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Transição Energética e Soberania

Por Marcelo Santos Rodrigues


Os acontecimentos recentes envolvendo a Venezuela me levaram a retomar a relembrar a leitura de O Novo Mapa, de Daniel Yergin.


Transição Energética e Soberania

Não como um exercício teórico, mas como parte do meu hábito profissional de revisitar obras estruturantes sempre que o contexto global emite sinais claros de mudança.


Transição Energética e Soberania

Essa releitura reforçou minha convicção : a transição energética precisa ser compreendida como uma agenda estratégica de soberania nacional, e não como um debate ideológico ou conjuntural.


Yergin não escreve apenas sobre energia. Ele escreve sobre poder, segurança e estratégia.


Energia continua sendo variável de poder

Uma das mensagens mais consistentes de O Novo Mapa é que, apesar das transformações tecnológicas, a energia permanece no centro da estabilidade econômica e geopolítica dos países. O livro demonstra como conflitos, alianças e rearranjos de poder sempre estiveram associados ao controle de recursos energéticos e de infraestrutura crítica.


A guerra na Ucrânia deixou essa realidade explícita. Os episódio recente envolvendo a Venezuela reforçam a mesma lógica histórica: países com relevância energética seguem sendo peças centrais no tabuleiro global, especialmente quando enfrentam fragilidades institucionais.


Essa constatação independe de alinhamentos políticos. Trata-se de uma agenda estrutural.

A transição amplia não elimina a geopolítica da energia


Ao revisitar a livro de  Yergin, fica evidente que a transição energética não substitui a geopolítica da energia. Ela a amplia e a torna mais sofisticada.


Hoje, além do petróleo e do gás, entram definitivamente no centro da estratégia nacional:

  • sistemas elétricos resilientes,

  • armazenamento de energia,

  • minerais críticos (Terras Raras),

  • hidrogênio e novos vetores,

  • digitalização e controle de dados energéticos.


Na prática, as grandes potencias estão conduzindo suas transições com objetivos claros: reduzir dependências, fortalecer suas indústrias e proteger sua segurança energética. O discurso ambiental existe, mas a lógica predominante é estratégica.


O Brasil no novo mapa energético

O Brasil possui atributos relevantes para ocupar uma posição de destaque nesse novo mapa: matriz elétrica limpa, liderança em biocombustíveis e enorme potencial em minerais críticos. Soma-se a isso a oportunidade de avançar em armazenamento, modernização de redes e soluções descentralizadas.


Mas reforço um alerta que considero fundamental :vantagem natural não se converte automaticamente em soberania energética.


Sem coordenação entre política energética, política industrial, tecnologia e desenvolvimento territorial, o país corre o risco de continuar exportando atributos naturais e importando soluções estratégicas.


Transição energética como política de Estado

Tenho defendido de forma consistente que a transição energética no Brasil precisa ser tratada como política de Estado.

Isso significa:

  • planejamento de longo prazo,

  • previsibilidade regulatória,

  • fortalecimento de cadeias produtivas locais,

  • investimento em infraestrutura e armazenamento,

  • governança clara sobre ativos estratégicos.


Sem essa abordagem, a transição pode até avançar tecnicamente, mas continuará frágil do ponto de vista da soberania.

Conclusão


Revisitar O Novo Mapa neste momento ajuda a separar narrativa de estratégia. O mundo está redesenhando seus mapas energéticos, e esse processo não é neutro nem automático.


A transição energética é inevitável.O protagonismo é uma escolha.

Para quem atua no setor de energia, infraestrutura e políticas públicas, recomendo fortemente a leitura de O Novo Mapa, de Daniel Yergin. É uma obra que ajuda a interpretar o presente com menos paixão e mais racionalidade estratégica.

No novo mapa da energia, soberania não é discurso.É construção contínua.


Marcelo Santos Rodrigues é executivo sênior dos setores de energia e infraestrutura, com atuação em transição energética, armazenamento de energia e estratégia. É Advisor da UCB Power, Co-Founder e Conselheiro da ABSAE – Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de energia & Partner da MR Partners, onde atua na aceleração de negócios de impacto e no apoio estratégico a empresas, investidores e conselhos.Colunista – Energy Channel


Transição Energética e Soberania

 

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