QUANDO O BARATO SAI CARO: A ILUSÃO DO PREÇO NO MERCADO LIVRE DE ENERGIA
- Arthur Oliveira

- 21 de fev.
- 4 min de leitura
Na minha vivência diária com o setor elétrico, observo um cenário que se repete com frequência: empresas que decidem migrar para o Mercado Livre de Energia focando quase exclusivamente no preço do MWh.

É perfeitamente natural e compreensível a busca por redução de custos em um país com uma carga tributária tão alta, mas basear uma decisão tão estratégica apenas em uma cifra isolada pode esconder armadilhas perigosas.
Devido à complexidade do setor elétrico, é natural que a atenção se volte para o valor do MWh, que aparenta ser o principal indicador de economia. O que muitos clientes não sabem muitas vezes por falta de uma consultoria transparente e educativa por parte de seus fornecedores é que a maior parte do custo real de uma conta de energia reside nos impostos e encargos.
Ao focar apenas no preço do MWh, a gestão estratégica da fatura acaba ficando em segundo plano. O resultado, infelizmente, costuma ser devastador: custos inesperados e passivos surgem a reboque, anulando qualquer economia inicial e prejudicando o planejamento financeiro de quem apenas buscava otimizar seus recursos.
A PROTEÇÃO DA CCEE E O PERIGO DO DESLIGAMENTO
A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) possui diretrizes muito claras para proteger os consumidores caso a sua comercializadora seja desligada. Essa é uma situação que, embora rara, acontece quando a empresa fornecedora não cumpre com suas obrigações regulatórias ou financeiras.
A grande lição aqui é: antes de assinar com um fornecedor, é preciso ir além da planilha de preços. É fundamental verificar a habilitação da empresa junto à CCEE, sua situação regulatória e reputação, além da saúde financeira e indicadores de risco (como os Boletins de Segurança do Mercado). Optar pela proposta mais barata pode até trazer um alívio imediato no fluxo de caixa, mas a falta de garantias robustas expõe o negócio a riscos operacionais gravíssimos. Ficar sem energia, no fim das contas, sai muito mais caro.
CASOS REAIS: A DOR DE CABEÇA QUE NÃO VEM NA CONTA
Para ilustrar, compartilho dois casos recentes que mostram o tamanho do abismo:
O primeiro envolveu uma empresa com operação ininterrupta, funcionando 24 horas por dia. Motivada pela oportunidade legítima de reduzir custos, a gestão decidiu ingressar no Mercado Livre. No segundo semestre de 2024, a comercializadora contratada entrou em recuperação judicial e vendeu sua carteira de clientes para outra companhia, sem qualquer aviso prévio ou pedido de autorização. Sem informações precisas e com o fornecimento ameaçado, os gestores viveram momentos de extremo estresse.
A operação principal do negócio ficou em risco, evidenciando que a falta de transparência do fornecedor pode ameaçar a própria continuidade da empresa cliente.
O segundo caso prova que nem mesmo o "tempo de mercado" é garantia absoluta. Uma empresa considerada experiente ofertou um contrato prometendo 100% de energia incentivada por um preço muito abaixo da média praticada. O cliente, atraído pela excelente oportunidade, confiou na palavra do parceiro comercial. O problema? A comercializadora só possuía lastro de energia 50% incentivada. Um ano depois, a concessionária local iniciou a cobrança retroativa da diferença do benefício (desconto na TUSD) que o cliente havia recebido indevidamente. O cliente ficou com o prejuízo consolidado, sem ter a quem recorrer, pagando o preço pela irresponsabilidade de quem vendeu o que não tinha.
NÃO EXISTE MILAGRE: A REALIDADE DO SETOR ELÉTRICO
Esses não são casos isolados. Vimos muitas comercializadoras ingressarem de forma agressiva no segmento, seduzidas por ganhos rápidos, mas que não resistiram à dinâmica complexa do setor. A falta de capacidade para entregar a energia prometida levou várias à falência, gerando instabilidade no mercado.
Os números não mentem. Dados da Abraceel de janeiro de 2026 mostram que mais de 82 mil empresas já fizeram a portabilidade para o Mercado Livre, com um crescimento de 50% apenas nos últimos 12 meses. Em contrapartida, o Brasil bateu recorde de inadimplência: segundo a Serasa, são 8,7 milhões de CNPJs no vermelho, e quase 1 milhão de empresas fecharam as portas logo nos primeiros meses de 2025. Muitas comercializadoras, infelizmente, estão engrossando as estatísticas de recuperação judicial.
É preciso ter em mente uma regra básica: produzir energia é caro. Os juros são altos, os encargos são pesados e as usinas são, em sua esmagadora maioria, financiadas por crédito bancário cada vez mais restrito. Não existe milagre. Comercializadoras realmente sólidas não costumam vender energia em escala desenfreada (muitas limitam-se a 1 MW médio) e, definitivamente, não sustentam "preços milagrosos". Preços muito abaixo da média indicam modelos de negócio frágeis.
ATENÇÃO ÀS NOVAS REGRAS DE CONTRIBUIÇÃO DA CCEE
Além de escolher bem o parceiro, é importante estar atualizado sobre as mudanças regulatórias. Uma alteração recente e fundamental diz respeito aos custos de manutenção do próprio mercado.
Quando uma empresa migra para o Mercado Livre — seja atuando por conta própria ou representada por um agente varejista —, existe um custo para que a CCEE operacionalize o sistema. O Decreto nº 11.835/23 trouxe uma mudança drástica na forma como essa conta é dividida.
Segundo o § 1º-A do artigo 12 do decreto, as contribuições agora são compostas de duas formas:
Parcela Fixa (mínima): Destinada a cobrir os custos dos serviços mínimos da CCEE, tendo o mesmo valor para todos os agentes.
Parcela Variável (adicional): Destinada a cobrir os demais custos, calculada de forma proporcional ao volume de energia contabilizada nos últimos 12 meses.
Na prática, se antes o cálculo era baseado na última distribuição de votos, agora quem consome mais, paga uma parcela variável maior. É um custo operacional normal, mas que deve estar claro no seu planejamento.
COMO SE PROTEGER E GARANTIR ENERGIA SEGURA
A minha opinião é direta: o Mercado Livre de Energia é um ambiente excelente, seguro e altamente competitivo, mas exige parcerias profissionais.
Para que a sua empresa aproveite os benefícios sem dores de cabeça, desconfie de ofertas agressivas sem lastro. Exija transparência contratual e uma assessoria que explique cada detalhe da sua fatura. Uma excelente alternativa é buscar fornecedoras que unam economia e sustentabilidade, oferecendo energia com certificados de rastreabilidade (I-RECs).
No fim das contas, a energia mais cara que existe é aquela que falta. Proteger a operação da sua empresa exige parceiros que entendam que, no setor elétrico, segurança jurídica e solidez financeira valem muito mais do que um desconto ilusório.
QUANDO O BARATO SAI CARO: A ILUSÃO DO PREÇO NO MERCADO LIVRE DE ENERGIA









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