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Armazenar para Resistir: A Nova Onda da Microgeração de Energia no Brasil

Por Renato Zimmermann


Nos últimos anos, a energia solar deixou de ser uma curiosidade tecnológica para se tornar parte da vida cotidiana dos brasileiros. Hoje, já são milhões de pequenas unidades de geração distribuída espalhadas por telhados de residências, empresas, escolas, hospitais, propriedades rurais e prédios públicos.


Essa revolução transformou o consumidor em prosumidor termo que une “produtor” e “consumidor”, ou seja, alguém que não apenas consome energia, mas também a produz.


Armazenar para Resistir: A Nova Onda da Microgeração de Energia no Brasil
Armazenar para Resistir: A Nova Onda da Microgeração de Energia no Brasil

O que muitos não percebem é que, ao instalar painéis solares em suas casas ou negócios, estão prestando um serviço estratégico ao país. Estão ajudando a diversificar a matriz elétrica, reduzir a dependência de grandes usinas e, principalmente, aumentar a resiliência do sistema diante dos impactos cada vez mais frequentes dos eventos climáticos extremos.


Quando o clima desafia a energia

O Brasil sempre contou com a força dos seus rios para gerar eletricidade. Mas longas estiagens podem secar reservatórios e comprometer a geração hidrelétrica. Tempestades com ventos intensos derrubam linhas de transmissão e destroem subestações. Raios, calor extremo e granizo também danificam equipamentos e comprometem a estabilidade da rede.


Gerar energia em grandes usinas, muitas vezes a centenas de quilômetros do local de consumo, significa depender de longas redes de transmissão. Quanto maior a distância, maior o risco de apagões generalizados. Em um cenário de mudanças climáticas, essa vulnerabilidade se torna evidente.


É nesse ponto que entram os recursos energéticos distribuídos pequenas unidades de geração próximas ao consumo, como painéis solares em telhados, turbinas eólicas de pequeno porte ou sistemas de biomassa locais. Eles reduzem a dependência das grandes usinas e tornam o sistema mais flexível.


O papel central do armazenamento


Se a geração distribuída já é uma realidade, o próximo passo é o armazenamento de energia. Em termos simples, trata-se de guardar a eletricidade produzida para usar depois.


Isso pode ser feito com baterias instaladas junto ao local de consumo.

Imagine uma casa com painéis solares no telhado. Durante o dia, a energia gerada pode ser usada imediatamente para alimentar geladeiras, ar-condicionados e chuveiros elétricos. O excedente pode ser direcionado para baterias, que armazenam essa energia para ser utilizada à noite ou em momentos de pico de consumo.


Para que isso funcione, é necessário instalar um inversor de frequência híbrido. Esse equipamento é o cérebro do sistema: ele decide se a energia vem da rede elétrica, das baterias ou diretamente dos painéis solares. Combinado a medidores inteligentes, o inversor pode usar inteligência artificial para otimizar o fluxo de energia definindo se vai para os equipamentos da casa, para o armazenamento ou para a rede elétrica como excedente.


O desafio regulatório

Hoje, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) estabelece que os prosumidores paguem um valor de “pedágio” pelo uso da rede. Em outras palavras, quando alguém injeta energia excedente na rede, não recebe remuneração por isso. E, ao consumir essa energia de volta, precisa pagar pelo serviço da distribuidora.


O Marco Legal da Micro e Minigeração Distribuída (Lei 14.300) prevê que, a partir de 2029, além do uso da rede, os prosumidores deverão arcar com encargos tarifários — custos adicionais que financiam políticas públicas do setor elétrico, como subsídios a programas sociais ou manutenção da rede.


À primeira vista, pode parecer injusto que quem gera sua própria energia tenha que pagar pela rede. Mas, paradoxalmente, essa regra pode acelerar o mercado de armazenamento. Afinal, se o prosumidor tiver baterias em casa, poderá consumir sua própria energia sem depender da rede, reduzindo custos e aumentando autonomia.


A nova onda: gerar e armazenar

Estamos diante da nova onda da microgeração de energia: não basta gerar, é preciso armazenar. Essa combinação trará mais resiliência ao sistema elétrico brasileiro, abrindo espaço para tecnologias já consolidadas em outros países.


Mas para que isso aconteça, será necessário modernizar a rede pública de distribuição. Hoje, nossa infraestrutura elétrica ainda carrega características da década de 1950. É como tentar colocar um carro moderno em uma estrada de carroça: ele até anda, mas não aproveita todo o seu potencial.


Os recursos energéticos distribuídos são os carros modernos. Eles precisam de uma autopista tecnológica, com sensores inteligentes, dispositivos de automação, inteligência artificial e até tecnologias quânticas para garantir fluidez e segurança. Sem essa modernização, o sistema continuará limitado, incapaz de absorver plenamente os benefícios da geração e do armazenamento distribuídos.


O papel dos profissionais e da capacitação

Para que essa transformação aconteça, não basta esperar por políticas públicas ou avanços tecnológicos. É fundamental que os profissionais do setor entendam seu papel como difusores e multiplicadores dessa nova realidade.


Existem inúmeros cursos de capacitação voltados para instalação de sistemas solares, inversores híbridos e baterias. A formação técnica é essencial para garantir que os consumidores tenham acesso a soluções seguras, eficientes e economicamente viáveis.

Mais do que encontrar culpados para os desafios do setor, é preciso encontrar caminhos. Caminhos que permitam a proliferação do mercado de armazenamento, com impactos positivos para todos: uma rede elétrica moderna, mais resiliente, com custos menores e maior segurança.


Momento decisivo

O Brasil vive um momento decisivo. A energia solar já conquistou milhões de telhados e transformou consumidores em protagonistas da transição energética. Agora, o armazenamento surge como a peça que faltava para consolidar e ampliar essa revolução.

Gerar e armazenar é mais do que uma tendência: é uma necessidade diante das mudanças climáticas e da vulnerabilidade do sistema elétrico tradicional.


Cabe aos profissionais, às instituições e à sociedade abraçar essa nova onda, garantindo que o país avance rumo a uma matriz energética mais moderna, resiliente e sustentável.


O futuro da energia não está apenas nas grandes usinas, mas nos pequenos sistemas espalhados por todo o território. E, com o armazenamento, cada casa, escola ou empresa poderá se tornar não apenas consumidora, mas guardiã da energia que move o Brasil.


Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética


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