O QUE O RECUO NO TRADING DE ENERGIA REVELA SOBRE O SETOR ELÉTRICO BRASILEIRO
- Arthur Oliveira

- há 5 dias
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Nos últimos meses, algo curioso e bastante revelador vem acontecendo no setor elétrico brasileiro: empresas que sempre se sentiram confortáveis navegando no risco estão, discretamente, recolhendo as velas.

O trading direcional de energia, especialmente no Mercado Livre, deixou de ser sinônimo de oportunidade e passou a representar um território onde até os mais experientes preferem pisar com cautela.
Não se trata de um susto pontual ou de uma crise isolada. O movimento é mais profundo e estrutural. Ele combina riscos de crédito mal precificados, volatilidade crescente, menor liquidez e, sobretudo, um fator que até pouco tempo atrás era tratado quase como um “efeito colateral”: o curtailment.
QUANDO OS GRANDES JOGADORES MUDAM DE POSTURA
A reportagem da Reuters, publicada no início de fevereiro, apenas colocou luz sobre algo que quem vive o mercado já vinha sentindo na prática. Grandes grupos, como CPFL Energia e CTG Brasil, abandonaram posições especulativas clássicas longas ou curtas para se concentrar no óbvio: vender a própria energia.
Pode parecer conservador, mas é uma decisão racional num ambiente em que o risco deixou de ser assimétrico e passou a ser simplesmente imprevisível. Quando uma CPFL afirma que prefere eliminar os riscos do trading e focar em energia de ativos próprios, o recado é claro: não é falta de apetite, é leitura fria de cenário.
O ESTRANGULAMENTO DAS COMERCIALIZADORAS INDEPENDENTES
O movimento de retração não ficou restrito aos grandes grupos. Comercializadoras independentes que historicamente sustentaram boa parte da liquidez do mercado livre reduziram drasticamente suas exposições. Algumas por opção estratégica, outras por necessidade.
Capital menor, exigência crescente de garantias e um mercado bilateral sem câmara de compensação criam um ambiente hostil para operações alavancadas. A consequência natural é a redução do volume negociado e a concentração das operações em players com lastro financeiro e reputacional mais sólidos.
QUEBRAS, CALOTES E O COLAPSO DA CONFIANÇA
É impossível ignorar o impacto das quebras recentes. Gold Energia, 2W Ecobank, América Energia, Máxima e, mais recentemente, o Grupo Elétron formam uma sequência que abalou profundamente a confiança entre os agentes. Mas atribuir essas falências apenas à volatilidade recente seria simplista. Parte relevante do problema nasceu anos antes, na expansão acelerada do mercado livre.
Contratos de longo prazo com preços de MWh excessivamente baixos para ganhar escala, estruturadas com margens mínimas e alta alavancagem, essas operações pressupunham preços baixos e crédito farto por um período prolongado. Cenários e legislação mudam. Contratos passaram a gerar perdas recorrentes, atingindo diretamente geradores, comercializadoras e traders.
Quando executivos do setor admitem, sob anonimato, que “já não sabem quem tem crédito bom”, o problema não é falta de informação. É risco mal distribuído, embutido em contratos mal precificados, firmados sem garantias robustas em um mercado bilateral sem câmara de compensação central. Nesse ambiente, reputação passou a valer tanto quanto garantia financeira e muitos ficaram pelo caminho.
MENOS LIQUIDEZ, PREÇOS MAIS ALTOS
A retração do trading tem efeito direto sobre os preços. Com menos liquidez no mercado intermediário e geradores optando por reter energia para capturar valores elevados no curto prazo, o resultado é um mercado mais caro e mais volátil.
No Sudeste/Centro-Oeste, a energia convencional já circula próxima de R$ 355/MWh, com curvas apontando valores ainda maiores. Hidrologia desfavorável e despacho térmico ajudam a explicar, mas o fator decisivo é estratégico: quem pode, segura energia.
