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Curtailment deixou de ser exceção: BESS e hibridização podem transformar perda em estratégia

Curtailment deixou de ser exceção: BESS e hibridização podem transformar perda em estratégia
Curtailment deixou de ser exceção: BESS e hibridização podem transformar perda em estratégia

Por Daniel Pansarella


O Brasil vive um paradoxo típico de mercados que avançaram rápido na transição energética: temos alguns dos melhores recursos solares e eólicos do mundo, uma matriz elétrica reconhecida pela alta participação renovável e uma carteira expressiva de projetos utility scale. Ao mesmo tempo, parte dessa energia limpa, competitiva e já disponível deixa de chegar ao consumidor por restrições operativas do sistema. O nome técnico é curtailment. Na prática, é energia que poderia ser gerada, mas precisa ser cortada.


Esse tema deixou de ser uma discussão restrita aos centros de operação. Ele passou a afetar diretamente a modelagem financeira dos projetos, a percepção de risco dos investidores, a estratégia comercial dos geradores e a própria agenda regulatória do setor elétrico. Para o operador, o curtailment é uma ferramenta de segurança. Para quem investe, financia, constrói ou opera ativos renováveis, ele é também um sinal de que a próxima etapa da transição energética brasileira exigirá mais inteligência, mais flexibilidade e melhor desenho de portfólio.


O ONS trata a restrição de geração como uma realidade associada a sistemas com elevada participação de fontes renováveis variáveis. A explicação é objetiva: solar e eólica produzem conforme disponibilidade de recurso, e nem sempre essa produção coincide com a demanda ou com a capacidade instantânea da rede. Em algumas situações, restringir geração é necessário para preservar a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional. Essa leitura técnica é correta, mas não pode ser o ponto final do debate.


A pergunta estratégica não é mais se o curtailment ocorrerá. A pergunta correta é: como transformar esse risco em flexibilidade, receita e vantagem competitiva? Em um sistema que adiciona renováveis em velocidade superior à expansão de determinados reforços de rede e mecanismos de flexibilidade, cortar geração deixa de ser um evento excepcional e passa a ser uma variável estrutural de planejamento.


Curtailment deixou de ser exceção: BESS e hibridização podem transformar perda em estratégia

O ponto central é que o sistema elétrico brasileiro não precisa apenas de mais megawatts instalados. Precisa de megawatts mais úteis. A diferença é relevante. Um parque solar ou eólico que entrega energia justamente no momento em que o sistema está congestionado, ou quando há excedente renovável regional, pode enfrentar cortes recorrentes. Já um projeto capaz de armazenar, deslocar ou combinar fontes complementares passa a jogar outro jogo: o jogo da flexibilidade.


É nesse contexto que os sistemas de armazenamento por baterias, os BESS, deixam de ser uma promessa tecnológica e passam a ser uma ferramenta de estratégia energética. Uma bateria conectada a uma planta solar ou eólica pode carregar nos momentos de excedente, reduzir a exposição ao corte e deslocar energia para horários de maior valor. Mas essa é apenas a primeira camada da discussão. O verdadeiro potencial do BESS está no empilhamento de aplicações: arbitragem, serviços ancilares, suporte à rede, otimização da conexão, redução de rampas e aumento da previsibilidade comercial.


A EPE, em apresentação sobre soluções de armazenamento no planejamento energético brasileiro, já aponta essa versatilidade ao destacar aplicações como associação com unidades de geração, arbitragem, otimização da expansão da transmissão, mitigação de restrições elétricas de curto prazo, serviços ancilares e atendimento a sistemas isolados. O mesmo material reconhece que ainda existem desafios regulatórios, econômicos e operacionais para viabilizar a tecnologia em larga escala.


Essa é a essência do debate. Bateria não deve ser vista apenas como custo adicional colado ao CAPEX de uma usina. Se for analisada isoladamente, a conta muitas vezes parece difícil. Quando o ativo passa a capturar múltiplas fontes de valor, a equação muda. O BESS pode reduzir perdas por curtailment, melhorar o perfil de entrega, prestar serviços ao sistema, aumentar o valor do ponto de conexão e dar mais previsibilidade a contratos de longo prazo.


Curtailment deixou de ser exceção: BESS e hibridização podem transformar perda em estratégia

A hibridização é a outra metade dessa agenda. A combinação entre solar e eólica em um mesmo complexo, ou em centrais associadas, permite explorar complementaridade de recursos, ampliar o uso da infraestrutura compartilhada e reduzir ociosidade de subestações, terrenos, linhas de conexão e contratos de uso do sistema. A ANEEL já regulamentou centrais geradoras híbridas e associadas, reconhecendo esse modelo como um salto de inovação para otimizar a produção de energia e o uso da rede.


