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A bandeira tarifária verde no mês de janeiro: uma leitura além do trivial

Por Glauber Cavalcante

Diretor de gestão e inteligência energética na EMANA Energy, com ampla atuação em projetos de eficiência energética, com Benchmark de 12%, voltados à redução de consumo de energia com investimento inicial zero. É doutorando e mestre em Eficiência Energética (Lean Energy) pela Universidade Federal do Ceará (UFC), engenheiro eletricista (UFC) e possui certificação Green Belt Lean Six Sigma.


A bandeira tarifária verde no mês de janeiro: uma leitura além do trivial
A bandeira tarifária verde no mês de janeiro: uma leitura além do trivial

A bandeira tarifária verde no mês de janeiro: uma leitura além do trivial


O anúncio da Bandeira Tarifária Verde para o mês de janeiro de 2026 pela ANEEL foi recebido com o otimismo protocolar de sempre. No entanto, para quem opera no mercado de eficiência energética, esse alívio imediato no bolso esconde uma fragilidade estrutural que o Brasil ainda não resolveu.


Janeiro é, historicamente, o mês do "conforto hídrico". Desde a implementação do sistema em 2015, este mês raramente viu cores quentes, graças ao auge do período chuvoso nas nascentes das bacias dos reservatórios das hidrelétricas. O ponto de inflexão está nos dados recentes, que indicam que essa “cor verde” vem se tornando uma janela cada vez mais curta, volátil e incerta.


Verde não é sinônimo de energia barata


O primeiro ponto que precisa ser esclarecido é conceitual e frequentemente negligenciado no debate público. Bandeira verde não significa que a energia elétrica é barata no Brasil. Significa apenas que, naquele mês específico, as condições de geração e operação do sistema dispensaram custos adicionais de curto prazo, sem aquele “extra” por kWh, como o despacho intensivo de usinas termelétricas mais caras e poluentes.


A conta de luz do consumidor segue carregando uma estrutura complexa: custos de energia, uso da rede, encargos setoriais, subsídios e tributos. Grande parte desses componentes é estrutural e independe completamente da cor da bandeira.


É nesse ponto que se observa um descompasso entre a percepção do consumidor com todas estas informações que não chegam para ele de forma clara e objetiva, e a realidade do setor elétrico. O problema, portanto, não é apenas tarifário, mas comunicacional e, sobretudo, um desafio permanente de educação energética.


O Impacto econômico: o “verde” conversa com inflação, vulnerabilidade e confiança pública


A energia elétrica é um dos itens de grande peso no IPCA. A ausência de sobretaxa em janeiro atua como um freio na inflação de curto prazo, essencial para um mês em que as famílias brasileiras enfrentam o "combo" IPTU + IPVA + itens escolares.


O “alívio” é real, e é mais relevante para os vulneráveis. Como energia é item essencial, qualquer variação pesa mais onde o orçamento é mais apertado. Um estudo do IPEA aponta que, em média, o custo de energia elétrica para famílias de baixa renda pode representar cerca de 12,13% da renda familiar no recorte analisado. 


A mudança da bandeira tarifária de amarela, em dezembro/25, para verde agora em janeiro/26 significa a retirada do valor adicional que era cobrado a cada 100 quilowatts-hora consumidos, o que representa uma economia média de cerca de R$ 2,50 a cada R$ 100 na fatura de energia elétrica.


Mas esse alívio tem prazo de validade. Modelos matemáticos já indicam que, embora janeiro permaneça verde, há risco crescente de Bandeira Amarela ao final do primeiro quadrimestre de 2026 (abril/maio). A combinação entre volatilidade climática e intermitência das fontes renováveis reduz o “período de carência” historicamente garantido pelas hidrelétricas.


Eficiência energética: a única resposta que permanece quando a bandeira muda


Se a bandeira verde oferece um respiro no curto prazo, a eficiência energética é o fôlego que sustenta o consumidor no longo prazo.


É ela que protege o consumidor quando as bandeiras mudam de cor. É ela que transforma um alívio pontual em economia consistente. E é ela que conecta o consumo de energia à experiência real do usuário, seja em casa, no comércio ou na indústria.


