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Apagão em plena luz do dia: Guarulhos expõe a falência da rede elétrica centralizada

Na manhã de 9 de abril de 2026, por volta das 8h30, o maior aeroporto do país, o Internacional de Guarulhos, foi tomado por uma pane elétrica que paralisou os terminais 2 e 3 e obrigou aeronaves já prontas para decolar a serem esvaziadas.


Apagão em plena luz do dia: Guarulhos expõe a falência da rede elétrica centralizada
Apagão em plena luz do dia: Guarulhos expõe a falência da rede elétrica centralizada

Passageiros tiveram que desembarcar às pressas, enfrentando filas intermináveis e falta de informação, enquanto companhias aéreas improvisavam processos manuais para manter alguma ordem. O episódio, que também registrou fogo em turbina de avião felizmente sem vítimas, escancarou a vulnerabilidade de uma infraestrutura que deveria ser símbolo de eficiência e segurança, mas que se mostrou frágil diante de um colapso localizado na rede de energia.


O fato de tudo isso ter acontecido em plena luz do dia, no horário de maior movimento, torna o apagão ainda mais emblemático e perturbador.


Não se trata de um acidente isolado. Há anos alertamos para os riscos de apagões e panes elétricas em setores estratégicos da vida nacional. O que ocorreu em Guarulhos é apenas mais um sintoma de um modelo ultrapassado: a insistência do governo, por intermédio do Ministério de Minas e Energia (MME), em apostar na geração centralizada, investindo bilhões em linhas de transmissão que se estendem por milhares de quilômetros, quando já existem tecnologias capazes de oferecer soluções mais seguras, dinâmicas e resilientes. Falo dos Recursos Energéticos Distribuídos (REDs) e da Geração Distribuída (GD).


Os REDs englobam fontes como energia solar, eólica de pequeno porte, baterias de armazenamento e até veículos elétricos que podem devolver energia à rede. A GD, por sua vez, permite que consumidores produzam sua própria eletricidade — por exemplo, painéis solares em residências ou empresas e compartilhem o excedente com a rede. Essas tecnologias já estão disponíveis, são maduras e comprovadamente eficazes em diversos países. No entanto, no Brasil, encontram barreiras estruturais: nossa rede de distribuição foi projetada nos anos 1950, pensada para carroças energéticas, e não para o tráfego veloz e sofisticado de uma Ferrari tecnológica. É exatamente essa analogia que ilustra o paradoxo: temos uma Ferrari na garagem, mas nossas estradas ainda são de terra batida.


Enquanto insistimos em expandir linhas de transmissão centralizadas, ignoramos a necessidade de redes inteligentes nas distribuidoras. São essas redes que permitiriam aos REDs se conectar de forma eficiente, aproveitando todo o potencial da geração distribuída. Sem essa modernização, continuaremos a assistir a episódios como o de Guarulhos, em que um único ponto de falha compromete a vida de milhares de pessoas. Passageiros perderam compromissos, tripulações tiveram que reorganizar escalas, e a confiança na infraestrutura nacional foi mais uma vez abalada. E tudo isso em plena manhã, quando o fluxo de passageiros é intenso e cada minuto perdido significa prejuízo para empresas e cidadãos.


O que precisamos é começar. A transição para um modelo descentralizado não é apenas uma questão de eficiência energética, mas de segurança nacional e de qualidade de vida. Em tempos de eventos climáticos extremos, quanto mais independente e distribuída for a geração de energia, mais resiliente será o sistema. Uma rede que se apoia em múltiplos pontos de produção e armazenamento é menos vulnerável a falhas localizadas e mais capaz de responder rapidamente a crises. É a democratização da energia, que coloca o cidadão como protagonista e não como refém de apagões.


O apagão de Guarulhos deve servir como alerta definitivo. Não podemos mais aceitar que o maior aeroporto do país, por onde circulam milhões de pessoas e toneladas de cargas, fique à mercê de uma rede elétrica arcaica. O custo social e econômico de cada pane é incalculável. A modernização da infraestrutura elétrica, com investimento em redes inteligentes e incentivo aos REDs e à GD, é urgente. Não se trata de uma opção, mas de uma necessidade vital para que o Brasil possa enfrentar os desafios do século XXI.


Por Renato Zimmermann 


“Apagão em plena luz do dia: Guarulhos expõe a falência da rede elétrica centralizada”


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