Transição Energética e Soberania
- Marcelo Santos Rodrigues

- há 6 dias
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Por Marcelo Santos Rodrigues
Os acontecimentos recentes envolvendo a Venezuela me levaram a retomar a relembrar a leitura de O Novo Mapa, de Daniel Yergin.

Não como um exercício teórico, mas como parte do meu hábito profissional de revisitar obras estruturantes sempre que o contexto global emite sinais claros de mudança.

Essa releitura reforçou minha convicção : a transição energética precisa ser compreendida como uma agenda estratégica de soberania nacional, e não como um debate ideológico ou conjuntural.
Yergin não escreve apenas sobre energia. Ele escreve sobre poder, segurança e estratégia.
Energia continua sendo variável de poder
Uma das mensagens mais consistentes de O Novo Mapa é que, apesar das transformações tecnológicas, a energia permanece no centro da estabilidade econômica e geopolítica dos países. O livro demonstra como conflitos, alianças e rearranjos de poder sempre estiveram associados ao controle de recursos energéticos e de infraestrutura crítica.
A guerra na Ucrânia deixou essa realidade explícita. Os episódio recente envolvendo a Venezuela reforçam a mesma lógica histórica: países com relevância energética seguem sendo peças centrais no tabuleiro global, especialmente quando enfrentam fragilidades institucionais.
Essa constatação independe de alinhamentos políticos. Trata-se de uma agenda estrutural.
A transição amplia não elimina a geopolítica da energia
Ao revisitar a livro de Yergin, fica evidente que a transição energética não substitui a geopolítica da energia. Ela a amplia e a torna mais sofisticada.
Hoje, além do petróleo e do gás, entram definitivamente no centro da estratégia nacional:
sistemas elétricos resilientes,
armazenamento de energia,
minerais críticos (Terras Raras),
hidrogênio e novos vetores,
digitalização e controle de dados energéticos.
Na prática, as grandes potencias estão conduzindo suas transições com objetivos claros: reduzir dependências, fortalecer suas indústrias e proteger sua segurança energética. O discurso ambiental existe, mas a lógica predominante é estratégica.
O Brasil no novo mapa energético
O Brasil possui atributos relevantes para ocupar uma posição de destaque nesse novo mapa: matriz elétrica limpa, liderança em biocombustíveis e enorme potencial em minerais críticos. Soma-se a isso a oportunidade de avançar em armazenamento, modernização de redes e soluções descentralizadas.
Mas reforço um alerta que considero fundamental :vantagem natural não se converte automaticamente em soberania energética.
Sem coordenação entre política energética, política industrial, tecnologia e desenvolvimento territorial, o país corre o risco de continuar exportando atributos naturais e importando soluções estratégicas.
Transição energética como política de Estado
Tenho defendido de forma consistente que a transição energética no Brasil precisa ser tratada como política de Estado.
Isso significa:
planejamento de longo prazo,
previsibilidade regulatória,
fortalecimento de cadeias produtivas locais,
investimento em infraestrutura e armazenamento,
governança clara sobre ativos estratégicos.
Sem essa abordagem, a transição pode até avançar tecnicamente, mas continuará frágil do ponto de vista da soberania.
Conclusão
Revisitar O Novo Mapa neste momento ajuda a separar narrativa de estratégia. O mundo está redesenhando seus mapas energéticos, e esse processo não é neutro nem automático.
A transição energética é inevitável.O protagonismo é uma escolha.
Para quem atua no setor de energia, infraestrutura e políticas públicas, recomendo fortemente a leitura de O Novo Mapa, de Daniel Yergin. É uma obra que ajuda a interpretar o presente com menos paixão e mais racionalidade estratégica.
No novo mapa da energia, soberania não é discurso.É construção contínua.
Marcelo Santos Rodrigues é executivo sênior dos setores de energia e infraestrutura, com atuação em transição energética, armazenamento de energia e estratégia. É Advisor da UCB Power, Co-Founder e Conselheiro da ABSAE – Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de energia & Partner da MR Partners, onde atua na aceleração de negócios de impacto e no apoio estratégico a empresas, investidores e conselhos.Colunista – Energy Channel
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