Além dos painéis: armazenamento abre uma nova etapa para a energia solar no Brasil
Em webinar do EnergyChannel, Trina Solar, TSUN, Power Safe e RENAC discutem como integrar geração, baterias e gestão inteligente para atender residências, empresas e novas demandas da eletromobilidade.
Por Redação EnergyChannel
A energia solar entrega mais valor quando o projeto considera não apenas quanto consegue gerar, mas também quando essa energia será utilizada e quais necessidades precisa atender. Essa foi a discussão central do webinar “Conexão Fotovoltaica: geração, armazenamento e novas aplicações”, realizado pelo EnergyChannel, com representantes da Trina Solar, TSUN, Power Safe e RENAC.
Conduzido por Ricardo Honório Sanches Perez, o encontro conectou temas que frequentemente são tratados de forma separada: desempenho dos módulos, conversão de energia, armazenamento residencial e sistemas de baterias para aplicações comerciais e industriais. Ao longo das apresentações, os participantes defenderam uma abordagem integrada, na qual o resultado depende tanto dos equipamentos quanto do projeto e da estratégia de operação.
Para o consumidor, isso significa olhar além da potência instalada. Para os integradores, abre espaço para oferecer soluções de autoconsumo, continuidade operacional e gerenciamento de demanda, a partir das necessidades de cada cliente.
Potência na etiqueta não conta toda a história
A apresentação da Trina Solar começou com uma distinção essencial: quilowatt-pico (kWp) e quilowatt-hora (kWh) representam grandezas diferentes. O primeiro indica a potência nominal dos módulos em condições padronizadas de ensaio. O segundo mede a energia produzida ou consumida ao longo do tempo.
Assim, dois sistemas com a mesma potência instalada podem entregar volumes diferentes de energia. Localização, temperatura, orientação, inclinação, sombreamento, ventilação, limpeza e dimensionamento elétrico ajudam a explicar essa diferença.
Durante o webinar, a empresa apresentou simulações para demonstrar como escolhas de projeto podem reduzir perdas. Uma das situações discutidas foi o rearranjo das conexões dos módulos para diminuir o impacto de sombras, respeitando os limites elétricos do inversor.
A mensagem para o mercado é que ampliar a quantidade de painéis não esgota as possibilidades de melhorar o desempenho. Antes disso, vale identificar onde o sistema perde energia e quais ajustes podem melhorar a produção.
A Trina também destacou os testes de qualidade dos módulos e a importância do suporte do fabricante. Para projetos concebidos para operar por muitos anos, a avaliação do fornecedor precisa considerar desempenho, assistência e capacidade de acompanhar o cliente ao longo da vida do sistema.
O armazenamento chega às aplicações de menor porte
Na sequência, a TSUN apresentou o microinversor híbrido MH2000, descrito no encontro como uma solução de 2 kW com quatro entradas fotovoltaicas e rastreamento individual do ponto de máxima potência, conhecido pela sigla MPPT.
Segundo a apresentação, a arquitetura permite integrar módulos solares e baterias, com carregamento a partir da geração fotovoltaica ou da rede. Foram discutidas aplicações em residências, pequenos comércios, escritórios e áreas rurais, nas quais o armazenamento pode ampliar o uso da energia própria e alimentar circuitos prioritários.
Um exemplo é a residência que produz excedentes durante o dia, enquanto os moradores estão fora, e concentra parte do consumo no início da noite. Com um sistema adequadamente dimensionado, parte dessa geração pode ser armazenada para utilização posterior.
O encontro também abordou a programação de carga e descarga por horário, uma possibilidade relevante para consumidores sujeitos a tarifas que variam ao longo do dia. A utilidade dessa estratégia depende do perfil de consumo, da estrutura tarifária e das características do sistema.
A equipe técnica chamou atenção para um detalhe do modelo apresentado: a saída destinada às cargas prioritárias opera em 220 V. Esse ponto precisa ser considerado na escolha dos circuitos atendidos. Potência disponível, tensão dos equipamentos e necessidade de autonomia devem orientar o projeto de backup.
Baterias: o diferencial também está no que não aparece
André Ribeiro, da Power Safe, levou à discussão a perspectiva de uma empresa com atuação em baterias estacionárias e apresentou a Get Power como sua linha de produtos.
Sua participação destacou que baterias visualmente semelhantes podem ter diferenças importantes de construção, monitoramento e proteção. Entre os aspectos apresentados estavam o acompanhamento de temperatura, a equalização das células e a comunicação do sistema de gerenciamento da bateria, o BMS, com os demais equipamentos.
Ribeiro também ressaltou a importância da integração entre bateria e inversor. A escolha de componentes compatíveis, acompanhada de testes e suporte técnico, foi apresentada como parte fundamental da confiabilidade do conjunto.
