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A transmissão virou variável de competitividade para as renováveis

Por Laís Víctor – Diretora Executiva de Parcerias


A transmissão virou variável de competitividade para as renováveis
A transmissão virou variável de competitividade para as renováveis

Quando falamos de energias renováveis, especialmente eólica e solar, a conversa costuma se concentrar em alguns indicadores já conhecidos pelo mercado: CAPEX, fator de capacidade, custo do MWh, curva de geração e retorno esperado do investimento. Esses elementos continuam relevantes. Mas, na prática, há um fator que se tornou tão decisivo quanto vento e sol: a capacidade de entregar energia. E isso passa diretamente pela transmissão.


O Brasil não opera como um conjunto de ilhas elétricas. O Sistema Interligado Nacional depende da capacidade de deslocar energia, em tempo real, das regiões com maior oferta para os centros de carga. É essa infraestrutura que permite que a energia gerada em áreas de alto potencial renovável possa ser aproveitada em outras regiões do país.

Essa discussão ganha ainda mais relevância quando observamos a escala que as renováveis já alcançaram no Brasil. Apenas a fonte eólica gerou 107,6 TWh em 2024, o equivalente a 16,7% de toda a geração injetada no Sistema Interligado Nacional, segundo dados da ABEEólica. O Brasil também ocupa a 5ª posição mundial em capacidade instalada acumulada de energia eólica onshore.


Ou seja: não estamos mais falando de fontes marginais. Estamos falando de tecnologias que já têm peso sistêmico.


Quando a transferência de energia encontra limites, a competitividade da geração renovável também encontra limites. Por isso, a transmissão deixou de ser apenas uma infraestrutura de apoio. Ela passou a ser uma variável estruturante da competitividade renovável.


O recurso renovável é importante, mas não é suficiente

Durante muito tempo, a análise de projetos renováveis esteve fortemente associada à qualidade do recurso natural. No caso da fonte eólica, velocidade e constância dos ventos. No caso da energia solar, irradiação, disponibilidade de área e produtividade esperada dos sistemas.


Essa lógica continua válida. No entanto, ela já não é suficiente.

Um projeto pode estar localizado em uma região com excelente recurso solar ou eólico, apresentar custo competitivo e ainda assim enfrentar limitações relevantes se não houver capacidade adequada de conexão e escoamento.


Essa é uma mudança importante na forma de avaliar ativos renováveis. O valor de um projeto não depende apenas de quanto ele consegue gerar, mas também de quanto dessa energia consegue ser efetivamente entregue ao sistema e convertida em receita. A competitividade, portanto, deixa de ser apenas uma discussão sobre geração. Ela passa a ser também uma discussão sobre rede.


Três razões explicam essa mudança

A primeira razão é geográfica. Os melhores recursos solares e eólicos nem sempre estão próximos dos maiores centros de consumo. Essa é uma característica natural da expansão renovável. Muitas vezes, as regiões com maior potencial de geração estão distantes das áreas de maior demanda. Nesse contexto, a transmissão funciona como ponte entre potencial energético e consumo real. Quando a rede não consegue levar essa energia até a carga, parte do valor econômico do ativo se perde, ainda que a geração seja limpa, barata e tecnicamente eficiente.


A segunda razão é operacional. Fontes como solar e eólica têm comportamento variável. Elas dependem de condições naturais e podem apresentar momentos de alta produção concentrada em determinados horários ou regiões. Para que essa energia seja plenamente aproveitada, o sistema precisa ter capacidade de absorver, transferir e equilibrar esses fluxos. 


Esse não é um debate abstrato. Em análise da CCEE sobre o comportamento do PLD em 16 de janeiro de 2026, o horário de vale do PLD no Nordeste foi associado ao aumento de 4,6 GW médios de geração renovável e à redução de 0,8 GW médios da carga, o que levou ao atingimento dos limites de exportação de energia para os demais submercados.

Esse exemplo mostra, na prática, que a discussão sobre renováveis não é apenas sobre produzir mais energia limpa. É também sobre a capacidade do sistema de absorver essa produção, transferi-la entre regiões e preservar valor econômico em diferentes horários e submercados.