Mais do que comemorar a ausência de custo extra em janeiro, este é o momento ideal para rever hábitos de consumo, avaliar a eficiência dos equipamentos utilizados e compreender o uso consciente da energia como parte integrante da gestão financeira.


Em um sistema elétrico cada vez mais dinâmico, sensível e exposto a variáveis climáticas, regulatórias e operacionais, consumir energia com inteligência deixou de ser apenas uma escolha econômica. Tornou-se uma competência essencial, tanto para famílias quanto para empresas.


Brasil no cenário internacional


O mecanismo de bandeiras tarifárias é relativamente singular pela sua forma visual e comunicacional, mas não pelo seu princípio econômico. Em vários países, existem instrumentos de repasse de custos variáveis ou ajustes automáticos que evitam defasagens e impactos tarifários futuros.


Em sistemas europeus, por exemplo, o consumidor costuma enxergar de forma mais explícita a separação entre energia, rede e tributos, além de enfrentar sinais de preço mais granulares, muitas vezes horários. Em outros mercados, o custo marginal aparece de maneira indireta por meio de tarifas dinâmicas.


O diferencial brasileiro está na simplicidade da mensagem. O semáforo verde-amarelo-vermelho é facilmente compreendido, mas paga o preço da simplificação excessiva. Ele comunica bem o “estado do mês”, mas comunica pouco sobre as causas, os riscos e as tendências.



O que a bandeira verde deveria provocar


Mais do que comemoração, a bandeira verde deveria provocar planejamento. Para o consumidor, é o momento ideal para revisar hábitos, investir em eficiência e reduzir consumo estrutural, não para ampliá-lo. Para o setor, é uma janela para consolidar boas práticas e preparar o sistema para períodos mais críticos.


Do ponto de vista regulatório, o verde deveria ser acompanhado de mais transparência: quais fatores levaram a esse cenário? Qual o custo que foi evitado? O que aconteceria se o consumo crescesse acima do esperado?


Essas perguntas importam porque, socialmente, a percepção recorrente é: “se está verde, por que minha conta não caiu?”. A resposta quase sempre está fora do mecanismo de bandeiras: estrutura tarifária, encargos e subsídios.


Caminhos para evoluir o modelo


A bandeira tarifária verde, como existe hoje, cumpriu um papel importante ao tornar visível o custo da geração. Mas o modelo pode, e deve, evoluir. Algumas possibilidades se impõem:


  1. Mais granularidade de sinal

A transição para tarifas horárias ou sinais mais detalhados pode ajudar o consumidor a entender quando a energia custa mais para o sistema, não apenas se ela está cara no mês.


  1. Integração com resposta da demanda

O sinal não deve ser apenas informativo. Ele pode ser acionável. Programas que recompensem a redução voluntária de consumo em momentos críticos transformam o consumidor em agente ativo da operação.


  1. Sinal ambiental combinado

Incorporar indicadores de intensidade de carbono ao lado do custo econômico amplia a compreensão da energia como vetor da transição climática.


  1. Alinhamento com políticas sociais e de eficiência

Bandeiras, tarifa social e programas de eficiência energética precisam dialogar. O objetivo não deve ser apenas aliviar a conta, mas reduzir a vulnerabilidade energética de forma estrutural.



Verde é respiro, não destino


A bandeira tarifária verde não é um ponto de chegada. É um intervalo. Um momento em que o sistema respira e a sociedade tem a chance de decidir o que fará com esse fôlego.


Se o verde for tratado apenas como boa notícia passageira, ele se esgota no mês seguinte. Mas, se for compreendido como sinal, aprendizado e oportunidade, pode se transformar em um aliado poderoso da eficiência energética, da justiça tarifária e da modernização do setor elétrico.


Em última instância, bandeira verde não deveria significar “consuma sem pensar”, mas “pense melhor enquanto consome”. Esse é o salto de maturidade que o Brasil ainda precisa dar na forma como se relaciona com a energia elétrica.


Porque, no fim das contas, a melhor bandeira para o consumidor é a bandeira da eficiência energética, capaz de transformar consumo em estratégia, custo em valor e energia em inteligência, conduzida com método, técnica e visão estratégica.



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