobby que não dorme. Em todo o mundo, o lobby das fontes fósseis e das concessionárias tradicionais tenta frear o avanço das renováveis. O argumento muda conforme o país: ora dizem que a energia solar é 'subsidiada', ora que 'prejudica a rede'. No Brasil, isso se traduziu em tentativas legislativas e regulatórias para restringir a geração distribuída. A boa notícia é que a reação do mercado e das entidades técnicas tem sido igualmente forte.  Lei 14.300: um escudo legal, ainda que permeável. O marco legal da micro e minigeração distribuída, sancionado em 2022, trouxe estabilidade mínima para quem investe em solar. A Lei 14.300/22 garantiu regras claras de compensação, prazos de transição e segurança jurídica para projetos já protocolados até janeiro de 2023 válidos até 2045. Foi uma vitória da articulação do setor, liderada por entidades como a ABSOLAR, deixou passar uma serie de bombas relógio e indefinições que nos deixaram a mercê do jogo político.  Mas o escudo não é invencível.   MP 1300 e MP 1304: o retorno das ameaças  Em 2025, a MP 1300 tentou alterar dispositivos do setor elétrico e incluir encargos que afetariam diretamente a geração distribuída. Graças à mobilização técnica e política, os trechos mais nocivos foram retirados antes da aprovação. Mas a nova MP 1304 reintroduziu parte das ameaças, sob o argumento de 'corrigir distorções tarifárias'. Cada nova MP representa uma quebra de previsibilidade, o que reduz investimentos e aumenta o custo de capital.  Enquanto isso, lá fora…  Os EUA desligam o incentivo Nos Estados Unidos, o mercado solar passou por um verdadeiro apagão de incentivos durante o governo Trump. A dedução fiscal de 30% — o Investment Tax Credit (ITC) — foi suspensa ou reduzida. Programas como o Solar for All, que financiavam projetos residenciais de baixa renda, foram cancelados. Mesmo assim, a combinação de queda de custos e força dos estados manteve o setor vivo. A lição é clara: depender apenas de incentivos é arriscado.  Brasil vs. EUA: dois caminhos diferentes sob o mesmo sol Por que então o mercado solar segue crescendo  Custos em queda, inovação técnica, novos modelos financeiros, mobilização institucional e força da demanda. Mesmo sob ataque, o setor amadurece e ganha autonomia econômica.  Hoje, energia solar é infraestrutura essencial — não apenas uma alternativa. A resposta à pergunta Diante de tarifas, lobby e incertezas, o mercado solar continua crescendo porque não depende mais só da vontade política. Depende da maturidade tecnológica, da força da sociedade civil, da pressão dos consumidores e de modelos de negócio adaptáveis. O que antes era 'energia alternativa' hoje é infraestrutura essencial.  E por isso a resposta é simples:  Porque o sol não faz lobby e, como a água, quando encontra barreiras, não recua: contorna, avança e as dissolve com a força radiante que constrói um futuro melhor.  Sob ataque — e crescendo: como o mercado solar resiste ao lobby global da energia

  • ANEEL quer Travar CDE em 2025: Controle de Danos ou um Teto Alto Demais?

    O Peso Invisível na Conta de Luz A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) comentou que quer realizar uma medida que promete redefinir o futuro das tarifas de energia no Brasil, visto que quer usar o orçamento recorde de 2025 como teto permanente para a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). Custos de energia podem aumentar caso nada seja resolvido. Desde 2013, o orçamento das despesas da CDE já custaram aos consumidores R$ 331,31 bilhões , com crescimento acumulado de 249% . Este aumento impacta diretamente a fatura, especialmente a TUSD-CDE , que em 2025 registrou aumentos médios superiores a 30% nos reajustes anuais. A TUSD-CDE é a Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição acrescida dos encargos da CDE, que representa cerca de 10-20% na tarifa de aplicação residencial. O que é a CDE e por que ela custa tanto? Criada pela MP 579/2012 , convertida na Lei 12.783/2013 , a CDE nasceu para centralizar subsídios dispersos no setor elétrico. Passando o tempo acabou se tornando uma estrutura orçamentária robusta que absorve gradualmente diversas responsabilidades do setor elétrico, é um grande orçamento que retorna basicamente todo em tarifa para o consumidor, e tem alguns subsídios como os abaixo: Incentivos a fontes renováveis  (solar e eólica), via descontos na tarifa de uso do sistema. Subsídios à geração distribuída (GD) , especialmente após a Lei 14.300/2020. Programas sociais , como a Tarifa Social de Energia Elétrica (TSEE) . Universalização do acesso à energia elétrica , incluindo regiões remotas. Conta de Consumo de Combustíveis (CCC) , que subsidia a geração em sistemas isolados, principalmente no Norte. Despesas por tipo de subsídios avaliados anualmente (Fonte: ANEEL, elaborado pelo autor) A centralização aumentou o controle regulatório, mas a adição contínua de novas responsabilidades sem revisão das fontes de custeio gerou pressões crescentes sobre a tarifa. Para Onde Vai o Dinheiro? Em 2025, cinco grandes grupos de subsídios representam mais de 60% do orçamento