Ferramenta orienta sistema financeiro na análise socioambiental de empresas dos setores de destinação de resíduos e bioenergia
- EnergyChannel Brasil

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Questionários consolidam indicadores globais e nacionais para apoiar o sistema financeiro na avaliação de risco socioambiental e direcionamento de capital sustentável

A ausência de indicadores padronizados e de bases de dados consolidadas ainda limita a capacidade do sistema financeiro de avaliar, com precisão, riscos e oportunidades socioambientais e climáticos nos setores com impactos relevantes nesses temas, como os de destinação de resíduos e bioenergia.
Para enfrentar essa lacuna, a Soluções Inclusivas Sustentáveis (SIS) produziu questionários que reúnem critérios ambientais, sociais e de governança (ASG) aplicáveis a toda a cadeia produtiva – da coleta e transporte até aterros sanitários e industriais, reciclagem, compostagem, incineração e geração de energia a partir de biogás. Há questionários tanto para avaliação de desempenho quanto para avaliação do cumprimento da legislação socioambiental.
A ferramenta foi desenvolvida para apoiar decisões de crédito, investimento e seguros, ao permitir maior comparabilidade entre empresas. “A ideia é qualificar a análise de risco socioambiental e climático. Isso possibilita avaliar se o desempenho é satisfatório, mediano ou insuficiente, com base em parâmetros objetivos, quantitativos e qualitativos”, afirmou a Diretora Executiva e Técnica da SIS, Luciane Moessa, durante o lançamento realizado nesta segunda-feira (4), no 18º BIS – Bate-papo Inclusivo Sustentável. O evento online reuniu especialistas dos setores de destinação de resíduos, bioenergia e representantes do sistema financeiro.
Segundo Luciane, o instrumento também exerce um papel indutor ao estimular a adoção de práticas sustentáveis pelas empresas. “Quando o desempenho não é satisfatório, as instituições financeiras podem apoiar essas empresas, oferecendo crédito para investimentos em sustentabilidade”, explicou. Além disso, é interessante para elas se autoavaliarem e compararem com suas concorrentes nesses aspectos.
Os questionários incorporam padrões e taxonomias de sustentabilidade nacionais e internacionais, permitindo a identificação de lacunas relevantes supridas pela equipe técnica da SIS. Os indicadores dos questionários são estruturados a partir de cada etapa na cadeia produtiva, considerando também – a depender do tipo de atividade –, a localização geográfica dos empreendimentos como variável indispensável na avaliação de impactos ambientais e sociais.
Um desejável passo futuro, segundo Luciane Moessa, seria a atribuição de pesos a cada uma das perguntas, permitindo obter uma nota global. Além disso, é importante construir bases de dados com desempenho médio das empresas de cada setor para cada indicador, de modo que se tenha parâmetros de referência. “Sem essa referência, o setor financeiro consegue apenas acompanhar a evolução individual das empresas ao longo do tempo, mas não comparar o desempenho de uma empresa específica com o desempenho médio dentro do setor dela – o que compromete a precificação de risco e a alocação eficiente de capital”, afirmou.
Riscos, desafios e oportunidades
Alguns dados apresentados durante o bate-papo de lançamento evidenciam a dimensão do desafio representado pela destinação adequada de resíduos urbanos, ao mesmo tempo em que revelam oportunidades concretas para impulsionar a sustentabilidade via compostagem e produção de bioenergia.
No Brasil, gera-se cerca de 88 milhões de toneladas de resíduos por ano, com média de 1,14 kg por habitante/dia, segundo o Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA). A maior parte, porém, ainda é descartada. “Quase metade dos resíduos gerados são resíduos orgânicos, cerca de 45%”, destacou a consultora Joice Maciel, da Apoena Socioambiental. Ainda assim, segundo ela, cerca de 94% dos resíduos são encaminhados para aterro sanitário.
A especialista também apontou gargalos estruturais, como a baixa cobertura da coleta seletiva – presente em apenas 29,2% dos Municípios (correspondentes a 40,6% da população) – e o subfinanciamento do setor.