Quando isso não acontece, surgem congestionamentos, restrições de escoamento e cortes de geração. Em outras palavras: o recurso natural está disponível, a usina poderia gerar, mas o sistema não consegue acomodar toda aquela energia naquele momento. Esse ponto é central para a transição energética. Quanto maior a participação de fontes renováveis variáveis, maior a necessidade de flexibilidade, coordenação operacional e expansão adequada da infraestrutura de rede.


A terceira razão é comercial. Geração só se transforma em valor econômico quando consegue ser entregue. Sem conexão adequada e capacidade de transmissão, aumentam os riscos de limitação operacional, curtailment cortes de geração provocados por restrições do sistema e perda de receita.


Isso afeta diretamente a avaliação de projetos, a percepção de risco de investidores, a estruturação de contratos e a estratégia comercial dos agentes. Um ativo renovável não pode mais ser analisado apenas pela sua capacidade instalada ou pelo seu custo nivelado de energia. É preciso avaliar também sua localização, seu ponto de conexão, seu perfil horário de geração e sua exposição a restrições sistêmicas.


O que muda na prática para o mercado?

Na prática, essa nova realidade muda a forma como projetos renováveis são planejados, financiados e comercializados. O ponto de conexão e os estudos elétricos deixam de ser detalhes técnicos e passam a ser premissas estratégicas. A análise de rede deixa de entrar apenas no final do desenvolvimento do projeto e passa a fazer parte da decisão inicial de investimento.


Também muda a discussão comercial. O risco de entrega, o perfil horário e a localização passam a ter peso maior na precificação da energia. Em um mercado cada vez mais sofisticado, não basta discutir volume médio de geração. É preciso entender quando essa energia será gerada, onde será entregue e qual valor ela terá para o sistema naquele momento.


Além disso, soluções como reforços de rede, armazenamento, resposta da demanda e gestão operacional ganham protagonismo. Elas deixam de ser temas paralelos e passam a compor a agenda central da expansão renovável.


Nesse contexto, o armazenamento deixa de ser apenas uma tecnologia complementar e passa a atuar como ferramenta de flexibilidade, ajudando a deslocar energia no tempo e a reduzir parte da pressão sobre o sistema em momentos de excesso de geração.  


A resposta da demanda pode contribuir para aproximar consumo e disponibilidade renovável. Já os reforços de transmissão seguem fundamentais para ampliar a capacidade de escoamento entre regiões. Nenhuma dessas soluções substitui a outra. A transição energética exige uma combinação de infraestrutura, tecnologia, planejamento e sinal econômico adequado.


A próxima etapa da transição energética será sistêmica

A expansão das renováveis no Brasil é uma das grandes fortalezas da matriz elétrica nacional. O país possui recursos naturais abundantes, experiência acumulada, cadeia produtiva em evolução e um sistema interligado que permite ganhos relevantes de complementaridade.


Mas a próxima etapa da expansão renovável será mais complexa: não se trata apenas de adicionar capacidade, mas de integrar valor ao sistema. Isso exige olhar para o sistema como um todo. Geração, transmissão, distribuição, armazenamento, consumo e operação precisam ser pensados de forma coordenada. Caso contrário, o país corre o risco de expandir capacidade renovável sem capturar plenamente seus benefícios.


A agenda da transição energética, portanto, não é apenas uma agenda de geração limpa. É também uma agenda de rede, flexibilidade e inteligência operacional.


Gerar, entregar e capturar valor

A competitividade das renováveis não será definida apenas por quem consegue gerar o MWh mais barato. Será definida por quem consegue gerar, entregar e capturar valor em um sistema elétrico cada vez mais dinâmico. A transmissão virou variável de competitividade porque conecta potencial renovável a valor real. Sem ela, parte da energia limpa e barata pode ficar limitada pelo próprio sistema que deveria aproveitá-la.

Renovável não é apenas gerar barato. É gerar e conseguir entregar.


Sobre a autoraLaís Víctor é especialista em energias renováveis e diretora executiva de parcerias, com 15 anos de atuação no setor de energia. Sua trajetória reúne experiência em desenvolvimento de negócios, estruturação de alianças estratégicas e atração de investimentos voltados à transição energética, com foco na construção de ecossistemas sustentáveis e na inovação do mercado global de renováveis.


A transmissão virou variável de competitividade para as renováveis


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