da CDE: Subsídio Acumulado (2013-2025) Crescimento (desde 2013) Participação 2025 Valor em 2025 (R$ bi) CCC (Conta de Combustíveis) R$ 102,75 bi +211,88% 25,58% 12,60 Desconto Consumidores Incentivados R$ 50,11 bi +1.332,19% 22,94% 11,30 Encargo Geração Distribuída (Lei 14.300) R$ 6,04 bi +421,37% (desde 2023) 7,43% 3,66 Desconto Transmissoras Incentivadas R$ 13,36 bi +1.021,53% 6,56% 3,23 Desconto Geradores Incentivados R$ 5,41 bi +407,14% 1,59% 0,78 Fonte: ANEEL, elaborado pelo autor. A análise dos dados revela um crescimento exponencial nos subsídios para fontes incentivadas e GD, enquanto a CCC se mantém como o maior custo individual do setor. Um ponto diferenciado é a velocidade da expansão do encargo associado à GD, ele foi instituído em 2023, mas já equivale a mais de 12% do valor do subsídio concedido a consumidores incentivados, um benefício que existe há mais de uma década. Tal fato demonstra a trajetória de crescimento acelerado. Ponto importante para se comentar, mas após 2020 notamos que o aumento direto para a CDE cresceu muito, se avaliar de 2021 para 2022 tivemos mais de 34% de acréscimo, que se manteve aumentando cada vez mais. Evolução crescimentos anuais maiores impactos (Fonte: ANEEL, elaborado pelo autor) Teto (2025) e Encargo de Complemento de Recursos (ECR) Para conter o crescimento da CDE, a ANEEL propõe: Orçamento de 2025, R$ 49,26 bilhões, corrigido pela inflação, como limite máximo da CDE a partir de 2026. Excesso de custos não será socializado, será pago pelos próprios beneficiários dos subsídios através do ECR. A medida impõe disciplina orçamentária, transferindo risco do consumidor final para agentes específicos. Edvaldo Santana , ex-diretor da ANEEL, alertou em seu perfil no LinkedIn sobre as graves distorções e riscos decorrentes das mudanças propostas para a CDE. A recente decisão da agência, de usar o orçamento de 2025 como teto, mitiga a grande incerteza que existia sobre a proposta anterior, que se basearia em um orçamento futuro (2026) e poderia ultrapassar os R$ 60 bilhões. Embora a medida traga mais confiança e se alinhe à crítica de Santana, ele pondera que a trava está sendo aplicada sobre um valor que já saiu do controle, evidenciando que a intervenção deveria ter ocorrido antes. Controle Fiscal ou Normalização do Absurdo? Argumentos a favor do teto: Limita expansão descontrolada dos custos. Beneficiários dos subsídios assumem excessos. Congela gastos no patamar histórico, evitando desgaste político. Críticas e riscos: Risco de normalizar orçamento recorde, visto que passamos do ponto. Subsídios seguem sem revisão estrutural, não resolvemos nada. Crescimento de subsídios específicos pode reduzir espaço para políticas essenciais como a TSEE. Controle fiscal ou institucionalização de custos elevados? A proposta de teto chega ser ousada e contrária ao “negócio como sempre”, mas carrega um paradoxo: ela congela a CDE no ponto mais alto até hoje. Sem uma reforma estrutural dos critérios de subsídio ou ao menos uma revisão, o teto pode legitimar a continuidade de distorções. Ainda assim, é necessário reconhecer que, mesmo não comentados no levantamento que fiz, mas entendendo serem altos custos, acredito que os subsídios sociais e de universalização não são “vilões”. Programas como universalização de acesso, Tarifa Social de Energia e medidas para auxiliar famílias vulneráveis desempenham papel social legítimo. O que precisamos debater é como destinar subsídios com eficiência, foco e limitação, sem as assimetrias e o risco de sufocar competitividade e sustentabilidade regulatória. A questão acaba sendo sistêmica e estratégica. Não basta regular, vai ser necessário também redesenhar: Quem financia a transição energética? Como distinguir subsídio legítimo de subsídio regressivo? Como aliar inclusão social, inovação e sinal econômico real? O futuro da energia no Brasil dependerá de respostas acertadas, e o teto da CDE pode ser somente o primeiro passo. Despesas totais e evoluções para CDE (Fonte: ANEEL, elaborado pelo autor) A disciplina fiscal é bem-vinda, mas o futuro da energia no Brasil depende de planejamento estratégico, inovação regulatória e justiça social. O teto é o começo, não o fim da conversa. Referências ANEEL. Relatórios de Orçamento e Arrecadação da CDE. Disponível em: ANEEL | Portal Reports Abertos Valor Econômico. “Sistema elétrico está cada vez menos confiável, diz Edvaldo Santana.” Publicado em 31/07/2025. Disponível em: Sistema elétrico está cada vez menos confiável, diz Edvaldo Santana | Energia | Valor Econômico Lei 12.783/2013. Dispõe sobre a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE). Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12783.htm Lei 14.300/2020. Incentivos à Geração Distribuída. Disponível em: L14300 Sobre o autor     Felipe Figueiró  é engenheiro eletricista, com dois MBAs focados em inovação, liderança e inteligência de mercado. Atua há mais de 11 anos no setor elétrico e tem como visão transformar dados em estratégias inteligentes e eficientes. ANEEL quer Travar CDE em 2025: Controle de Danos ou um Teto Alto Demais?

