Novo Ex-tarifário. 62 inversores. Parece muito? Até você olhar por dentro. É constrangedor.
- Bruno Barbosa
- há 15 horas
- 4 min de leitura
O governo publicou a nova lista de EX-tarifários de inversores solares.
62 códigos com imposto reduzido. Parece generoso.
Eu fui conferir. Um por um. Cruzei cada potência com os catálogos de 6 fabricantes globais.
Bom. Digamos que ficou difícil defender a tese da coincidência.
A Resolução GECEX nº 871 entrou em vigor no dia 1º de abril. (Sim. Primeiro de abril. Ninguém escolheu essa data de propósito, claro.)

Ela define quais inversores pagam imposto reduzido, e quais pagam 20% cheio. Na prática, essa lista decide o custo do seu sistema solar.
A composição:
→ 54 inversores trifásicos string (87%) → 4 híbridos residenciais → 4 monofásicos string → 0 microinversores
87% da lista é pra projeto comercial e usina.
O telhado da sua casa? Bom... fica pra próxima resolução. Talvez.
Pra ter ideia do tamanho da redução: em 2021, essa mesma lista tinha mais de 200 equipamentos com imposto reduzido.
Hoje, 62.
Mais de 70% desapareceram em três anos. Sem velório. Sem aviso prévio. Sem flores.
Mas o que me tirou o sono não foram os números. Foi o que tem DENTRO da lista.
Os únicos monofásicos que sobreviveram têm potências bem... peculiares: → 7,3 kW → 9,1 kW → 10,5 kW. Não são potências padrão da indústria.
Achei curioso. Fui procurar quem fabrica exatamente nessas faixas.
GoodWe → não. SolaX Power → não. Huawei → não. Sungrow → não.
Sabe quem fabrica monofásico de 10,5 kW? A Deye, com o SUN-10.5K-G. E a WEG, cuja linha monofásica vai "até 10,5 kW." Solplanet com inversores 7,3kW e 9,1kW.
Que sorte a deles, né? 🤷
O mecanismo é elegante, pra não dizer outra coisa.
Cada ex-tarifário nasce de um pleito individual. Uma empresa descreve o produto exato que quer importar. O código sai com aquelas especificações.
Ou seja: o ex-tarifário funciona como um RG tributário. Cortado sob medida pra quem pediu.
Quem tem trânsito no GECEX, ganha o código. Quem não tem, ganha a alíquota de 20%.
Meritocracia tributária, digamos. 😅

Ah, e tem os códigos EX 462 e EX 645. Descrevem o MESMO produto, inversor monofásico string de 10,5 kW, com variações mínimas de redação.
Dois códigos. Mesmo inversor. Duas empresas pediram separadamente.
O próprio INEL já reconheceu que vários ex-tarifários foram revogados por "duplicidade ou triplicidade." Se o controle técnico é tão rigoroso assim, alguém esqueceu de avisar a planilha.

Agora a parte que dói no bolso de quem tem ou quer ter energia solar em casa.
Microinversores: zero na lista.
A tecnologia que opera com tensão abaixo de 60V. A que o Corpo de Bombeiros recomenda via NBR 17193. A referência em segurança pra telhados residenciais.
Vai pagar 20%. Toda. Sem exceção. Sem negociação.
E o motivo é, com todo respeito, genial.
A WEG fabrica UM microinversor no Brasil. O SIW100G — 1.000W, 2 entradas. Com esse único produto, o governo classifica a categoria inteira como "produção nacional equivalente."
E com essa classificação, todos os pedidos de ex-tarifário pra microinversores importados são bloqueados. Automaticamente.
A regra da GECEX 512/2023 define equivalência pela "função essencial." Potência, eficiência, número de entradas? Detalhe técnico.
Então um micro de 1.000W com 2 entradas é considerado "equivalente" a um SOLAX X1 Micro ou GW2000-MIS 2.000W com 4 entradas, ou um TSUNESS de 2.500W com 6 entradas.
É como dizer que um Uno e uma Hilux são equivalentes porque ambos têm a "função essencial" de andar pra frente. 🫠
A contradição fica ainda mais bonita quando a gente olha pra armazenamento.
Em novembro de 2025, o governo sancionou a Lei 15.269, marco legal de BESS. Declarou armazenamento como infraestrutura estratégica nacional.
Um mês depois, o GECEX elevou o imposto de BESS de 16% pra 20%.
Na lista da 871: 4 híbridos residenciais. Zero comerciais. Zero utility-scale. Exatamente quando o primeiro leilão exclusivo de BESS acontece em abril. Meta de 2 GW. A mão direita legisla o futuro. A mão esquerda tributa ele. Mas estão no mesmo corpo. 😬
Só pra calibrar:
→ Austrália: tarifa zero sobre equipamentos solares chineses → União Europeia: 0% a 2,7% → EUA: tarifas altas, mas com créditos fiscais do IRA que compensam → Índia: 20% — com subsídio direto à fabricação local via PLI
Brasil: 20%. Sem crédito. Sem subsídio. Sem compensação.
Escolhemos a tarifa da Índia com o incentivo da... nenhum lugar.
O cenário prático: quem importa trifásico de alta potência pra usina tem 54 ex-tarifários disponíveis. Imposto reduzido. Quem compra monofásico ou micro pro telhado de casa? 20% cheio. Sem apelação. Inversor de R$ 50 mil pra usina: protegido. Inversor de R$ 3 mil pra sua casa: taxado.
A produção nacional que justifica essa proteção atende menos de 5% da demanda. A preços até 50% maiores que os importados. A proteção é pra hoje. A capacidade produtiva é pra daqui de 3 a 5 anos.
Quem paga a conta no intervalo? Não é quem decidiu. É quem instala. 🤷♂️
Minha posição: não sou contra indústria nacional. Pelo contrário.
Sou contra protecionismo sem transparência.
Se o governo quer fabricação local, que subsidie direto, como fazem EUA e Índia. Não que encareça o acesso à energia limpa pra milhões de consumidores enquanto protege quem atende 5% do mercado a preços que ninguém consegue competir.
As reuniões do GECEX acontecem a portas fechadas. O mercado deveria saber quem pede cada código, qual fabricante se beneficia e quais critérios técnicos justificam cada escolha.
Já existe o PDL 107/2024 na Câmara pedindo a suspensão dessas revogações. Integrador que fica calado, aceita. E quem aceita calado, depois reclama caro.
Ex-tarifário deveria ser instrumento de política industrial.
Não deveria parecer lista de convidados de festa fechada.
Novo Ex-tarifário. 62 inversores. Parece muito? Até você olhar por dentro. É constrangedor.








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