FREIO NA EXPANSÃO ENERGÉTICA
O recuo no trading de energia não é sinal de fraqueza do setor elétrico brasileiro. É, antes de tudo, um ajuste inevitável após anos de contratos mal precificados, riscos subestimados e mudanças abruptas nas condições de mercado. Quando o risco deixa de ser inteligível, o mercado se reorganiza como sempre fez.
Mas o ajuste não se restringe ao comportamento de traders e comercializadoras. Em 2025, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) revogou mais de 500 outorgas de usinas solares e eólicas totalizando cerca de 22 GW de potência muitas a pedido dos próprios empreendedores, que concluíram que os projetos não eram viáveis sob as atuais condições econômicas e técnicas do setor.
Esse movimento expôs um ponto crítico: parte expressiva da expansão planejada em renováveis vinha sendo tocada sem garantia real de retorno econômico ou mesmo maturidade de conexão ao sistema elétrico.
O cancelamento em massa de outorgas mostra que o setor, em muitos momentos, cresceu mais no papel do que na prática com apostas excessivas em projetos que não resistiram à realidade de curtailment, gargalos de transmissão e falta de mecanismos robustos de compensação e de gestão de risco.
QUEM GANHA COM O CAOS
Não há quebra generalizada entre os geradores. Pelo contrário. Hidrelétricas flexíveis, com grande volume de energia descontratada, atravessam um dos melhores momentos dos últimos anos. Empresas como a Axia Energia se beneficiam diretamente da volatilidade, capturando margens elevadas em cenários de PLD alto.
O CURTAILMENT COMO PROBLEMA ESTRUTURAL
Para a geração renovável, o cenário é bem menos confortável. O curtailment deixou de ser exceção operacional e virou risco estrutural. Cortes recorrentes de quase um quarto da geração eólica e solar destroem a previsibilidade de receita e inviabilizam projetos que, no papel, pareciam sólidos.
A onda de revogações de outorgas após o novo marco regulatório não é coincidência. É resposta direta à falta de escoamento, ao aumento do risco regulatório implícito e à simples constatação de que a conta já não fecha.
A BUSCA DOS CONSUMIDORES POR PREVISIBILIDADE
Diante de preços elevados e voláteis, grandes consumidores passaram a buscar alternativas fora do circuito tradicional do trading. A autoprodução por meio de locação de ativos surge menos como inovação e mais como estratégia defensiva.
Previsibilidade de custo, fornecimento de longo prazo e menor exposição ao mercado spot tornaram-se atributos valiosos especialmente para indústrias com consumo contínuo e margens pressionadas.
UM AJUSTE ESTRUTURAL, NÃO UM ACIDENTE
A queda de 37% no volume de trading em 2025 não é estatística passageira. É sintoma de um ajuste estrutural em curso. Grandes grupos fecham o perímetro, comercializadoras independentes buscam nichos mais estáveis e o mercado livre entra em uma nova fase justamente quando se discute sua abertura total.
A ironia é evidente: nunca se falou tanto em liberdade de escolha, e nunca o risco esteve tão concentrado.
CONCLUSÃO
O recuo no trading de energia não é sinal de fraqueza do setor elétrico brasileiro. É, antes de tudo, um ajuste inevitável após anos de crescimento acelerado, contratos mal precificados e riscos subestimados. Quando o mercado deixa de conseguir distinguir claramente risco de oportunidade, a reação natural é reduzir exposição e rever modelos.
O aprendizado é claro: liquidez, expansão e inovação só são sustentáveis quando caminham junto com disciplina de risco. Ignorar essa equação pode até funcionar por um tempo mas a conta, mais cedo ou mais tarde, sempre chega.
Fontes:
- Reuters (6/2/2026),
- MegaWhat
- ANACE
O QUE O RECUO NO TRADING DE ENERGIA REVELA SOBRE O SETOR ELÉTRICO BRASILEIRO










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