  • Consumo consciente: veja mitos e verdades sobre economia de energia

    Por Felipe Nejm Carvalho, CEO da ClickLivre Energia Consumo consciente: veja mitos e verdades sobre economia de energia CEO esclarece principais dúvidas dos consumidores Com a chegada da primavera e o aumento gradual das temperaturas no país, predominantemente em grande parte da Região Norte, interior da Região Nordeste e em alguns pontos da parte central do Brasil, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o uso de aparelhos elétricos como ventiladores, geladeiras e ar-condicionados tende a crescer. Esse aumento no consumo é sentido diretamente nas contas de luz e reforça a importância de adotar práticas mais conscientes de economia de energia. De acordo com Felipe Carvalho, CEO da ClickLivre Energia, empresa especializada em eficiência energética e consumo inteligente, economizar energia elétrica vai muito além de buscar uma conta mais barata ao final do mês, trata-se de um compromisso com o meio ambiente e com o uso responsável dos recursos naturais. “O consumo consciente de energia é uma atitude que traz benefícios imediatos para o bolso e resultados duradouros para o planeta. Pequenas mudanças de hábito, quando aplicadas de forma contínua, fazem grande diferença na eficiência energética e na sustentabilidade”, destaca. Apesar de o tema estar cada vez mais em pauta, ainda há muitas dúvidas sobre o que realmente ajuda e o que é apenas mito quando o assunto é economizar energia. Para ajudar a esclarecer as principais crenças e orientar os consumidores, o CEO Felipe Carvalho lista abaixo os principais mitos e verdades sobre o tema: 1 – Deixar os aparelhos no modo “stand by” não consome energia – Mito Mesmo desligados, mas conectados à tomada, equipamentos eletrônicos como televisores, micro-ondas e alto-falantes inteligentes continuam consumindo energia. É o chamado “consumo fantasma”. O ideal é retirar os aparelhos da tomada quando não estiverem em uso. Isso pode representar uma redução de até 10% no gasto mensal da conta. 2 – O ar-condicionado pode ser um vilão do consumo, mas há formas de usá-lo com eficiência – Verdade O ar-condicionado está entre os equipamentos que mais consomem energia, especialmente durante os meses quentes. No entanto, manter o filtro limpo, ajustar a temperatura para cerca de 23 °C e usar a função “sleep” durante a noite são formas de reduzir significativamente o consumo sem abrir mão do conforto térmico. 3 – Lâmpadas de LED consomem menos energia – Verdade As lâmpadas de LED consomem até 80% menos energia do que as incandescentes e têm maior durabilidade. A troca por esse tipo de iluminação é uma das medidas mais eficazes e acessíveis para economizar energia em casas e escritórios. 4 – Deixar o carregador de celular na tomada sem o aparelho não gasta energia – Mito O uso do carregador sem a conexão do aparelho celular pode ser um gasto a mais na conta de energia. Mesmo que não estejam conectados a um dispositivo, os carregadores de telefone consomem energia em modo de espera, mas o gasto é pouco significativo. Apesar disso, a prática pode representar riscos à segurança. 5 – O uso consciente de eletrodomésticos faz diferença – Verdade Lavar roupas e louças com carga completa, utilizar a geladeira longe de fontes de calor e manter o tempo de abertura das portas o mais curto possível são atitudes simples que reduzem o consumo de energia e prolongam a vida útil dos aparelhos. 6 – Painéis solares funcionam apenas em dias ensolarados – Mito O sistema fotovoltaico continua gerando energia mesmo em dias nublados ou chuvosos, ainda que em menor intensidade. Segundo Felipe Carvalho, a energia solar é uma das formas mais eficientes e sustentáveis de reduzir custos a longo prazo e tornar residências e empresas mais independentes da rede elétrica tradicional. 7 – Economizar energia é um ato de sustentabilidade – Verdade Ao reduzir o consumo de eletricidade, diminui-se a necessidade de geração nas usinas, o que contribui para menor emissão de gases de efeito estufa e maior preservação dos recursos naturais. “Cada atitude consciente conta. Economizar energia é cuidar do planeta e das próximas gerações”, reforça o CEO da ClickLivre Energia. Com o aumento das tarifas e a chegada das altas temperaturas, a conscientização sobre o uso racional da eletricidade se torna ainda mais urgente. Para Felipe, que ajuda pessoas e empresas a reduzir contas de luz, adotar práticas sustentáveis e investir em energia solar, aplicar eficiência energética é uma forma inteligente de equilibrar economia, conforto e responsabilidade ambiental. Consumo consciente: veja mitos e verdades sobre economia de energia

  • China acelera, EUA resistem: qual o caminho do Brasil na transição energética?

