Tecnologia energética: Como a convergência entre dados, energia e automação está redesenhando a indústria na América Latina
- EnergyChannel Brasil

- há 3 dias
- 5 min de leitura
Por Ricardo Honório, jornalista | EnergyChannel

Em um cenário global marcado por pressões crescentes por eficiência, descarbonização e competitividade industrial, o conceito de “inteligência energética e industrial” emerge como um dos pilares estratégicos da transformação econômica contemporânea.
Na América Latina, esse movimento ganha escala acelerada impulsionado pela digitalização, pela expansão das energias renováveis e pela necessidade urgente de modernizar sistemas produtivos. Nesse contexto, a Schneider Electric, líder global em tecnologia de energia, se posiciona como uma das protagonistas ao integrar eletrificação, automação e inteligência digital em uma única arquitetura tecnológica.
Em entrevista exclusiva conduzida por Ricardo Honório, João Salgueiro, gerente sênior de eficiência energética para América Latina na SE Advisory Services, divisão global de consultoria da Schneider Electric, e Fabio Castellini, diretor de Power Systems da Schneider Electric, detalham como essa convergência está redefinindo o papel da energia nas residências, nos edifícios, nos data centers, na indústria, na infraestrutura e nas redes elétricas do futuro.
Da infraestrutura ao software: a ascensão da inteligência energética
“O futuro da sustentabilidade passa pela capacidade de transformar ativos físicos em sistemas definidos por software”, afirma João Salgueiro.
No centro dessa transformação está o conceito de “tecnologia em energia”, que combina eletrificação, automação e a inteligência digital para criar ambientes operacionais mais eficientes, resilientes e flexíveis.
EcoStruxure, a arquitetura digital da empresa, é o principal motor dessa mudança. Ele conecta três camadas da operação: os dispositivos inteligentes que capturam dados em campo, os sistemas de controle que monitoram e automatizam processos em tempo real e os softwares e serviços que transformam essas informações em insights para a tomada de decisão.
Ao integrar dados de energia e de processos, o EcoStruxure cria uma visão unificada que abrange edifícios, centros de dados, indústrias e infraestrutura, permitindo a otimização energética em tempo real, maior confiabilidade dos ativos e estratégias aceleradas de descarbonização.
Na prática, isso significa que gestores operacionais conseguem monitorar cada variável energética e industrial, identificar desvios instantaneamente e agir de forma preditiva reduzindo desperdícios e aumentando produtividade.
“A inteligência energética e industrial permite coletar, analisar e agir com base em dados. Além de proporcionar ganhos em eficiência energética, ela propicia atuar em outras dimensões críticas da sustentabilidade, como na gestão hídrica e na redução da intensidade no uso de recursos e na geração de resíduos.”, explica Salgueiro.
A incorporação de inteligência artificial especialmente modelos mais eficientes, conhecidos como IA frugal amplia ainda mais essa capacidade analítica, sem aumentar o impacto ambiental, permitindo decisões mais rápidas, seguras e estratégicas.
Descarbonização além do hardware: uma transformação sistêmica
Segundo Salgueiro, diminuir emissões operacionais exige uma abordagem muito mais ampla do que a simples substituição de equipamentos.
A estratégia da companhia passa por uma análise sistêmica das operações industriais e comerciais dos clientes, combinando eficiência energética, eletrificação, otimização de processos e energias renováveis. Tecnologias como bombas de calor, sistemas avançados de controle industrial, automação para HVAC e compressores, além da eletrificação gradual de processos que antes dependiam de combustíveis fósseis, são exemplos de soluções usadas pela empresa nesse tipo de projeto.
“O objetivo é estruturar a descarbonização das operações considerando recursos, obsolescência dos equipamentos e a curva de aprendizado, promovendo ganhos de eficiência antes de mudanças estruturais”, destaca.
Nesse âmbito ganha destaque a aplicação de softwares e tecnologias industriais, como o Advanced Process Control (APC), ou Controle Avançado de Processos, que permite otimizar processos produtivos sem a necessidade de mudanças físicas estruturais.
Esse tipo de solução é particularmente relevante para setores energo-intensivos, onde melhorias operacionais podem gerar impactos significativos em emissões e custos.
“Com essa visão sistêmica, os clientes conseguem planejar melhor a descarbonização e direcionar os investimentos de modo mais estratégico, maximizando os resultados ambientais e financeiros no curto, médio e longo prazo”, afirma.
Redes inteligentes e o desafio da energia descentralizada
Já no campo das redes elétricas, Fabio Castellini destaca que a expansão da geração distribuída está transformando profundamente o setor energético.
