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Hidrogênio Renovável: Da Euforia à Execução

A euforia da primeira onda global de projetos de hidrogênio renovável, deu lugar a um posicionamento racional, pragmático e focado na execução.  O reposicionamento estratégico de diversos projetos trazem lições globais que mudam a dinâmica do mercado e são importantes “lições aprendidas” para o Brasil.


Hidrogênio Renovável: Da Euforia à Execução
Usina Fotovoltaica de Alto Rodrigues, no Rio Grande do Norte, onde a Petrobrás construirá uma Planta de Hidrogênio Renovável. Créditos: Luiz Fernando Almeida Fontenele / Agência Petrobras

Se antes os anúncios apresentavam potenciais de produção apoiados em metas ambiciosas, hoje os projetos adotam uma abordagem mais realista, focando em projetos viáveis, demanda garantida e resiliência energética, em meio a atrasos e cancelamentos em 2025 devido às incertezas políticas.


Esta nova abordagem é tratada no artigo principal da revista Hydrogen Europe Quarterly #13, publicado em dezembro de 2025, que analisa a necessidade de atualizar a Estratégia Europeia do Hidrogênio de 2020.


O artigo propõe "Nova Estratégia do Hidrogênio" (Hydrogen Strategy 2.0) surge como um "reality check" recomendado pelo Tribunal de Contas Europeu, para enfrentar realidades de mercado, como custos elevados, burocracia excessiva e foco insuficiente na demanda (offtake).


Executivos europeus, apoiam esta visão como é o caso de Valérie Bouillon-Delporte, diretora executiva do Clean Hydrogen Partnership, enfatizando que o mundo mudou rapidamente desde 2020, com avanços tecnológicos, mas também geopolítica alterada e necessidade de manter o foco em inovação.


Philipp Offenberg, da Siemens Energy, critica a ênfase inicial na oferta e defende uma estratégia que priorize compradores em setores como refinarias e siderurgia, gerenciando o "green premium" via regulamentações, subsídios ou mandatos de offtake.


No contexto da COP30, realizada em Belém no final de 2025,  o texto destaca avanços globais modestos, como o compromisso de US$ 1,3 trilhão anuais para ação climática até 2035, mas enfatiza coalizões voluntárias para hidrogênio renovável, como o Sustainable Fuels Pledge (quadruplicar combustíveis sustentáveis até 2035, incluindo derivados de hidrogênio) e declarações para demanda de hidrogênio de baixa emissão em mercados como fertilizantes e aço.


A visão internacional está em linha com o último Fact Sheet publicado pela Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde - ABIHV.


O documento reforça que leilões focados apenas no menor preço tendem a gerar uma “bolha de anúncios” sem projetos entregues.


Em uma análise conclusiva, o Fact Sheet relata que a experiência internacional reforça a necessidade de exigir maturidade técnica, financeira e comercial. Além de avançar em certificação, rastreabilidade e estruturas de financiamento, com papel catalisador de bancos públicos e instrumentos de blended finance.


Entre os eixos temáticos, considerados prioritários pela ABIHV, estão:

 

  • Regulação: Resolver inseguranças sobre certificação e book & claim no contexto brasileiro;


  • Infraestrutura e Custo de Capital: Investir em portos e integração industrial; fortalecer BNDES e bancos públicos com blended finance, garantias e fundos especializados para atrair investidores.


  • Neoindustrialização Verde: Integrar hidrogênio à política industrial, focando em cadeias completas (aço verde, fertilizantes de baixo carbono, combustíveis para marítimo/aviação), evitando apenas a exportação pura da "molécula";


  • Desenho de Leilões Eficientes (PHBC): Evitar leilões baseados só em preço baixo; exigir critérios mínimos de maturidade;


Mas afinal, ajustando as questões estruturais, onde está a demanda para o Hidrogênio de Baixo Carbono ? 

 

Vejamos o exemplo prático dos potenciais compradores de SAF (Sustainable Aviation Fuel) e também para o e-Methanol


 

·         Potenciais Compradores de SAF:

 

O Sustainable Aviation Fuel (SAF), produzido a partir de hidrogênio Renovável e CO₂ capturado, tem compradores principais no setor de aviação, impulsionados por mandatos da comunidade europeia, que exigem 1,2% de SAF nos combustíveis de aviação na UE até 2030, subindo para 35% até 2050.

