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Quando inovação, energia e sustentabilidade se encontram

há 4 dias
5 min de leitura

A semana terminou, mas algumas experiências continuam reverberando. Entre 21 e 25 de setembro, Porto Alegre recebeu a quinta edição da Semana Caldeira, um dos grandes encontros de inovação e empreendedorismo do País. Foram centenas de atividades, mais de 400 palestrantes confirmados, mais de 100 horas de conteúdo e milhares de participantes circulando pelo Instituto Caldeira. O tema escolhido para esta edição foi “Inovar é Saber Ver”. E talvez essa frase sintetize melhor do que qualquer outra o que acontece naquele espaço.


Quando inovação, energia e sustentabilidade se encontram

Uma comunidade que aprende em movimento

O Instituto Caldeira nasceu com uma proposta especialmente importante para o momento que estamos vivendo: aproximar pessoas, empresas, startups, universidades, investidores e diferentes atores do ecossistema de inovação. Instalado em um antigo complexo industrial de Porto Alegre, o Caldeira transformou um espaço físico em uma comunidade de inovação. A Semana Caldeira é, de certa maneira, a manifestação mais visível dessa comunidade.


O que chama a atenção não é apenas a quantidade de palestras. É a dinâmica. Pessoas que talvez jamais se encontrassem em seus ambientes profissionais passam a compartilhar os mesmos corredores, cafés, salas e auditórios. Empreendedores encontram investidores. Executivos encontram pesquisadores. Jovens conversam com profissionais experientes. Ideias são apresentadas, questionadas, aprimoradas e, algumas vezes, transformadas em negócios.


É nesse ambiente que a inovação deixa de ser uma palavra abstrata e passa a ser uma experiência social.


Desde que conheci o Caldeira, percebi que esse era o espírito daquele espaço: formar uma comunidade. Talvez por isso seja tão interessante poder enxergar as salas, circular pelos ambientes e perceber as pessoas se encontrando. Há uma exposição positiva, quase uma horizontalidade, em que todos podem aprender, ensinar, apresentar uma ideia ou simplesmente iniciar uma conversa que poderá produzir consequências muito maiores no futuro.


Quando um problema vira uma solução global

Entre os nomes que passaram pelo Caldeira estava Uri Levine, cofundador do Waze, aplicativo de navegação e mobilidade que ajudou a transformar a maneira como milhões de pessoas se deslocam pelas cidades. Levine também esteve no evento autografando seu livro Apaixone-se pelo Problema, Não pela Solução.


Sua trajetória é um bom exemplo de como uma necessidade cotidiana pode se transformar em uma solução tecnológica de alcance global. O trânsito era um problema. A tecnologia foi utilizada para criar uma nova maneira de lidar com ele.


A Semana Caldeira reuniu nomes como ele ao lado de empreendedores, cientistas, executivos e especialistas de diferentes áreas. E essa diversidade talvez seja um dos maiores ativos do evento: colocar conhecimentos diferentes no mesmo ambiente e permitir que novas conexões aconteçam.


A tecnologia já não cabe em uma única caixa

Aproveitei também a atmosfera da semana para conhecer melhor a Brivia, que integra o ecossistema do Caldeira. Em conversa com Márcio Coelho, fundador e CEO da Brivia e CEO do Brivia Group, pude compreender melhor uma empresa cuja atuação ultrapassa o conceito tradicional de uma companhia de tecnologia.


A Brivia se posiciona como uma Creative Smartech, combinando tecnologia, dados, criatividade, estratégia, experiência do usuário e inteligência artificial para apoiar processos de transformação digital.


Essa combinação revela uma mudança importante no mundo dos negócios. Tecnologia, comunicação, criatividade, dados e inteligência artificial já não podem ser tratados como universos separados. Eles estão se misturando para criar novas formas de relacionamento entre empresas e sociedade.


E essa transformação interessa diretamente ao setor de energia.

Estamos entrando em uma era em que os sistemas energéticos também estão se tornando mais digitais, distribuídos e inteligentes. Geração distribuída, armazenamento, veículos elétricos, medidores inteligentes, inteligência artificial, redes inteligentes e novos modelos de gestão da demanda estão mudando a própria arquitetura do setor elétrico.