    Por Felipe Nejm Carvalho, CEO da ClickLivre Energia China acelera, EUA resistem: qual o caminho do Brasil na transição energética? A disputa entre China e Estados Unidos na transição energética oferece lições valiosas ao Brasil. De um lado, temos a China, que acelerou de forma impressionante sua capacidade de geração renovável. Segundo a Agência Nacional de Energia (Aneel), apenas em 2024, o país adicionou 373 milhões de quilowatts à sua capacidade instalada de fontes limpas, consolidando-se como a grande “fábrica verde” do mundo. Painéis solares, baterias de lítio e veículos elétricos chineses chegam a mais de 200 países, reforçando a hegemonia asiática no setor. Do outro lado, os Estados Unidos enfrentam uma contradição: embora tenham capacidade tecnológica e científica para liderar, ainda estão presos a uma economia fortemente dependente do petróleo. Além disso, parte da sociedade norte-americana mantém visões divergentes sobre as mudanças climáticas, influenciadas por fatores políticos, econômicos e culturais. Esse contexto contribui para que o país avance de forma mais gradual em relação à China na corrida pela transição energética. E onde entra o Brasil nessa equação? Nosso país ocupa hoje a sexta posição mundial em geração de energia solar. Temos abundância de sol, vento e biomassa, mas seguimos subaproveitando todo esse potencial. Ainda de acordo com a Aneel, já ultrapassamos a marca de 6 milhões de consumidores que utilizam energia solar na modalidade de Geração Distribuída, com mais de 3,7 milhões de sistemas instalados em residências, comércios, áreas rurais e indústrias. Apesar do avanço, ainda é uma parcela pequena diante da população total. Isso mostra que precisamos investir mais em políticas públicas, infraestrutura e, sobretudo, na conscientização das pessoas. Cada consumidor tem o direito de escolher a origem da energia que consome. Ao optar por fontes renováveis, contribui não apenas para a redução da própria conta de luz, mas também para um processo global de mitigação da crise climática. Mas não basta olhar apenas para o setor residencial. É preciso pensar em soluções estruturais: investimento na eletrificação da frota brasileira de veículos e políticas voltadas ao uso de baterias para armazenamento de energia são dois exemplos que poderiam acelerar o nosso protagonismo no cenário global. A transição energética é inevitável. A questão é: vamos nos antecipar, aproveitando nossas vantagens competitivas, ou esperar que outros países determinem os rumos desse processo? O Brasil tem todas as condições para ser referência mundial em energia limpa, mas precisa agir agora. O autor é Felipe Nejm Carvalho, CEO da ClickLivre Energia China acelera, EUA resistem: qual o caminho do Brasil na transição energética?

