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Do biometano ao SAF: por que o Brasil pode liderar a nova geopolítica da energia de baixo carbono

Em entrevista ao EnergyChannel, Raphaella Gomes aponta caminhos concretos para o protagonismo brasileiro e alerta: “a janela está aberta, mas não ficará para sempre


Do biometano ao SAF: por que o Brasil pode liderar a nova geopolítica da energia de baixo carbono

Por Ricardo Honório | EnergyChannel



O Brasil ocupa uma posição singular na corrida global pela descarbonização mas transformar potencial em liderança exige mais do que recursos naturais.


Exige estratégia.

Em entrevista ao EnergyChannel, Raphaella Gomes, fundadora da New Gaia Strategies & Investments, afirma que o país já possui uma vantagem estrutural rara no mundo: a integração entre energia, agronegócio e indústria.


	⁠“O Brasil tem um sistema único. Nenhum país conseguiu integrar o sistema agrícola com o sistema energético como a gente conseguiu.”

Essa base, construída ao longo de décadas, começa no etanol e evolui agora para novas fronteiras energéticas.


Uma vantagem construída ao longo de 50 anos


O histórico brasileiro não é recente. Desde o Proálcool, o país desenvolveu uma das mais sólidas cadeias de biocombustíveis do mundo.


Mas o que chama atenção, segundo Raphaella, é a velocidade atual de transformação.


	⁠“Nos últimos anos, o etanol de milho saiu do zero para mais de 20% da produção nacional. Isso mostra a nossa capacidade de criar indústrias do zero.”

Essa capacidade de execução rápida pode ser decisiva em um momento em que o mundo redefine quem serão os novos fornecedores de energia.


Biometano: de promessa à realidade


Do biometano ao SAF: por que o Brasil pode liderar a nova geopolítica da energia de baixo carbono
Do biometano ao SAF: por que o Brasil pode liderar a nova geopolítica da energia de baixo carbono

Entre todas as oportunidades, o biometano se destaca como uma das mais maduras e, ao mesmo tempo, sub exploradas.


	⁠“Antes eu falava que podia substituir o diesel. Hoje a gente vê que já é uma solução concreta.”

O avanço tecnológico e regulatório reduziu incertezas e abriu espaço para aplicações reais, especialmente no transporte pesado.


Ainda assim, o Brasil está distante de seu potencial total.


	⁠“Hoje a gente produz cerca de 3 milhões de metros cúbicos por dia, mas poderia produzir mais de 100 milhões.”

Além de reduzir a dependência de combustíveis importados, o biometano também se conecta diretamente à realidade do agro transformando resíduos em energia.


SAF: o Brasil no centro da transição da aviação


Se o biometano resolve desafios locais, o combustível sustentável de aviação (SAF) posiciona o Brasil no cenário global.


A descarbonização da aviação é um dos maiores desafios energéticos atuais — e, nesse contexto, combustíveis líquidos continuam sendo essenciais.


	⁠“A eletrificação não é viável para longas distâncias. A solução passa por combustíveis líquidos.”

Raphaella explica que existem diferentes rotas tecnológicas, mas destaca uma vantagem estratégica do Brasil:


⁠“O nosso etanol tem uma das menores pegadas de carbono do mundo.”

Essa característica, combinada à escala produtiva, pode transformar o país em um fornecedor relevante de combustíveis sustentáveis para o mercado internacional.


Transporte marítimo e a lógica das moléculas


Do biometano ao SAF: por que o Brasil pode liderar a nova geopolítica da energia de baixo carbono
Do biometano ao SAF: por que o Brasil pode liderar a nova geopolítica da energia de baixo carbono

No transporte marítimo, o cenário segue uma lógica semelhante.


Soluções como etanol, bio-LNG e outros combustíveis alternativos vêm sendo testadas globalmente sempre com foco em eficiência energética e viabilidade logística.


	⁠“Combustíveis líquidos têm vantagens estruturais: densidade energética, facilidade de transporte e uso da infraestrutura existente.”

Mais uma vez, o Brasil aparece bem posicionado, com capacidade de produção e distribuição de moléculas energéticas em larga escala.


O erro que trava projetos


Ao falar sobre investimentos em transição energética, Raphaella traz um alerta direto ao mercado.


	⁠“Comecem pela demanda. Se não tiver demanda, não adianta ter a melhor tecnologia.”

Segundo ela, o setor já superou a fase de incerteza tecnológica. O desafio agora é outro: estruturar mercado.


	⁠“A maior parte das soluções já está comprovada. O que falta é escala — e isso vem com demanda.”

Nesse contexto, políticas públicas e mandatos regulatórios desempenham papel central na criação de mercados.


O verdadeiro desafio brasileiro


Apesar das vantagens competitivas, o Brasil ainda enfrenta obstáculos estruturais.


E, na visão da executiva, há um erro de abordagem recorrente.


	⁠“Transição energética não é uma agenda ambiental. É uma agenda industrial.”

Para destravar crescimento, o país precisa atuar em três frentes:


•⁠ ⁠Infraestrutura

•⁠ ⁠Simplificação regulatória

•⁠ ⁠Ambiente de negócios mais eficiente


	⁠“A gente precisa simplificar o ambiente de negócios. Hoje isso ainda é um gargalo relevante.”

Ela reforça que o timing é crítico.


	⁠“Existe uma janela aberta. Mas ela não vai ficar aberta para sempre.”

O futuro: eficiência, biocombustíveis e novas tecnologias


Olhando para os próximos dez anos, Raphaella aponta três grandes apostas:


•⁠ ⁠Biocombustíveis avançados

•⁠ ⁠Eficiência energética

•⁠ ⁠Novas soluções nucleares


Mas é na eficiência que está, talvez, o maior ponto cego do debate.


	⁠“A gente fala muito de gerar energia, mas fala pouco de eficiência.”

E o motivo é claro:


	⁠“Uma parte relevante da nova demanda global de energia vem da refrigeração.”

Ou seja, não basta produzir mais energia será essencial consumir melhor.


Um país com potencial e uma decisão a tomar


A transição energética global não será definida apenas por tecnologia, mas por execução.


O Brasil reúne recursos, conhecimento e escala produtiva para assumir protagonismo.


Mas, como deixa claro Raphaella Gomes, isso depende de decisões.


	⁠“Se a demanda existe, alguém vai atender. A questão é: vamos ser nós?”

EnergyChannel


O futuro da energia já está em construção.

E o Brasil pode ser um dos seus principais protagonistas se agir agora.


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