A transição energética precisa de mulheres. E hoje!
- Rosane Fukuoka

- 7 de jan.
- 3 min de leitura
Por Rosane Fukuoka

Todas sabemos que a transição energética é o único caminho possível para que avancemos rumo a uma economia de baixo carbono, com menos combustíveis fósseis e mais alternativas limpas e sustentáveis. Mas, no fio condutor dessa transformação, há outro percurso igualmente urgente de ser trilhado: o de ampliar a presença feminina no setor de energia, um espaço onde seguimos sendo minoria.
No Brasil, as mulheres representam apenas 20% do setor elétrico, segundo a pesquisaMulheres no Setor Elétrico, realizada pela ANEEL em 2023. Em posições de liderança, esse número cai para 5,5%. Esses dados evidenciam não apenas um desafio enorme, mas também um desperdício do potencial transformador que as mulheres têm para contribuir com um setor mais diverso, inovador e sustentável. Foi a partir dessa compreensão que passei a me dedicar não só à eficiência energética na minha carreira, mas também à eficiência das relações humanas dentro desse ecossistema.
Nascimento da Rede WEE
Em 2023, a partir da rede de mulheres da Mitisdi e com o apoio do Programa PotencializEE iniciativa que promove eficiência energética em pequenas e médias indústrias de São Paulo, liderada pelo Ministério de Minas e Energia e coordenada pela GIZ em parceria com o SENAI-SP criamos a rede Mulheres pela Energia e Eficiência (Women for Energy and Efficiency – WEE).
A WEE nasceu com o propósito de conectar, fortalecer e empoderar mulheres que atuam (ou desejam atuar) nas áreas de energia e eficiência energética. É um espaço de troca, aprendizado e apoio mútuo. Hoje, a rede reúne cerca de 170 mulheres de diferentes regiões do Brasil: engenheiras, arquitetas, economistas, advogadas, gestoras ambientais, pesquisadoras e estudantes, todas unidas pelo compromisso de construir um setor mais inclusivo e equitativo.
Durante a pandemia, a rede se consolidou de maneira orgânica, com encontros virtuais semanais para compartilhar trajetórias e desafios. Agora, estamos avançando para novos programas de mentoria, encontros presenciais e formações voltadas ao autoconhecimento, à liderança e ao desenvolvimento de habilidades essenciais para que mais mulheres ocupem espaços estratégicos no setor energético.
O empreendedorismo feminino também tem ganhado força nessa transição. Um exemplo inspirador é o curso ‘Eletricistas do Sol’, realizado pelo Projeto Saúde e Alegria (PSA) com apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS). A iniciativa capacita exclusivamente mulheres para a manutenção de sistemas solares fotovoltaicos em comunidades, aldeias e quilombos da Amazônia, ampliando autonomia, gerando renda e levando energia limpa a territórios antes vulneráveis.
Rede na América Latina
Recentemente, fui uma das brasileiras a participar do curso de Liderança de Mulheres para a Transição Energética Justa, Inclusiva e Resiliente, realizado em Bogotá, na Colômbia. Foram três dias intensos ao lado de mais de 50 mulheres líderes da América Latina e do Caribe representantes de ministérios, universidades, organizações civis e comunidades tradicionais.
Foi profundamente inspirador ouvir mulheres indígenas, negras e de comunidades pesqueiras compartilhando saberes, soluções locais e perspectivas para uma transição energética de fato inclusiva. Entender que energia limpa também passa pelo respeito à ancestralidade, pela economia do cuidado e pelo fortalecimento das comunidades foi um dos aprendizados mais marcantes dessa vivência.
O sentimento de pertencimento é o que fica. Sabemos que não estamos sozinhas nessa luta e que podemos contar com o apoio de uma rede internacional de mulheres e entidades do setor. Voltamos para casa fortalecidas como agentes de transformação e responsáveis por difundir o conhecimento em diferentes países e estágios de transição energética.
A força das redes femininas
Os diálogos com todas essas mulheres deixam claro que, embora as realidades variem, os desafios são semelhantes e que as soluções passam pela colaboração. Redes femininas, como a WEE, mostram como a união entre mulheres potencializa lideranças, amplia repertórios, cria oportunidades e acelera mudanças estruturais.
Nosso próximo passo é consolidar juridicamente a rede, fortalecer parcerias e multiplicar iniciativas de formação e liderança feminina no setor energético. Queremos que cada vez mais mulheres se sintam preparadas e confiantes para ocupar posições de decisão, contribuindo com soluções sustentáveis que considerem o fator humano.
Da soma dessas experiências, levo uma convicção: a transição energética precisa ser também uma transição de valores. Incluir mais mulheres significa democratizar conhecimento, reduzir desigualdades e ampliar o impacto positivo das políticas de descarbonização. A eficiência energética só é completa quando inclui também a eficiência da diversidade.
Por isso, o convite está aberto: que mais mulheres possam se conectar, aprender e transformar juntas. Porque é fortalecendo redes que fortalecemos o futuro.

Rosane Fukuoka é diretora técnica da Mitsidi e fundadora da rede Mulheres pela Eficiência e Energia (Women for Energy and Efficiency – WEE).
A transição energética precisa de mulheres. E hoje!











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