 

Potenciais compradores incluem companhias aéreas como Norwegian, Cargolux, IAG, EasyJet e SAS, que assinaram acordos de offtake (ex.: 140 mil toneladas em 10 anos da Norsk e-Fuel; 785 mil toneladas em 14 anos da Twelve).

 

Na Europa, 41 projetos de SAF em grande escala (capacidade total de 2,8 milhões de toneladas/ano) estão em desenvolvimento, concentrados em França, Noruega e Suécia, com potencial para atender as metas se financiados.

 

O Plano de Investimento em Transporte Sustentável (STIP) aloca € 450 milhões para SAF, incluindo € 153 milhões para projetos sintéticos, e o EHB estende € 300 milhões para hidrogênio em aviação.


Potenciais Compradores de Methanol:

 

Para o e-Metanol (metanol verde produzido com hidrogênio renovável e CO₂), os compradores potenciais estão no setor marítimo (navios ordenados para e-metanol devido a regulamentações como FuelEU Maritime, visando 80% de redução de emissões até 2050) e na indústria química (como matéria-prima para plásticos e produtos).

 

Exemplos incluem projetos da European Energy, que produziu 2.512 toneladas de e-metanol nos primeiros nove meses de 2025, usando tecnologia e-SMR para reduzir custos e atender shipping e químicos.

 

Outros compradores incluem refinarias e produtores de fertilizantes, com custos de produção em € 650-1.000/tonelada para amônia verde (relacionada). O Mecanismo de Hidrogênio da UE cobre derivados como metanol e eSAF, conectando compradores e fornecedores.


Lições para o Brasil: Recomendações e Agenda Estratégica

 

Integrando as visões, o Brasil pode evitar armadilhas globais ao focar em leilões eficientes via PHBC (Programa de Hidrogênio de Baixo Carbono), regido pelas leis 14.948/2024 e 14.990/2024.

 

Neste contexto, o Fact Sheet da ABIHV recomenda critérios mínimos de maturidade para os projetos que desejam participar de tais leilões, tais como:

 

  • Licenciamento Avançado;

  • Estudos de Engenharia Consolidados;

  • Equity Comprometido;

  • MoUs Comerciais;


Adicionalmente, faz-se a proposta de uma Agenda Estratégica, focada em 2025/2026, com as seguintes temáticas:

 

Criar Demanda: Mandatos setoriais e compras públicas para setores hard-to-abate.

Instrumentos Financeiros: Blended finance via BNDES e atração de investidores.

Neoindustrialização: Priorizar cadeias completas, como aço verde e combustíveis para marítimo, evitando exportação pura.


Essas lições têm o potencial de alinhar os Projetos Brasileiros com a estratégia adotada globalmente, e colocando o nosso país em posição de protagonista nesta nova indústria.

 

Por fim, percebe-se que  hidrogênio renovável não é mais só hype – é uma oportunidade real, mas que exige ação estratégica imediata.


Sobre o autor:

Frederico Freitas  é Engenheiro Eletricista (Univale), Mestre em Bioenergia (UFPR), Pós Graduado em Gestão de Negócios (USP/Esalq), MBA Empresarial para o Setor Elétrico (FISUL), Certificado PMP® (PMI) e Credenciado PM4R® (BID);


Especialista em Transição Energética com Formações em Tecnologias e Engenharia do Hidrogênio pela Associação Portuguesa para a Promoção do Hidrogénio e Hydrogen Power-to-X Brasil por meio da Agência Alemã GIZ Brasil  & Ministério de Minas e Energia;


Fundador da INFOREDES Green Tech, Consultoria Estratégica em Transição Energética e Economia de Baixo Carbono; Atuou como Pesquisador Sênior na FGV Energia, na elaboração do Caderno de Hidrogênio publicado pela Fundação Getúlio Vargas em 2023; Professor na Head Energia, primeira EduTech voltada para o setor energético brasileiro e na Escola de Negócios do Setor Elétrico vinculada à Faculdade FISUL;


Hidrogênio Renovável: Da Euforia à Execução

1 comentário

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José Alves
há 2 dias
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Finalmente chegamos ao ponto que sempre falei. Projetos fantasiosos indo para a gaveta e o mercado apostando no que realmente traz o retorno desejado.

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