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Entre crescimento da demanda e a possibilidade do El Niño

Por: Celso Oliveira, meteorologista da Tempo OK


A meteorologia deve acrescentar uma camada decisiva de complexidade ao setor elétrico em 2026. Além das chuvas abaixo da média registradas no início do ano, a possível formação do fenômeno El Niño, a partir de meados de 2026, redesenha o horizonte do sistema, trazendo temperaturas mais elevadas, maior irregularidade das precipitações e impactos diretos tanto sobre a geração quanto sobre o consumo de energia no Brasil.


Entre crescimento da demanda e a possibilidade do El Niño
Entre crescimento da demanda e a possibilidade do El Niño

No Sudeste, os reservatórios tendem a operar em níveis mais baixos, aumentando a dependência do acionamento de usinas térmicas e pressionando os preços. No Sul, embora se espere maior volume de chuvas no segundo semestre, as limitações estruturais de geração e transmissão reduzem a capacidade de compensar plenamente os déficits das demais regiões, reforçando a necessidade de coordenação eficiente entre os subsistemas.


Nos últimos 30 dias, a temperatura do Oceano Pacífico apresentou elevação gradual, enquanto o fenômeno La Niña, confirmado em 10 de outubro pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), aproxima-se da dissipação. A expectativa é de um breve período de neutralidade atmosférica, que poderá evoluir para El Niño no início do segundo semestre.


Caso o fenômeno se confirme, o primeiro efeito esperado é o aumento da temperatura média. Diferentemente de 2025, quando não houve registros significativos de ondas de calor no inverno e na primavera, 2026 apresenta maior probabilidade de ondas de calor, especialmente nas principais áreas consumidoras do Sudeste. Esse aumento de temperatura tende a impulsionar a demanda por energia elétrica, que, segundo as Previsões de Carga para o Planejamento Anual da Operação Energética 2026-2030 — divulgadas pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), pelo ONS e pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) — deve crescer, em média, 3,8% ao ano no período.


O regime de chuvas é outro fator crítico. Em anos de El Niño, aumenta a probabilidade de atrasos e irregularidades nas precipitações no Sudeste, inclusive durante a primavera. Em contrapartida, o Sul tende a registrar chuvas mais frequentes até novembro, comportamento atípico em situações de neutralidade climática. Esse descompasso regional exige monitoramento constante, especialmente devido à demora na regularização das chuvas no Centro-Norte do país.


Apesar do maior volume de precipitação no Sul, a região possui restrições estruturais de geração e transmissão, o que limita sua capacidade de atender o Sudeste. Assim, no segundo semestre, o sistema pode depender ainda mais dos reservatórios do Sudeste, que tendem a apresentar níveis inferiores aos observados em 2025. 

A irregularidade das chuvas também compromete a umidade do solo em profundidade, que já se encontra em níveis baixos. Pensando-se que a energia armazenada nos reservatórios reflete a umidade do solo, em janeiro de 2025, a energia armazenada passava dos 60%, enquanto atualmente está em torno dos 45%. Além do setor de energia, esse cenário pode impor restrições à irrigação agrícola e acende um alerta adicional para a vegetação.


O solo seco eleva a probabilidade de queimadas a partir do fim do inverno, representando ameaça direta à infraestrutura do setor elétrico, especialmente às linhas de transmissão. Em 2025, foram registrados 84.896 focos de incêndio entre janeiro e outubro, frente a 218.765 no mesmo período de 2024, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), uma redução de 61%. No entanto, as projeções indicam que esse risco tende a crescer em 2026, reforçando a importância de ações preventivas e monitoramento contínuo.


Do ponto de vista da geração solar, o cenário segue favorável. O principal ponto de atenção, no entanto, está no impacto das altas temperaturas sobre a eficiência dos painéis fotovoltaicos. Em 2025, a ausência de ondas de calor reduziu esse risco, mas a preocupação volta ao radar em 2026. Segundo o Relatório Síntese do Balanço Energético Nacional (BEN) 2025, ano-base 2024, a geração solar fotovoltaica, considerando usinas centralizadas e MMGD, alcançou 70,7 TWh, crescimento de 39,6%, enquanto a capacidade instalada chegou a 48.468 MW, expansão de 28,1% em relação ao ano anterior.


Na geração eólica, a expectativa é de ventos menos intensos durante a chamada safra dos ventos, em função da atuação do El Niño. Isso, contudo, não implica necessariamente uma redução relevante da contribuição da fonte. Ao contrário, a diminuição do excesso pode reduzir o volume de curtailment em relação a 2025. 

Apenas em agosto, o corte médio de geração eólica e solar atingiu 5.800 MW médios, patamar superior à geração média da parte brasileira de Itaipu no mesmo período, de 4.050 MW médios, segundo estudo da Volt Robotics com base em dados do ONS.


Em um sistema elétrico cada vez mais descentralizado, a integração de dados meteorológicos com a operação em tempo real é fundamental. A capacidade de reagir com agilidade a sinais climáticos e operacionais garante não apenas a segurança do fornecimento, mas também maior eficiência, otimização de recursos e estabilidade do sistema diante de cenários incertos. Em 2026, a meteorologia deixa de ser apenas um fator de previsão: torna-se um instrumento estratégico de gestão e resiliência do setor elétrico brasileiro.


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