  • Rejeitos Minerais Podem Ser a Nova Mina de Ouro da Transição Energética

    Pesquisadores apontam que toneladas de metais críticos para baterias e tecnologias limpas estão sendo desperdiçadas em rejeitos de mineração e recuperar esse potencial pode redefinir o futuro da indústria mineral. Rejeitos Minerais Podem Ser a Nova Mina de Ouro da Transição Energética A corrida global por metais essenciais à transição energética como lítio, cobalto, níquel e elementos de terras raras pode ter uma fonte inesperada: o lixo das próprias minas. Um estudo conduzido pela Escola de Minas do Colorado (EUA) revelou que os rejeitos acumulados em operações de mineração escondem grandes quantidades desses materiais estratégicos, desperdiçados por não serem o foco principal da extração. Esses rejeitos, muitas vezes descartados em lagoas de decantação ou utilizados para preencher crateras de antigas escavações, são o subproduto natural da extração de metais como ferro, cobre e ouro. Mas à medida que o mundo acelera a transição para fontes renováveis e tecnologias de baixo carbono, o valor desses “restos” ganha uma nova dimensão. “Muitos dos elementos que hoje consideramos críticos nem eram analisados no passado, simplesmente porque não tinham uso comercial significativo,” explica Elizabeth Holley, pesquisadora líder do estudo. “Agora, percebemos que toneladas desses materiais estão literalmente sendo jogadas fora.” Um potencial econômico subestimado A equipe analisou milhares de amostras de minério e dados de produção de 54 minas de metais de rocha dura nos Estados Unidos. O resultado surpreende: recuperar apenas 1% dos elementos presentes nos rejeitos  de algumas minas seria suficiente para eliminar completamente as importações  desses minerais no país. Em outros casos, taxas de recuperação entre 10% e 90% já tornariam possível suprir a demanda interna por materiais essenciais para baterias, painéis solares e turbinas eólicas pilares da economia verde. Metais como ouro, platina e paládio, por sua vez, já são amplamente reaproveitados devido ao seu alto valor de mercado, mas outros metais críticos permanecem negligenciados. Desafios técnicos e econômicos Apesar do potencial promissor, transformar rejeitos em recursos exige mais do que boa vontade ambiental. A recuperação desses elementos envolve processos de refino completamente distintos dos aplicados aos metais principais das minas, o que implica investimentos em novas plantas industriais  e tecnologias específicas de separação . “É como tentar tirar o sal de uma massa de pão: o material está lá, mas isolá-lo exige tecnologia e custo,” compara Holley. “Precisamos de políticas públicas, pesquisa e inovação para tornar essa recuperação economicamente viável.” Além disso, o teor desses metais nos rejeitos é, em geral, muito baixo o que desafia o modelo de negócio tradicional da mineração, voltado à extração de depósitos de alta concentração. Uma nova fronteira para a mineração sustentável A revalorização dos rejeitos pode redefinir a relação entre mineração e sustentabilidade. Em vez de abrir novas minas, o reaproveitamento de resíduos pode reduzir a pegada ambiental do setor e diminuir a dependência de importações estratégicas , especialmente em tempos de disputa geopolítica por recursos minerais. Para a economia verde, o caminho é claro: os próximos tesouros minerais talvez já estejam extraídos apenas esquecidos nos rejeitos. Rejeitos Minerais Podem Ser a Nova Mina de Ouro da Transição Energética

  • Qualidade, Confiança e Bancabilidade: A Tríade Inegociável da Energia Solar

    Por Daniel Pansarella O Brasil vive um momento de expansão meteórica no setor de energia solar. Qualidade, Confiança e Bancabilidade: A Tríade Inegociável da Energia Solar Dados recentes da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR) e da SolarPower Europe posicionam o país como o quarto maior mercado do mundo, tendo adicionado quase 19 GW de potência em 2024 e atraído mais de R$ 54 bilhões em novos investimentos – um crescimento de 30% em relação ao ano anterior. Com 56 GW de capacidade instalada, a fonte solar já representa 22,5% da matriz elétrica nacional, consolidando-se como a segunda maior fonte do país. Contudo, sob a superfície deste crescimento vertiginoso, uma perigosa correnteza se forma. A busca incessante por custos mais baixos está levando desenvolvedores e empreendedores a sacrificar o que deveria ser inegociável: a qualidade, a confiança técnica e a bancabilidade dos projetos. Esta não é uma crítica a empresas menores que buscam seu espaço para crescer, nem uma defesa incondicional de marcas internacionais consolidadas. É um alerta sobre uma mentalidade de curto prazo que pode minar a sustentabilidade econômica de todo um setor, transformando o sonho da energia limpa e competitiva em um pesadelo