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LRCap março/2026. O que os leilões de capacidade revelam sobre o próximo passo do sistema elétrico brasileiro

O Brasil contratou entre os dias 18 e 20 de março de 2026, o maior volume de reserva de capacidade da sua história. Dois leilões realizados pela ANEEL, MME e CCEE consolidaram 19.478 MW de potência firme no SIN. O resultado permite uma leitura objetiva sobre o que ainda não foi endereçado.

Esse movimento resolve o risco de capacidade, mas desloca o problema para o custo do sistema. O ponto não é discutir se a contratação foi necessária. Ela foi. O sistema precisava de capacidade. O ponto é entender o custo dessa decisão e como reduzir o custo das próximas.


Os leilões evidenciam dois problemas distintos no sistema. Capacidade estrutural e flexibilidade operacional. Esses vetores não são resolvidos pelos mesmos instrumentos.


LRCap março/2026. O que os leilões de capacidade revelam sobre o próximo passo do sistema elétrico brasileiro
Foto de Exemplo: Termoelétrica Arthuro Paganini (Fonte: ROacontece)

O que os dois leilões entregaram


O 1º LRCap de 2026, realizado no dia 18, concentrou o movimento estrutural. Foram 18.977 MW contratados, com predominância de termelétricas a gás natural, participação de carvão e ampliação de hidrelétricas. O CAPEX declarado atingiu R$ 64,5 bilhões, com receita fixa de R$ 38,9 bilhões por ano.


Esse número não é trivial. Trata-se de um pagamento recorrente elevado para contratação de disponibilidade, não de energia. Na prática, é um custo que tende a ser absorvido na tarifa e que, em termos de ordem de grandeza, se comporta como um novo encargo na tarifa. A segurança foi contratada. O impacto econômico dessa decisão ainda não está plenamente refletido na percepção do consumidor.



Parte desse custo não aparece de forma direta no preço, o que reduz a percepção real do impacto para o consumidor e também a percepção de escassez e desloca o ajuste para mecanismos indiretos ao longo do tempo, como encargos e aumento tarifário.


Em diversos produtos, o preço ficou próximo ao teto, com deságios reduzidos. Esse comportamento indica um ambiente em que a necessidade de contratação se sobrepõe à eficiência na formação de preço, algo esperado em momentos de restrição de oferta.



Já o 2º LRCap, realizado no dia 20, apresentou comportamento distinto. Foram 501 MW contratados em seis usinas a diesel, óleo combustível e biodiesel, com receita fixa de R$ 229,9 milhões por ano. O deságio médio foi de 50,14% e o CAPEX declarado foi zero em todos os produtos.


Aqui a leitura muda. Não há expansão relevante, nem pressão de investimento. Trata-se de contratação de capacidade já existente, com preço mais aderente ao custo real desses ativos. Quando o sistema utiliza o que já está disponível, o ajuste de preço ocorre com maior eficiência.




Os dois leilões mostram comportamentos diferentes dentro do mesmo mecanismo. Expansão com custo elevado e menor eficiência de preço. Uso de ativos existentes com maior aderência econômica.



Estimativa para o próximo passo. BESS


A Portaria MME 878/2025 e o desenho do leilão de armazenamento previsto para abril permitem uma estimativa direta. A partir dos parâmetros da portaria, realizei uma estimativa considerando CAPEX entre R$ 1.200 e R$ 1.900 por kWh e uma contratação da ordem de 3 GW com 4 horas, o investimento estimado varia entre R$ 14 e R$ 23 bilhões.


Os requisitos técnicos estabelecidos não são marginais. RTE superior a 85%, recarga completa em até 6 horas e exigência de tecnologia grid-forming. Esse conjunto restringe fornecedores e impacta o custo final dos projetos.


Sob premissas operacionais voltadas ao atendimento da ponta, com ciclos recorrentes e horizonte compatível com contratos regulados, o custo anual estimado situa-se entre R$ 3 e R$ 5 bilhões. Esse intervalo corresponde a aproximadamente 10% do custo anual associado às térmicas contratadas em março, com sensibilidade a taxa de desconto, ciclos e perfil de uso.

Térmicas e armazenamento


As termelétricas contratadas atendem o problema de capacidade estrutural. Garantem disponibilidade contínua e suportam cenários prolongados de hidrologia adversa. Isso não está em discussão.


O ponto relevante passa a ser o custo de manter essa disponibilidade ao longo do tempo, especialmente quando esse custo não é totalmente sinalizado pelo preço.


Sistemas de armazenamento não substituem energia firme em cenários prolongados. No entanto, atendem com precisão o requisito operacional atual do sistema, associado à rampa e à ponta. Atuam deslocando energia entre períodos, com resposta rápida e direcionada.


Sob a ótica do sistema, trata-se de alocação mais eficiente de recursos para atender necessidades distintas.


Após a contratação de capacidade, o desafio passa a ser o custo


Os leilões passam a resolver o risco estrutural. O custo dessa decisão passa a ser um elemento central da discussão. O leilão do dia 20 melhora a eficiência da contratação no curto prazo, mas não altera o custo estrutural observado no dia 18.


O sistema passa a carregar um volume relevante de pagamento recorrente para garantir disponibilidade. A analogia com um novo encargo reflete o efeito econômico percebido pelo consumidor, assim como ocorre hoje com a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE).


Impactos tarifários da ordem de 6% a 10% passam a entrar nessa discussão. São necessários para viabilizar a entrada de capacidade, mas com efeito relevante para o consumidor.

O próximo ganho relevante não está em mais capacidade. Está na redução do custo marginal de operação e no aumento da flexibilidade do sistema. Quanto mais caro fica garantir potência, maior tende a ser o valor econômico de soluções como armazenamento, gestão de carga e resposta da demanda.


Nesse contexto, o armazenamento não é alternativa às térmicas. É complemento para reduzir o custo incremental de atendimento do sistema. A definição do volume a ser contratado permanece em aberto. A sinalização econômica passa a ser clara. O próximo movimento de menor custo sistêmico está na flexibilidade.


Sobre o autor   


Felipe Figueiró é engenheiro eletricista, com mais de 12 anos de atuação no setor elétrico brasileiro. Especialista em estratégia e inteligência de mercado, atua na interpretação de dados complexos e na construção de análises que conectam operação, regulação e impacto econômico no setor. Possui dois MBAs focados em inovação, liderança e inteligência de mercado.


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