A Revolução da Geração Distribuída e o Desafio da Curva do Pato
- Renato Zimmermann
- há 34 minutos
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O momento decisivo da energia
Escrevo este artigo como defensor convicto da Geração Distribuída (GD), da modernização do setor elétrico e da transição energética. O Brasil e o mundo vivem um momento decisivo: ou avançamos para redes elétricas mais resilientes, descentralizadas e inteligentes, ou corremos o risco de enfrentar apagões em série, com impactos devastadores para a economia e para a vida cotidiana.
A ameaça invisível: apagões em série
A sociedade pouco imagina o risco que corre. Eventos climáticos extremos — temporais, tornados, enchentes, ondas de calor e estiagens prolongadas — já comprometem sistemas elétricos em diversos países. Mas não são apenas os fenômenos naturais que ameaçam: falhas estruturais, ataques cibernéticos e a própria rigidez de um modelo centralizado de geração podem levar a colapsos.
O setor elétrico é subsidiado e, como sempre, a conta é repassada para alguém. No caso da GD, os benefícios são inúmeros: redução de perdas na transmissão, maior eficiência, democratização do acesso à energia limpa e, sobretudo, resiliência.
Subsídios: a narrativa injusta
É curioso observar como apenas os subsídios da GD são questionados. Hidrelétricas, termelétricas e linhas de transmissão recebem aportes bilionários, mas raramente são alvo de críticas. A GD, por outro lado, é acusada de “onerar” o sistema, quando na verdade contribui para reduzir custos estruturais e evitar investimentos gigantescos em novas usinas.
Quantas Itaipús precisaríamos construir se cada brasileiro investisse em geração e armazenamento dentro de sua própria propriedade? Quantos bilhões de dinheiro público seriam economizados se a sociedade fosse incentivada a produzir e gerir sua própria energia?
A curva do pato: um problema estratégico
A chamada Curva do Pato surgiu na Califórnia, identificada pelo operador independente do sistema elétrico (California ISO). O gráfico mostra como a geração solar reduz a demanda durante o dia, mas cria rampas abruptas de necessidade de geração térmica no fim da tarde. O formato lembra o corpo de um pato, daí o nome.
No Brasil, o fenômeno já se manifesta. Segundo a EPE, o país registrou mais de 2 GW médios de energia solar desperdiçada (curtailment), especialmente no Nordeste. O Jornal da USP, em sua série Energia, destacou que a alternância entre solar e termelétricas cria a Curva do Pato, um problema estratégico que exige soluções de armazenamento e redes inteligentes.
Armazenamento: a chave da resiliência
O armazenamento é a peça que fecha o quebra-cabeça da transição energética. O Brasil já abriu leilões para reserva de capacidade de armazenamento, mas a sociedade não precisa esperar: tecnologias já existem para que residências, empresas e propriedades rurais façam seu próprio investimento.
Os BESS (Battery Energy Storage Systems) permitem guardar energia em períodos de sobra e liberá-la em momentos críticos. Além disso, baterias podem ser sincronizadas com medidores inteligentes, armazenando energia quando ela está barata e injetando na rede quando está cara. Essa lógica transforma cada consumidor em protagonista da estabilidade do sistema.
O problema está nos impostos elevados sobre baterias. Reduzir a carga tributária sobre tecnologias de armazenamento é uma medida plausível e urgente.
Modernização das redes de distribuição
A GD exige redes inteligentes, capazes de integrar múltiplas fontes e responder dinamicamente às variações de carga. A modernização das redes de distribuição não é luxo, mas necessidade. Sem ela, o risco de apagões aumenta e a transição energética fica comprometida.
Investir em digitalização, sensores, automação e inteligência artificial é fundamental para que o sistema elétrico seja resiliente.
O ataque dos setores oligopolizados
Não podemos ignorar: a GD sofre ataques constantes de setores oligopolizados que defendem a geração centralizada. Esses grupos enxergam a descentralização como ameaça a seus privilégios. Mas a verdade é que a GD democratiza o acesso à energia, reduz custos e fortalece a segurança energética.
Defender a GD é defender o futuro.
Análise econômica: GD versus geração centralizada
A geração centralizada exige investimentos bilionários em grandes usinas e linhas de transmissão. Esses custos são repassados ao consumidor por meio de tarifas e encargos. Além disso, há perdas significativas na transmissão: estima-se que entre 6% e 8% da energia gerada se perde no caminho até o consumidor.
A GD, por outro lado, reduz essas perdas ao gerar energia próxima ao consumo. Isso significa menos necessidade de expansão da rede e menos gastos públicos.
Um estudo da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) mostra que o custo nivelado da energia solar distribuída já é competitivo com fontes centralizadas em diversos países. No Brasil, a GD solar tem custo médio inferior ao da energia térmica, especialmente quando se considera o impacto ambiental e os subsídios ocultos das fontes fósseis.
Se cada consumidor investisse em GD e armazenamento, o país poderia evitar a construção de novas usinas de grande porte, economizando bilhões em recursos públicos.
Quantas Itaipús poderíamos evitar?
A provocação é válida: Itaipu custou cerca de US$ 20 bilhões em valores da época. Hoje, construir uma usina desse porte seria ainda mais caro. Se cada brasileiro tivesse painéis solares e baterias em sua residência, empresa ou propriedade rural, poderíamos evitar investimentos dessa magnitude.
A descentralização não apenas economiza dinheiro público, mas também fortalece a segurança energética.
O caminho é a descentralização
A transição energética não é apenas uma questão ambiental, mas de sobrevivência econômica e social. Apagões em série podem paralisar indústrias, hospitais e serviços essenciais. A GD, aliada ao armazenamento e à modernização das redes, é a resposta.
Como defensor da descentralização, afirmo: precisamos proteger a GD dos ataques de setores que insistem em manter um modelo ultrapassado. A sociedade já tem as ferramentas, as tecnologias e a consciência. Falta apenas vontade política para reduzir impostos, incentivar o armazenamento e acelerar a modernização.
O futuro da energia é distribuído, resiliente e democrático. E é nosso dever lutar por ele.






