Impostos sobre tecnologia limpa e subsídios a fontes fósseis expõem contradições da política energética brasileira
- EnergyChannel Brasil

- 3 de fev.
- 4 min de leitura
A elevação do imposto de importação sobre equipamentos solares e de armazenamento ocorre em paralelo à manutenção de contratos bilionários para carvão e térmicas, levantando questionamentos sobre coerência, competitividade e o futuro da transição energética no Brasil.

Por EnergyChannel Brasil
Brasília — 03 de fevereiro de 2026
A recente decisão do Governo Federal de elevar as alíquotas do imposto de importação para bens de capital e bens de informática e telecomunicações, atingindo diretamente inversores, microinversores, sistemas de armazenamento de energia (BESS) e geradores fotovoltaicos acima de 75 kW, acende um sinal de alerta no setor elétrico brasileiro.
Com a nova estrutura tarifária, os equipamentos passam a ser tributados em três faixas 7,2%, 12,6% e até 20%, impactando de forma imediata o custo de projetos solares, híbridos e de armazenamento em todo o país.
Para o EnergyChannel, a medida representa mais do que um ajuste fiscal: trata-se de um retrocesso estratégico em um momento crítico para a transição energética, a segurança do sistema elétrico e a competitividade da economia brasileira.
Tecnologia crítica tratada como bem comum
Inversores e sistemas de armazenamento não são itens acessórios. Eles constituem a infraestrutura central do novo sistema elétrico, viabilizando:
integração segura da geração solar e eólica à rede
compensação de picos de carga
estabilidade de frequência e tensão
microrredes, autoprodução e projetos híbridos
digitalização e descentralização do setor elétrico
Ao elevar a tributação desses equipamentos, o Brasil passa a tratá-los como bens convencionais, ignorando seu papel estratégico em uma matriz cada vez mais baseada em fontes intermitentes e inteligentes.
Indústria nacional não se constrói por decreto
O discurso oficial de estímulo à indústria local esbarra em uma realidade incontornável:o Brasil não cria tecnologia de ponta da noite para o dia.
Construir uma indústria nacional competitiva exige:
investimento contínuo em educação técnica e engenharia
estímulo à pesquisa, desenvolvimento e inovação (P&D)
previsibilidade regulatória e fiscal
atração de fábricas, centros tecnológicos e cadeias completas de suprimentos
Hoje, o país não possui escala, diversidade tecnológica nem capacidade produtiva suficiente para substituir, no curto e médio prazo, a oferta internacional de inversores de alta potência e sistemas avançados de armazenamento.
Antecipar a penalização do mercado antes da maturação da indústria local cria um vácuo perigoso:
projetos ficam mais caros imediatamente
investimentos são postergados ou cancelados
o armazenamento de energia avança mais lentamente
a modernização do sistema elétrico é comprometida
O contraste: impostos para renováveis, contratos bilionários para fósseis
A elevação de impostos sobre tecnologias limpas ocorre em paralelo a decisões que preservam e ampliam custos associados a fontes fósseis.
Em janeiro de 2026, o Ministério de Minas e Energia oficializou a prorrogação e contratação compulsória da energia do Complexo Termelétrico Jorge Lacerda (SC), a carvão, por mais 15 anos até 2040.
O contrato, estimado em R$ 28,3 bilhões, foi firmado a um preço de R$ 564/MWh, cerca de 62% acima da média histórica observada em leilões recentes para usinas a carvão. O custo é integralmente repassado aos consumidores por meio da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE).
Na prática, enquanto tecnologias limpas e modernas enfrentam aumento de impostos, fontes poluentes e estruturalmente mais caras seguem amparadas por contratos, subsídios e socialização de custos.
Térmicas, MPs e transferência de risco ao consumidor
Esse padrão se repete em outras frentes do setor elétrico. Medidas recentes envolvendo usinas termelétricas e contratos convertidos em energia de reserva transferem riscos empresariais e custos operacionais para a conta de luz de todos os brasileiros, com impactos estimados em bilhões de reais por ano ao longo de mais de uma década.
Independentemente das justificativas legais apresentadas, o efeito sistêmico é claro:o consumidor final absorve o custo, enquanto o setor elétrico se afasta de uma trajetória mais limpa, eficiente e competitiva.
Risco à segurança energética e à competitividade
O Brasil caminha para uma matriz elétrica cada vez mais dependente de renováveis variáveis. Sem acesso amplo a armazenamento e eletrônica de potência de alta qualidade, o sistema:
perde flexibilidade
aumenta sua exposição a eventos climáticos extremos
depende mais do despacho térmico
eleva custos sistêmicos no médio e longo prazo
Do ponto de vista técnico, dificultar o acesso a tecnologias críticas contradiz o próprio discurso de segurança energética.
Visão EnergyChannel
Fortalecer a indústria nacional é um objetivo legítimo e necessário.Mas onerar tecnologias essenciais antes de construir capacidade produtiva local competitiva não fortalece a indústria enfraquece o mercado.
Uma política industrial moderna para o setor de energia deveria priorizar:
incentivos claros à instalação de fábricas no Brasil
programas robustos de transferência tecnológica
financiamento estruturado para inovação
estabilidade regulatória e fiscal
A transição energética exige velocidade, escala e eficiência. Medidas que encarecem o acesso a tecnologias estratégicas, enquanto mantêm subsídios a modelos centralizados e poluentes, atrasam o país, reduzem competitividade e colocam em risco uma das maiores oportunidades econômicas e ambientais do Brasil nas próximas décadas.
Impostos sobre tecnologia limpa e subsídios a fontes fósseis expõem contradições da política energética brasileira










Comentários