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A transição energética brasileira está desalinhada — e isso já cobra seu preço

Quando liderança pública, regulação e mercado não avançam de forma coordenada, uma agenda estratégica se transforma em risco sistêmico.


Por Laís Victor – Especialista em energias renováveis e Diretora Executiva de Parcerias


A transição energética brasileira está desalinhada — e isso já cobra seu preço
A transição energética brasileira está desalinhada — e isso já cobra seu preço

O paradoxo da transição brasileira

Ao longo da minha atuação no setor de energia, acompanhando ciclos de expansão, reformas regulatórias e mudanças estruturais do mercado, é raro observar um país simultaneamente tão bem-posicionado em termos de recursos naturais e tão pressionado do ponto de vista da coordenação sistêmica. A matriz elétrica majoritariamente renovável segue sendo um ativo estratégico relevante do Brasil, frequentemente destacada em fóruns internacionais como diferencial competitivo.


Na realidade operacional e institucional, porém, a transição energética brasileira avança em velocidade e volume sem que os instrumentos de coordenação evoluam na mesma proporção. Esse descompasso já se reflete em sinais operacionais, econômicos e regulatórios que não podem mais ser tratados como ruído conjuntural. À medida que a transição se acelera, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de alinhar planejamento, regulação e operação, um ponto recorrente nas discussões técnicas que acompanho com agentes, investidores e formuladores de políticas públicas.


Quando o curtailment deixa de ser exceção e vira sintoma estrutural

A leitura recorrente dos dados operativos dos últimos anos mostra que o curtailment deixou de ser um evento pontual associado a contingências específicas e passou a assumir características estruturais. Relatórios do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), em especial os Programas Mensais da Operação (PMO) e os boletins de acompanhamento do Sistema Interligado Nacional publicados entre 2023 e 2025, passaram a registrar de forma consistente restrições elétricas em regiões com forte expansão de fontes eólica e solar, sobretudo no Nordeste. Essas restrições não decorrem de escassez de energia, mas da dificuldade do sistema em escoar, absorver ou flexibilizar a geração no momento em que ela ocorre.


Sob a ótica do mercado, análises divulgadas pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) ao longo de 2024 e 2025 indicam que o aumento dos cortes de geração coincidiu com maior volatilidade do Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) e com a intensificação de despachos fora da ordem de mérito, inclusive em cenários hidrológicos mais favoráveis. Para quem acompanha semanalmente esses indicadores e discute seus efeitos com empresas e investidores, os sinais convergem: a expansão da oferta renovável ocorre em ritmo superior ao avanço da transmissão, da flexibilidade operativa e dos mecanismos de resposta da demanda.


Esse diagnóstico, inclusive, já estava presente no planejamento setorial. Nos Planos Decenais de Expansão de Energia (PDE 2032 e PDE 2034), a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) destaca que o aumento da participação de fontes intermitentes amplia a necessidade de reforços de transmissão, integração regional e valorização de atributos como flexibilidade, confiabilidade e capacidade. Quando esses elementos não avançam de forma coordenada, o curtailment deixa de ser apenas perda física de geração e passa a representar destruição de valor econômico e aumento do risco percebido pelos investidores.


Do corte de geração ao custo sistêmico

Quando a energia renovável já contratada deixa de ser entregue ao sistema por restrições estruturais, o impacto não se encerra na geração cortada. Para manter o equilíbrio e a segurança operativa, o sistema recorre a outras fontes e serviços, muitas vezes com custo mais elevado e menor eficiência econômica. É nesse ponto que o curtailment se conecta diretamente à formação de preços, aos encargos setoriais e à percepção de risco.


Esse mecanismo ajuda a explicar por que, mesmo em um contexto de expansão renovável, o custo sistêmico não se reduz na mesma proporção. O problema não está na abundância de energia limpa, mas na forma fragmentada como o sistema é conduzido.


O custo invisível da falta de coordenação

Quando decisões são tomadas de forma desarticulada, uma expansão acelerada de renováveis de um lado, ajustes regulatórios reativos de outro e uma operação cada vez mais pressionada no meio, o custo não desaparece. Ele apenas se redistribui. O sistema se torna mais caro de operar, mais complexo de equilibrar e menos previsível para investidores e consumidores.


Dados consolidados da CCEE mostram que despesas associadas a despacho térmico fora da lógica econômica, serviços de segurança e encargos do sistema ganharam relevância nos últimos ciclos. Em interlocuções estratégicas com investidores, esse ponto surge de forma recorrente: a percepção de risco não está relacionada à falta de energia, mas à falta de coordenação institucional. A transição energética, que deveria reduzir incertezas no longo prazo, passa a introduzir novas camadas de complexidade quando não é conduzida de forma integrada.


Governança como próximo estágio da transição

Esse cenário reforça uma constatação construída ao longo dos anos: o principal desafio da transição energética brasileira não é tecnológico. O país dispõe de recursos naturais, projetos competitivos e conhecimento técnico amplamente reconhecido. O desafio é institucional. A transição tem sido conduzida como a soma de agendas paralelas, e não como uma política sistêmica de Estado.


Os próprios documentos da EPE indicam que a expansão da geração precisa caminhar de forma coordenada com a evolução da transmissão, da operação e do desenho de mercado. A ausência dessa integração cria um ambiente em que decisões técnicas e regulatórias não se reforçam mutuamente, elevando a complexidade do sistema justamente em um momento em que previsibilidade e clareza deveriam ser ativos centrais.


Coordenação não é escolha, é condição

A experiência internacional reforça essa leitura. Relatórios recentes da Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA), como o Innovation Landscape for Sustainable Development powered by Renewables (2026), mostram que os países que avançaram de forma mais consistente na transição energética foram aqueles que trataram coordenação institucional como prioridade estratégica. Governança clara, definição de papéis, sinais econômicos coerentes e previsibilidade regulatória aparecem como fatores tão relevantes quanto tecnologia ou recursos naturais.


A próxima etapa da transição energética brasileira não será definida apenas pela quantidade de novos projetos ou pela velocidade de expansão da capacidade instalada. Ela será definida pela capacidade do país de alinhar liderança pública, regulação e mercado em um sistema cada vez mais complexo. Sem coordenação entre esses pilares, a transição deixa de ser vetor de competitividade e passa a ser um risco sistêmico. É um custo que nenhum país, investidor ou consumidor pode se dar ao luxo de assumir.


Sobre a autora

Laís Victor é especialista em energias renováveis e diretora executiva de parcerias, com mais de 15 anos de atuação no setor de energia. Atua no desenvolvimento de negócios, na estruturação de alianças estratégicas e no apoio à atração de investimentos para projetos de transição energética, com foco em governança, integração sistêmica e acompanhamento contínuo da evolução regulatória, operacional e de mercado no Brasil e no cenário internacional.


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