“O Brasil ultrapassou 40 GW de geração solar distribuída em 2025, enquanto a América Latina já supera 85 GW instalados”, afirma.
Segundo ele, esse avanço exige redes mais inteligentes, flexíveis, resilientes e preparadas para sustentar a expansão das energias renováveis na região.
A Schneider Electric responde a esse desafio com plataformas como EcoStruxure Grid ADMS e EcoStruxure Grid Analytics, que utilizam inteligência artificial para cruzar informações sobre clima, geração distribuída e consumo, permitindo antecipar instabilidades e executar ações preventivas.
Tecnologias de automação integradas a sistemas SCADA possibilitam que a rede opere com uma lógica de “self-healing”, reconfigurando automaticamente circuitos, reduzindo falhas e restabelecendo o fornecimento com maior rapidez.
Já o EcoStruxure DERMS permite coordenar milhares de ativos distribuídos, como painéis solares, baterias e programas de resposta à demanda, transformando consumidores em agentes ativos da rede e ajudando com o equilíbrio do sistema elétrico.
O papel da mídia na democratização da transição energética
Para Salgueiro, um dos grandes desafios da atualidade é tornar conceitos técnicos mais acessíveis ao público.
“A democratização do conhecimento é essencial para ampliar o impacto positivo dessas tecnologias e acelerar a descarbonização”, afirma.
A Schneider Electric investe em iniciativas educacionais e programas de acesso à energia, com o objetivo de fornecer eletricidade limpa e confiável a milhões de pessoas e, através da capacitação em gestão energética, prover a milhares de jovens uma oportunidade de inclusão e ascensão social.
Até o final de 2025, o programa já havia garantido acesso a soluções de energia renovável para mais de 50 milhões de pessoas e capacitado mais de um milhão de outras em gestão energética.
A empresa também apoia a disseminação de conhecimento técnico de forma aberta por meio da Schneider Electric University e do Schneider Sustainability Research Institute (Instituto de Pesquisa em Sustentabilidade da Schneider), que disponibilizam conteúdos técnicos, estudos e white papers de forma aberta e sem viés comercial.
Segundo Salgueiro, o apoio a mídias independentes e produções documentais é fundamental nesse processo.
“Quando grandes marcas apoiam conteúdos de impacto, ajudam a tornar temas complexos mais compreensíveis e ampliam o alcance das discussões.”
Essa conexão entre tecnologia, comunicação e sociedade é vista como essencial para estimular mudanças culturais e comportamentais necessárias para acelerar a transição climática.
O legado da nova era energética
Para os próximos anos, Salgueiro destaca que o principal legado será a construção de uma transformação sustentável baseada em automação aberta, integração de sistemas e gestão inteligente dos recursos.
“As tecnologias necessárias para promover a descarbonização já estão disponíveis. O desafio é implementá-las de forma estruturada, integrada e economicamente viável”, afirma.
A estratégia passa por conectar ativos existentes, integrar diferentes sistemas e criar ambientes interoperáveis, evitando substituições desnecessárias e maximizando o valor da infraestrutura já instalada.
Esse modelo permite integrar geração distribuída, armazenamento, microrredes e resposta à demanda em uma única arquitetura inteligente, ampliando a flexibilidade dos consumidores e acelerando a adoção de fontes renováveis.
Nesse processo, a divisão global de consultoria da companhia, SE Advisory Services, desempenha papel central ao combinar profundo conhecimento especializado, tecnologia e uma capacidade de implementação global para transformar metas de sustentabilidade, energia e digitalização em resultados mensuráveis.
Em um cenário de inúmeras tecnologias disponíveis, a SE Advisory Services ajuda os clientes a estabelecer uma rota clara, priorizando projetos de curto, médio e longo prazo, reduzindo riscos e maximizando o retorno dos investimentos em cada etapa.
“Nosso objetivo é ajudar empresas a construir uma transformação duradoura, que combine eficiência operacional, competitividade e sustentabilidade”, conclui.
Uma nova lógica para energia e indústria
Em um momento em que a energia está se tornando um dos recursos mais importantes do mundo, a tecnologia em energia representa uma mudança estrutural na forma como energia é produzida, distribuída e consumida.
Ao integrar dados, automação e eletrificação, empresas passam a operar com inteligência, previsibilidade e eficiência em níveis inéditos.
Na América Latina, essa transformação pode representar não apenas ganhos ambientais, mas uma vantagem competitiva estratégica no cenário global.
E, como destacam os executivos da Schneider Electric, o futuro já não depende de novas invenções mas da capacidade de integrar, escalar e aplicar tecnologias que já estão disponíveis.
A revolução energética já começou. E ela é, acima de tudo, digital.
Tecnologia energética: Como a convergência entre dados, energia e automação está redesenhando a indústria na América Latina








Comentários