de manutenção e perdas financeiras. Módulos Fotovoltaicos: O Risco do "Tier Shit" No jargão do mercado, a classificação Tier 1 , criada pela BloombergNEF (BNEF), é frequentemente brandida como um selo de qualidade. Embora sua função primária seja atestar a bancabilidade  de um fabricante – sua solidez financeira e capacidade de honrar garantias de longo prazo, como 12 anos para o produto e 30 anos para a performance em módulos bifaciais vidro-vidro –, ela serve como um importante filtro de confiança. Um fabricante Tier 1 passou pelo crivo rigoroso de múltiplos financiadores internacionais, que não arriscariam seu capital em produtos de baixa confiabilidade. A própria BNEF, contudo, recomenda enfaticamente que a lista não seja usada como medida de qualidade técnica, mas sim como indicador de estabilidade financeira e capacidade de suprimento. Em contrapartida, assistimos à proliferação do que eu mesmo acabei disseminando e referenciando provocativamente ao mercado como   "Tier Shit" : produtos de fabricantes que não se responsabilizam pela entrega prometida. Estes módulos, frequentemente comercializados com um desconto de 10% ou mais em relação aos produtos de fabricantes responsáveis, escondem em sua composição a semente de problemas futuros. A prática do "Fake Power" , onde um painel entrega uma potência inferior à especificada em seu datasheet, é um exemplo claro desta má-fé. Um módulo vendido como 555 Wp pode, na realidade, gerar apenas 535 Wp quando testado ainda novo, uma perda imediata de quase 4% na capacidade de geração. "Hipoteticamente, por mais que todo o processo de fabricação de um módulo seja perfeito, se for usado uma célula de má qualidade, o produto final continuará sendo ruim. (...) Não ficará bom, não será durável. E como muitas das vezes a má qualidade da célula não é perceptível a olho nu, elas são usadas por fabricantes de má fé (e aceita por alguns distribuidores, é importante frisar) na fabricação dos módulos sem receios de prejudicar o cliente final", explica Thiago Mingareli, gerente técnico da Amara NZero Brasil. O cerne do problema reside no uso de células fotovoltaicas de qualidade duvidosa . Embora não exista uma norma internacional que regulamente a classificação de células, há um consenso de mercado sobre quatro níveis de qualidade: Grade A  (células perfeitas, sem defeitos), Grade B  (imperfeições visuais sem impacto elétrico imediato), Grade C  (danos elétricos) e Grade D  (células quebradas ou inutilizáveis). O problema é que células Grade B e C, embora mais baratas, degradam-se prematuramente, causando hotspots, perdas de eficiência e, em última análise, comprometendo a geração e a segurança da usina. Testes de eletroluminescência (EL), que funcionam como um "raio-X" do painel, revelam outro problema: o "módulo xadrez" , onde células de qualidades diferentes são misturadas no mesmo painel. Esta prática causa mismatch entre as células, similar ao problema de montar uma string com módulos de características elétricas diferentes, resultando em perdas de geração e, em casos graves, danos ao sistema. A falta de rastreabilidade na produção, a ausência de programas robustos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e estruturas tributárias duvidosas são características comuns desses fornecedores. Empresas que alcançam faturamentos expressivos e momentâneos à custa da longevidade dos ativos de seus clientes, sem a capacidade financeira real para honrar garantias de décadas, representam um risco sistêmico para o setor. Trackers: O Vácuo de Bancabilidade Se nos módulos fotovoltaicos a classificação Tier 1 oferece um norte, nos trackers (seguidores solares) , o cenário é mais nebuloso. Não existe uma classificação de bancabilidade consolidada para estes equipamentos, abrindo uma perigosa lacuna de credibilidade. Empresas crescem de forma desordenada e desproporcional à sua efetiva capacidade financeira, muitas vezes amparadas por estruturas tributárias "criativas", e aplicam a mesma "criatividade" na especificação dos materiais e na resistência dos produtos. O uso de aço com especificações inferiores , sem as devidas certificações internacionais de qualidade e resistência, é uma bomba-relógio. Em um país continental como o Brasil, com diferentes regimes de ventos – desde as rajadas intensas do Nordeste até as condições mais amenas do Sul – e níveis de corrosão variados conforme a proximidade do litoral, um tracker mal projetado ou construído com material inadequado está fadado a falhas prematuras. Os custos de operação e manutenção (O&M) disparam quando estruturas começam a apresentar corrosão acelerada, motores falham por subdimensionamento ou componentes mecânicos se desgastam prematuramente. A ausência de um time técnico robusto, de processos de comercialização formais e de certificações com