Na avaliação do executivo, residências e pequenos negócios oferecem oportunidades para o armazenamento. Além da economia potencial, a proposta de valor pode incluir a manutenção de serviços essenciais durante interrupções, como iluminação, internet e equipamentos de trabalho.
A apresentação abordou ainda acessórios, estruturas de instalação e controle térmico. Esses elementos ajudam a adequar o sistema ao ambiente de operação e precisam entrar na análise do projeto desde o início.
BESS: aplicações que vão além do backup
A RENAC ampliou o debate para os sistemas de armazenamento de energia em baterias, conhecidos como BESS. Régis e Eduardo, representantes da empresa no encontro, apresentaram aplicações voltadas a indústrias, supermercados, atividades agropecuárias e outros consumidores com demandas mais elevadas.
Entre as soluções discutidas estava um sistema modular com 125 kW de potência e 261 kWh de capacidade de armazenamento, conforme os dados apresentados pela empresa.
A distinção entre essas unidades também importa: potência e capacidade de armazenamento precisam ser avaliadas em conjunto para dimensionar o atendimento às cargas.
Uma das estratégias demonstradas foi o peak shaving, ou redução de picos de demanda. No exemplo apresentado, uma indústria com demanda contratada de 400 kW registrava momentos de consumo de 500 kW. O sistema de baterias poderia fornecer parte da potência necessária nesses períodos, reduzindo a demanda solicitada à rede.
Outra aplicação foi o load shifting: utilizar energia armazenada em um período para atender o consumo em outro. No caso discutido, a estratégia consistia em carregar as baterias fora do horário de ponta e descarregá-las durante o período de tarifa mais elevada.
A RENAC também apresentou possibilidades de integração com instalações solares existentes. O armazenamento pode fazer parte de uma ampliação do projeto, desde que a arquitetura de conexão, os controles e os equipamentos sejam compatíveis com a aplicação pretendida.
O custo de parar entra na conta
O retorno do investimento ganhou uma dimensão adicional quando a conversa passou da economia na conta de energia para a continuidade operacional.
Em atividades como produção de alimentos, refrigeração e processos industriais contínuos, uma interrupção pode provocar perda de matéria-prima, paralisação de equipes e necessidade de reiniciar etapas de fabricação. Esses impactos ajudam a explicar por que clientes com consumos semelhantes podem atribuir valores diferentes a um sistema de backup.
Os representantes da RENAC relataram estudos com prazos estimados de retorno inferiores a quatro anos em aplicações de gerenciamento de demanda e proteção de processos. As estimativas foram apresentadas para cenários específicos, com premissas próprias de consumo, tarifas e perdas operacionais; não constituem um prazo geral para projetos de armazenamento.
O debate reforçou a importância de identificar quais cargas realmente precisam de proteção. Alimentar toda uma instalação pode exigir um investimento muito diferente daquele necessário para manter apenas os circuitos essenciais.
Também houve espaço para discutir a integração com geradores a diesel. Na visão apresentada pela RENAC, eles podem participar de arquiteturas híbridas, inclusive como recurso complementar para ampliar a autonomia durante interrupções prolongadas.
Eletropostos entram no horizonte do armazenamento
A eletromobilidade apareceu como uma das novas demandas capazes de aproximar geração solar, baterias e gestão de energia.
Ricardo chamou atenção para a dificuldade de instalar recarga em locais cuja infraestrutura elétrica não entrega a potência desejada. A RENAC também citou eletropostos entre as aplicações potenciais dos sistemas de armazenamento.
Nesse contexto, o BESS foi discutido como uma forma de complementar a potência disponível em determinados períodos. A definição de cada projeto exige avaliar a demanda dos carregadores, a capacidade de reposição da energia armazenada e o perfil de utilização da estação.
A discussão aponta para uma mudança no planejamento desses empreendimentos: além de escolher o carregador, é necessário estudar como a energia será fornecida, armazenada e gerenciada ao longo da operação.
Um novo trabalho para o integrador
Ao final do encontro, a capacitação técnica apareceu como um elemento comum às diferentes apresentações. Integrar armazenamento exige compreender a rotina do cliente e transformar seus dados em uma solução adequada.
A RENAC recomendou reunir o histórico de faturas, registros de demanda, informações sobre interrupções, cargas críticas, infraestrutura elétrica e sistemas de geração já instalados. A análise do espaço disponível e das condições de instalação também faz parte desse levantamento.
O conjunto das discussões mostrou um caminho para a evolução do setor: combinar geração eficiente, equipamentos compatíveis e estratégias de uso da energia. Para o cliente, o valor do projeto passa a incluir quanto ele consegue produzir, quanto pode aproveitar e quais atividades consegue manter funcionando quando mais precisa.
Além dos painéis: armazenamento abre uma nova etapa para a energia solar no Brasil









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