Brasil prepara primeiros leilões de baterias e abre nova etapa para a segurança do sistema elétrico
Certames previstos para 2 e 4 de dezembro colocam o armazenamento em larga escala na agenda de contratação do país, com contratos de 15 anos e início de suprimento em 2028.

Por Redação EnergyChannel | 27 de outubro de 2026
O Brasil avança na preparação dos primeiros leilões de reserva de capacidade dedicados ao armazenamento de energia em baterias. Com realização prevista para 2 e 4 de dezembro de 2026, os certames deverão estabelecer uma nova frente de contratação para o setor elétrico: remunerar empreendimentos capazes de guardar eletricidade e disponibilizar potência quando o sistema precisar. Ministério de Minas e Energia
A análise dos documentos oficiais realizada para esta reportagem mostra que a preparação envolve decisões sobre preço, desempenho dos equipamentos e acesso à rede. Em outubro, foram publicados a metodologia de cálculo do preço-teto e ajustes nos requisitos de conexão, além de uma revisão das informações sobre a capacidade disponível para receber novos projetos. epe.gov.br
O objetivo é ampliar a capacidade de resposta do Sistema Interligado Nacional (SIN). As baterias poderão absorver energia em determinados períodos e devolvê-la em outros, conforme os comandos operativos, ajudando a aproximar a oferta de eletricidade das necessidades de consumo. Ministério de Minas e Energia
A contratação foi organizada em duas modalidades. O leilão de 2 de dezembro, denominado Armazenamento Nacional, será voltado a sistemas que atendam aos requisitos de nacionalização, com comprovação no âmbito do credenciamento do BNDES. O certame de 4 de dezembro terá participação de sistemas nacionais ou importados, observadas as demais condições de habilitação. Ministério de Minas e Energia
Os contratos terão duração de 15 anos, com início de suprimento previsto para 1º de agosto de 2028. A remuneração será vinculada à disponibilidade da potência contratada, acompanhada de obrigações de desempenho e de atendimento aos comandos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). gov.br
O cadastro de interessados revela uma movimentação expressiva. O informe da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) registra 5.296 projetos, equivalentes a aproximadamente 261,4 gigawatts (GW), no produto nacional. Na modalidade geral, são 5.734 projetos e cerca de 281 GW. Esses volumes têm ampla sobreposição: 4.939 projetos estão inscritos nos dois certames, razão pela qual os totais não devem ser simplesmente somados. epe.gov.br
Cadastro, porém, representa uma etapa inicial. A própria EPE destaca que a estrutura modular dos empreendimentos e a dispensa de licença ambiental nessa fase contribuíram para o elevado número de inscrições. Os projetos ainda precisam passar pela avaliação técnica para disputar a contratação. epe.gov.br
A dimensão desse cadastro também não define quanto será comprado. A portaria estabelece que o montante a contratar será determinado pelo Ministério de Minas e Energia, com base nos estudos da EPE e do ONS e nos critérios de garantia de suprimento. gov.br
Entre os requisitos previstos estão disponibilidade mínima de potência de 30 megawatts (MW), descarga por quatro horas, recarga completa em até seis horas e eficiência total de pelo menos 85%. São parâmetros que combinam capacidade de entrega, duração do atendimento e desempenho energético. gov.br
Na prática, potência e energia armazenada precisam ser analisadas juntas. Como exemplo ilustrativo, sustentar uma entrega de 30 MW durante quatro horas corresponde a fornecer 120 megawatts-hora (MWh). O dimensionamento físico das baterias precisa considerar, adicionalmente, as perdas e as condições de operação para cumprir essa obrigação.
A discussão ganha relevância diante das restrições à geração renovável. No planejamento da operação de 2026, o ONS aponta que o armazenamento pode absorver excedentes e deslocar sua utilização para horários de maior necessidade, contribuindo para atenuar parte dos cortes de geração, conhecidos como curtailment. ons.org.br
Esse benefício depende da localização dos projetos e das condições da rede. Baterias podem ampliar a flexibilidade operativa, mas sua contribuição precisa ser avaliada em conjunto com a transmissão, os limites de conexão e o perfil de geração e consumo de cada região. ons.org.br
Por isso, o acesso ao sistema elétrico é uma das etapas decisivas da preparação. Em 22 de outubro, EPE e ONS divulgaram uma revisão dos requisitos técnicos de conexão. O documento trata de supervisão, proteção, controle e telecomunicações, incluindo funcionalidades dos conversores para controle de tensão e frequência e operação na estratégia grid-forming. epe.gov.br
Já em 26 de outubro, foi publicada uma revisão da nota sobre a capacidade remanescente para novas conexões, com retificações referentes à Subestação Milagres. A atualização integra o conjunto de informações usado para avaliar onde os empreendimentos poderão acessar a rede. gov.br
No campo econômico, a metodologia divulgada pela EPE em 19 de outubro considera investimentos, custos de operação, características dos produtos e condições de financiamento. O documento subsidia a definição do preço máximo admitido, mas não antecipa os valores dos tetos nem o preço que resultará da disputa. epe.gov.br
Na avaliação editorial do EnergyChannel, a relevância desses leilões está na possibilidade de transformar a necessidade de flexibilidade em contratos capazes de sustentar investimentos. A contratação também permitirá observar como fornecedores e empreendedores responderão às exigências técnicas e de nacionalização.
O resultado deverá ser acompanhado por três medidas concretas: a potência efetivamente contratada, o custo dessa disponibilidade e a entrega dos projetos no prazo previsto. São esses fatores que indicarão quanto a primeira rodada de baterias poderá acrescentar à segurança e à eficiência do sistema elétrico brasileiro.
Brasil prepara primeiros leilões de baterias e abre nova etapa para a segurança do sistema elétrico









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