Por outro lado, se partirmos para o campo da geração de eletricidade a partir de resíduos, o país já conta com mais de 1.800 usinas de biogás em operação, mas isso ainda é muito pouco considerando o potencial. Desse total, 19 produzem biometano e outras 48 estão em processo de autorização na ANP. A representante da Associação Brasileira do Biogás, Maria Clara Pantelli, relatou que o setor de saneamento (resíduos urbanos e efluentes de esgoto) responde por 64% dos resíduos processados pelo setor (normalmente, grandes usinas), sendo que a segunda maior fonte são resíduos agropecuários.
Para que o setor cresça, ela avalia que os desafios são hoje principalmente estruturais. “Os desafios já não são mais tecnológicos, pois já há maturidade tecnológica no Brasil. Ficam mais atrelados à questão de infraestrutura e regulação”, disse, ao citar limitações na rede de gasodutos (excessivamente concentrada na região litorânea do país) e a necessidade de arranjos tarifários para dar competitividade ao biometano. Um ponto positivo salientado por ela foi a aprovação da Lei do Combustível do Futuro, com a obrigatoriedade de uma quota mínima de biometano a ser misturada no biogás.
É importante acrescentar que, segundo dados da ABREMA, apenas 3,2% dos resíduos sólidos orgânicos urbanos são convertidos em bioenergia no Brasil.
Além da produção de eletricidade, diversas experiências em curso indicam que o reaproveitamento de resíduos pode gerar valor econômico também na produção de combustíveis. O consultor Paulo Costa, da House of Carbon, destacou que a indústria de biocombustíveis tem transformado passivos ambientais em ativos produtivos a partir do reaproveitamento de óleos residuais (como o óleo de cozinha), modelo que integra logística reversa e incentivo econômico ao consumidor, bem como do bagaço e da vinhaça (resíduos da cana de açúcar).
Costa também destacou que políticas como o RenovaBio permitiram estruturar esse mercado ao monetizar atributos ambientais. “Estamos falando da monetização do atributo ambiental”, acrescentando que esses mecanismos “aumentam precificação, liquidez e valorização”. Ele também destacou a importância da Lei do Combustível do Futuro, por aumentar o percentual mínimo do etanol que deve compor a gasolina. Paulo defendeu, ainda, a necessidade de fortalecer o cooperativismo nessa agenda, seja envolvendo produtores rurais (no caso da vinhaça), seja catadores, gerando desenvolvimento sócio-econômico em nível local.
Para o Secretário Adjunto de Economia Verde do MDIC, Lucas Ramalho, o principal entrave ainda está na lógica econômica. “Enquanto for mais barato mandar um resíduo para um aterro do que reincorporar esse resíduo no processo produtivo, a gente não vai avançar”, afirmou. Salientou que temos produzido resíduos em escala industrial e dado destinação a eles, como regra, de forma artesanal.
Ramalho também apontou o potencial estratégico da bioindústria como vetor de desenvolvimento, ao integrar produção agrícola, reaproveitamento de resíduos e geração de energia. “Temos um grande potencial de nos tornar um bioEstado, pois temos capacidade de produzir biomassa como nenhum outro país”, afirmou. Como exemplos positivos já consolidados ou em desenvolvimento, ele mencionou o óleo lubrificante automotivo, que já tem uma taxa de 100% de reaproveitamento no Brasil, a reciclagem na cadeia do alumínio e a produção do combustível sustentável da aviação (SAF, na sigla em inglês) a partir de macaúba e de óleo de cozinha usado.
Setores contemplados
Os questionários desenvolvidos pela SIS também abrangem outros setores estratégicos já publicados: construção civil, saneamento básico (água e esgoto), agricultura, pecuária, florestas, mineração e segmentos industriais, incluindo siderurgia, cimento, têxtil e madeira.
Os próximos setores contemplados serão os de energia (incluindo eletricidade e combustíveis), transportes terrestres, pesca e aquicultura. Acesse todos os questionários em sis.org.br/questionarios-setoriais.
Assista à íntegra do evento de lançamento dos questionários de destinação de resíduos e bioenergia pelo canal da SIS no YouTube.
Ferramenta orienta sistema financeiro na análise socioambiental de empresas dos setores de destinação de resíduos e bioenergia









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