reconhecimento internacional cria um ambiente de incerteza. Quando os problemas de qualidade começam a aparecer – e eles inevitavelmente aparecem –, a sustentabilidade econômica dos projetos é colocada em xeque. A geração de energia é diretamente impactada por paradas não programadas, e o retorno sobre o investimento (ROI) projetado se evapora. Inversores: O Coração Negligenciado O mesmo raciocínio se aplica aos inversores , o coração do sistema fotovoltaico. A escolha de marcas sem uma estrutura técnica local robusta, com pós-venda e suporte adequados para atender às intempéries de um clima diverso e às condições climáticas extremas de diferentes regiões brasileiras, é um erro estratégico com consequências financeiras severas. Um inversor que falha em uma região remota, sem uma equipe de suporte local capacitada e sem peças de reposição disponíveis, pode significar semanas de produção perdida. O prejuízo acumulado por dias de geração interrompida jamais será compensado pelo desconto inicial obtido na compra do equipamento. Além disso, a redução recente nos prazos de garantia de inversores e microinversores, observada em algumas marcas distribuídas no Brasil, é um sinal de alerta sobre a sustentabilidade financeira desses fornecedores. A Escolha Inegociável: LCOE Versus CAPEX A corrida para baixar o CAPEX (investimento inicial)  está cegando parte do mercado para o que realmente importa: o LCOE (Custo Nivelado de Energia)  e a rentabilidade do projeto ao longo de sua vida útil de 25 a 30 anos. A economia aparente na compra de um componente de baixa qualidade se pulveriza rapidamente com os custos adicionais de O&M, a perda de receita pela baixa performance e o risco real de o fornecedor não existir mais para honrar sua garantia quando ela for necessária. O Código de Defesa do Consumidor  é claro ao responsabilizar toda a cadeia de fornecimento – fabricante, distribuidor e integrador – em caso de informações errôneas ou falsas ao cliente final, cabendo multa, substituição do produto e até mesmo detenção caso comprovada a fraude. O ditado "o barato sai caro" nunca foi tão pertinente. O Caminho da Maturidade O futuro dos investimentos em parques solares no Brasil depende de uma maturação do mercado. Desenvolvedores, investidores e financiadores precisam entender que qualidade, confiança técnica e bancabilidade  não são luxos ou diferenciais competitivos, mas os pilares fundamentais que sustentam a viabilidade econômica de qualquer projeto de energia. Sacrificar essa tríade em nome de um preço marginalmente menor não é uma estratégia de negócio inteligente; é um convite ao prejuízo e à erosão da confiança em um setor que tem tudo para ser protagonista da transição energética brasileira. A escolha deve ser clara: buscar fabricantes com as principais certificações internacionais (Bloomberg Tier 1, PVEL, PVtech, RETC, PVBL, DNV GL Top Performer, TÜV Rheinland), com atuação global em mercados exigentes como Estados Unidos e Europa, com rastreabilidade de produção e, acima de tudo, com a capacidade financeira comprovada de honrar garantias de longo prazo. Qualidade e confiança técnica não podem ser negociáveis. O futuro do setor solar brasileiro depende disso. Qualidade, Confiança e Bancabilidade: A Tríade Inegociável da Energia Solar

  • Fracasso do Etanol 2G expõe riscos e reforça valor da Simulação de Monte Carlo

    Por Eng. Sebastião Carlos Martins  * Fracasso do Etanol 2G expõe riscos e reforça valor da Simulação de Monte Carlo Crise financeira e questionamentos sobre a viabilidade A recente crise enfrentada pela Raízen colocou em xeque alguns de seus projetos mais ambiciosos. Com desinvestimentos de R$ 2,7 bilhões em apenas seis meses  e uma dívida líquida de R$ 34,3 bilhões em março de 2025 quase 80% maior que no mesmo período do ano anterior a companhia acumula uma alavancagem de 3,2 vezes o EBITDA. Nesse cenário, investidores voltam suas atenções para a sustentabilidade econômica do etanol de segunda geração (2G) , uma das principais apostas da empresa para a transição energética (ver vídeo Etanol 2G ). O Eng. Sebastião Carlos Martins apresenta, neste artigo, sua visão geral explicativa do “Por que artigos científicos na mídia não são suficientes para assegurar o sucesso de projetos sustentáveis”, tomando por referência seus Estudos de Viabilidade Econômica e Financeira para a implantação de uma Unidades de Tratamento Energético de Resíduos Sólidos Urbanos e biomassa. Estudo revela inviabilidade sem incentivos fiscais Um estudo elaborado pela DBEST PLAN  analisou uma planta de etanol 2G com capacidade de 500 toneladas/dia de biomassa . Os resultados foram contundentes: sem as isenções de ICMS, ISS, PIS, COFINS e IPI, além do subsídio de R$ 1,72 por litro , o projeto apresentaria um Valor Presente Líquido (VPL) negativo de R$ –710 milhões . Isso significa que, em condições de mercado realistas, a iniciativa se mostra inviável economicamente , dependendo quase integralmente de políticas de incentivo. Simulação de Monte Carlo: realismo estatístico contra o otimismo excessivo Para aprofundar a análise, a DBEST PLAN  utilizou a Simulação de Monte Carlo , técnica estatística que gera milhares de cenários possíveis para avaliar o comportamento do projeto diante de variáveis incertas. No estudo, foram testados fatores como CAPEX, OPEX, produtividade, preços de venda e tributos . A simulação apontou que a produtividade do etanol 2G  foi a variável de maior impacto sobre a taxa interna de retorno (TIR), respondendo por +36,2% , seguida da receita do etanol  (+32,8%) e do CAPEX  (–25,7%). Mesmo em um cenário ideal , com incentivos mantidos, a chance de sucesso era restrita: havia 95% de probabilidade de a TIR se situar entre 17% e 20% , com média de 18%. Ou seja, apenas condições altamente favoráveis sustentariam a viabilidade do negócio. O preço da ausência de análises probabilísticas Segundo o engenheiro Sebastião Carlos Martins , a falta de uma visão probabilística desde o início pode ter levado a Raízen a assumir riscos desnecessários. "Se a empresa ou os financiadores tivessem incorporado análises de Monte Carlo, poderiam ter mitigado o prejuízo, ajustando contratos, prevendo hedge cambial ou revendo o mix de produção", afirma. A ausência dessa abordagem teria contribuído para ampliar a vulnerabilidade financeira da companhia em um momento de crise. A metodologia como diferencial da DBEST PLAN O estudo destaca a Simulação de Monte Carlo  como ferramenta estratégica para investidores e financiadores, superando os métodos determinísticos tradicionais.Entre suas vantagens, estão: Identificação das variáveis de maior impacto econômico; Avaliação probabilística de cenários adversos; Definição de estratégias mitigadoras embasadas; Suporte sólido à tomada de decisão. Ao integrar essa metodologia com análises de mercado, conjuntura geopolítica e matriz SWOT, a DBEST PLAN diferencia-se como parceira estratégica no setor de energia limpa. O fracasso internacional do etanol 2G O insucesso não é exclusividade brasileira. Diversos países enfrentaram obstáculos semelhantes ao tentar consolidar o etanol 2G em escala comercial.   SWOT: forças e fragilidades do etanol 2G A análise probabilística foi complementada com uma matriz SWOT  do projeto, que evidencia pontos críticos: Forças : sustentabilidade da tecnologia, uso de resíduos agrícolas, alinhamento com políticas de descarbonização e possibilidade de geração de CBIOs. Fraquezas : CAPEX e OPEX elevados, dependência de subsídios, complexidade operacional e sensibilidade a variações de preço e produtividade. Oportunidades : expansão global do mercado de biocombustíveis, demanda crescente em aviação, acesso a financiamentos verdes e integração com SAF e hidrogênio verde. Ameaças : queda no preço do etanol ou do petróleo, redução de incentivos fiscais, concorrência tecnológica e riscos climáticos e cambiais. Comparativos com outras plantas e rotas produtivas A DBEST PLAN  também pesquisou outras iniciativas de etanol 2G no Brasil, tanto a partir de milho quanto de cana e seus resíduos, incluindo projetos da São Martinho, FS, Petrobahia, Grupo Potencial, Usina Verde, BioEthanol, AgroRenew e EcoFuel . A comparação revelou que, embora diversos estudos reconheçam a importância de variáveis tecnológicas e de custos, o diferencial está no uso sistemático da análise probabilística de Monte Carlo , que confere maior precisão e confiabilidade às projeções. Conclusão: lições para o futuro da transição energética O fracasso ou, no mínimo, a fragilidade do projeto de etanol 2G da Raízen, sob condições de mercado menos favoráveis, revela um alerta: nenhum projeto inovador em energia limpa deveria ser avaliado sem a aplicação de Simulação de Monte  Carlo. A experiência reforça que, além da busca por incentivos e subsídios, o setor deve avançar para análises mais robustas, capazes de quantificar riscos e orientar estratégias práticas de mitigação. Somente assim será possível garantir que investimentos estratégicos — de investidores privados, financiadores ou entes públicos sejam alocados com segurança, sustentabilidade e visão de longo prazo. Se o Brasil quiser consolidar-se como líder em biocombustíveis avançados, será preciso combinar visão estratégica, políticas públicas consistentes e ferramentas robustas de análise de risco como a Monte Carlo para garantir a alocação segura de recursos. Sebastião Carlos Martins CEO da DBEST PLAN – Engenharia e Tecnologia da Informação E-Mail: scm.sistemas@gmai.comFone: (31) 99645-0801 Fracasso do Etanol 2G expõe riscos e reforça valor da Simulação de Monte Carlo

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