O desafio agora é avançar para uma segunda geração dessa agenda regulatória. A hibridização entre fontes é importante, mas a combinação entre fonte renovável e armazenamento é ainda mais estratégica. Se o problema é cada vez mais a falta de flexibilidade temporal, a solução precisa ser desenhada de forma integrada: solar, eólica, BESS, conexão, despacho e contrato comercial como partes de um mesmo ativo energético.


No Brasil, ainda se discute se a bateria deve ser tratada como geração, carga, ativo de transmissão, recurso de distribuição, prestadora de serviço ancilar ou agente armazenador. Essa discussão é legítima, mas não pode se transformar em paralisia. A natureza econômica da bateria é justamente sua capacidade de atuar em múltiplas frentes. Tentar enquadrá-la em uma única categoria pode reduzir seu valor sistêmico. O caminho mais eficiente é criar regras que reconheçam a multiplicidade de serviços, evitem dupla cobrança indevida e permitam remuneração adequada por benefícios verificáveis.


A América Latina oferece sinais importantes. No Chile, por exemplo, a combinação entre forte expansão solar, concentração regional de geração e gargalos de transmissão acelerou a discussão sobre armazenamento. A Ember apontou que 5.642 GWh de energia solar e eólica foram cortados no país em 2024, o equivalente a 19% da eletricidade fornecida por essas fontes naquele ano. O caso chileno mostra que, quando o curtailment ganha escala, o armazenamento deixa de ser um acessório e passa a ser infraestrutura estratégica.


O Brasil não deve simplesmente copiar modelos internacionais. Nosso sistema é maior, hidrotérmico, interligado em escala continental e com características próprias de despacho, transmissão, comercialização e geração distribuída. Ainda assim, a lógica econômica é semelhante: quanto maior a participação de fontes variáveis, maior o valor da flexibilidade. E quanto maior o curtailment, mais urgente se torna converter energia desperdiçada em energia armazenada, deslocada ou contratada sob novos modelos.


Essa agenda também conversa diretamente com a indústria. BESS e hibridização podem criar demanda por engenharia, integração, inversores, transformadores, sistemas de controle, software, operação, manutenção especializada, estudos elétricos e novas competências na cadeia produtiva. Não se trata apenas de instalar contêineres de baterias ao lado de usinas. Trata-se de formar um ecossistema de flexibilidade com escala, previsibilidade regulatória e capacidade de atrair capital.


Do ponto de vista de política pública, dois pontos merecem prioridade. O primeiro é acelerar a regulamentação do armazenamento com uma visão moderna de empilhamento de receitas. Sem sinal econômico claro, a bateria continuará sendo vista como custo defensivo contra o curtailment, e não como ativo de valor sistêmico. O segundo é aperfeiçoar as regras de usinas híbridas e associadas para permitir a incorporação eficiente do BESS em projetos solares e eólicos utility scale, com tratamento claro para conexão, uso da rede, medição, despacho e remuneração.


O curtailment é o sintoma de uma transição energética que avançou em geração, mas ainda precisa avançar em flexibilidade. A próxima fronteira não será apenas instalar mais megawatts renováveis; será entregar megawatts renováveis no momento certo, no local certo e com maior previsibilidade.


Para investidores, desenvolvedores e fabricantes, a mensagem é direta. Projetos desenhados apenas para maximizar geração bruta podem perder competitividade em um sistema com cortes recorrentes. Projetos concebidos para maximizar valor líquido, flexibilidade e uso inteligente da conexão tendem a capturar melhor o próximo ciclo. O BESS não elimina todos os riscos. A hibridização não substitui expansão de transmissão. Mas, juntos, eles reduzem desperdício, aumentam resiliência e aproximam o setor de um modelo mais sofisticado de planejamento energético.


O Brasil não deve tratar o curtailment como uma externalidade inevitável da expansão renovável. Deve tratá-lo como um sinal econômico e regulatório. Se existe energia limpa sendo cortada, existe também uma oportunidade de investimento, inovação e modernização. A diferença entre prejuízo e valor estará na velocidade com que o país conseguirá transformar excedente em flexibilidade, e flexibilidade em receita.


No fim, a discussão não é apenas sobre baterias. É sobre a próxima arquitetura do setor elétrico brasileiro. Um sistema que desperdiça energia renovável por falta de flexibilidade perde competitividade. Um sistema que integra solar, eólica, BESS, transmissão e inteligência operacional transforma abundância em vantagem estratégica.


Daniel Pansarella é executivo com vasta experiência no setor de energia solar, especializado em tributação, logística, cadeia produtiva de equipamentos e desenvolvimento de negócios para equipamentos solares nos mercados brasileiro e latino-americano. Atualmente, atua como Public Affairs & Business Developer Latam na Trina Solar, uma das principais fabricantes de módulos fotovoltaicos, Trackers e Storage do mundo. É também Vice-Presidente de Cadeia Produtiva do Conselho da ABSOLAR (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), Diretor do Derex-FIESP e Conselheiro de empresas como Brasol (Siemens e BlackRock), Greener e Pacto Energia. Conheça mais em seu perfil no LinkedIn. 


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