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Por que o gás ainda cresce na transição energética da América Latina?

O dado divulgado pela OLACDE, no seu relatório  “Energy Outlook for Latin America and the Caribbean”, de que a capacidade de geração a gás natural na América Latina cresceu 12% em 2024, pode parecer apenas mais uma estatística setorial. Mas ele revela algo essencial sobre como a transição energética realmente acontece na região. Ao contrário da imagem comum de uma troca direta entre fontes fósseis e renováveis, o que se observa na prática é um processo mais ambíguo: a transição latino-americana está crescendo para dois lados ao mesmo tempo.


Por que o gás ainda cresce na transição energética da América Latina?
Por que o gás ainda cresce na transição energética da América Latina?

Enquanto a geração solar e eólica avança rapidamente, impulsionada por custos em queda, políticas climáticas e novas cadeias produtivas, o gás natural também se expande como uma infraestrutura de suporte. Em sistemas elétricos cada vez mais dependentes de fontes intermitentes e de hidrelétricas pressionadas por secas, o gás cumpre o papel de garantir potência firme, estabilidade e previsibilidade operacional. Não se trata, portanto, de uma simples substituição de tecnologias, mas de uma sobreposição de camadas energéticas, na qual novas fontes se apoiam em uma base térmica que ainda cresce.

Na Europa, esse retorno do gás tem sido associado principalmente à segurança de abastecimento. A crise geopolítica e a ruptura com o gás russo levaram países altamente eletrificados e já universalizados a reforçar termelétricas como forma de evitar apagões e estabilizar redes fortemente renováveis. É um paradoxo típico de sistemas ricos: como manter conforto e estabilidade enquanto se descarboniza.


Na América Latina, porém, o paradoxo é diferente. Aqui, o crescimento do gás não responde apenas à variabilidade das renováveis, mas à própria necessidade de expandir o sistema energético. A região ainda convive com pobreza energética estrutural: milhões de pessoas têm acesso precário à eletricidade, tarifas elevadas e dependência de combustíveis poluentes para cozinhar e aquecer. A transição, portanto, ocorre ao mesmo tempo em que se tenta universalizar e qualificar o acesso à energia.


Nesse contexto, o gás natural aparece não apenas como uma tecnologia de transição climática, mas como um instrumento de política de desenvolvimento. O programa brasileiro Gás para Empregar expressa essa lógica ao buscar reduzir custos energéticos, atrair indústrias, gerar empregos e ampliar a competitividade produtiva. O gás, nesse desenho, funciona como uma infraestrutura que viabiliza crescimento econômico e inclusão energética em sociedades que ainda não completaram sua própria modernização elétrica.


O problema é que essa mesma infraestrutura cria compromissos de longo prazo. Gasodutos, termelétricas e contratos de fornecimento moldam trajetórias tecnológicas por décadas. Ao tentar resolver déficits do presente, corre-se o risco de construir novos bloqueios fósseis que dificultem a descarbonização futura. A transição, nesse sentido, carrega uma tensão permanente entre necessidades imediatas e objetivos de longo prazo.


O crescimento de 12% da capacidade a gás, portanto, não é apenas um dado técnico. Ele revela como os custos e benefícios da transição estão sendo distribuídos. O gás sustenta setores estratégicos como a indústria, agronegócio, mineração, data centers e grandes centros urbanos que exigem energia firme e de alta qualidade. Mas os custos dessa infraestrutura frequentemente recaem sobre consumidores regulados, tarifas públicas e territórios que concentram impactos ambientais e sociais.


Assim, a transição energética latino-americana não é simplesmente mais lenta do que a europeia, talvez ela seja mais complexa. Precisa, ao mesmo tempo, reduzir emissões, expandir o acesso, garantir estabilidade e enfrentar desigualdades históricas. Por isso, na região, discutir energia nunca é apenas discutir tecnologia. É discutir quem tem direito à energia, em que condições e com quais consequências para o desenvolvimento e para a justiça social.


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