Do ecossistema de inovação ao futuro do planeta

Mas foi no último dia da Semana Caldeira, durante o ESG Day, que encontrei a conexão que mais me interessou.


Assisti à participação de Felipe Villela, diretor para a América Latina do The Earthshot Prize. Porto-alegrense, Felipe representa na região uma iniciativa criada pelo então Príncipe William em 2020 com uma missão ambiciosa: encontrar, reconhecer e ajudar a ampliar soluções capazes de enfrentar os grandes desafios ambientais do planeta.

O Earthshot trabalha com cinco objetivos para 2030: proteger e restaurar a natureza, limpar o ar, recuperar os oceanos, construir um mundo sem desperdício e enfrentar a crise climática.


Existe algo particularmente interessante nessa estratégia. O Earthshot combina ciência, inovação, negócios, comunicação e cultura. Ao lado das soluções ambientais, existe um grande esforço de comunicação global. Celebridades, artistas e personalidades de diferentes áreas ajudam a levar o tema para públicos que talvez não acompanhassem uma conferência tradicional sobre clima.


É uma espécie de grande palco mundial da sustentabilidade quase um “Oscar da sustentabilidade” capaz de transformar soluções ambientais em histórias que despertam atenção e mobilizam pessoas.


A estratégia parte de uma constatação importante: não basta desenvolver soluções. É preciso fazer com que elas sejam conhecidas, compreendidas, valorizadas e adotadas.


Uma lembrança que atravessou gerações

Felipe Villela dividiu a conversa com a jornalista Fernanda Zaffari, fundadora da fzUKConnect, e em determinado momento surgiu uma lembrança especial: 2026 marca o centenário de nascimento de José Lutzenberger.


Lara Lutzenberger estava na plateia.

A lembrança provocou um daqueles momentos em que o presente parece conversar diretamente com o passado. Lara agradeceu a referência e falou sobre a importância de seu pai e sobre como sua voz continua ecoando décadas depois de sua atuação no movimento ambientalista brasileiro.


Como voluntário da Fundação Gaia, acompanho o esforço para manter vivo esse legado. Lutzenberger não falava apenas de preservação ambiental. Falava de uma mudança de consciência. Questionava um modelo de desenvolvimento que separava artificialmente economia, sociedade e natureza.


E existe uma conexão histórica particularmente simbólica nessa história.

No início dos anos 1990, Lutzenberger esteve com o então Príncipe Charles, hoje Rei Charles III, em um encontro a bordo do Royal Yacht Britannia, durante a passagem do príncipe pela Amazônia. Décadas depois, o nome de Lutzenberger reaparece em uma conversa sobre inovação e sustentabilidade justamente no contexto do Earthshot, iniciativa criada por seu filho, o atual Príncipe William.


Não se trata de dizer que uma história determina a outra. Trata-se de perceber como algumas ideias sobrevivem aos seus autores.


A energia como infraestrutura da nova civilização

Talvez seja aqui que inovação, sustentabilidade e energia se encontrem.

Estamos entrando em uma época em que inteligência artificial, eletrificação, armazenamento de energia, redes inteligentes, veículos elétricos, novas formas de produção e tecnologias de baixo carbono estão transformando a economia.

Mas nenhuma dessas tecnologias existe sem energia.


Mais do que isso: a qualidade, o custo, a disponibilidade e a forma como produzimos e distribuímos energia determinarão boa parte das possibilidades dessa nova economia.

Precisamos produzir energia limpa, mas também precisamos democratizar seu acesso, modernizar as redes, permitir que consumidores participem mais ativamente do sistema, ampliar a geração distribuída, incorporar armazenamento e criar condições para que os novos recursos energéticos sejam efetivamente utilizados pela sociedade.


A transição energética é, portanto, também uma transição tecnológica e social.

E há uma questão ainda maior: para que queremos essa energia?

Não se trata simplesmente de produzir mais eletricidade. Trata-se de criar condições para uma sociedade mais eficiente, conectada, inclusiva e sustentável. Uma sociedade em que a energia possa alimentar novas tecnologias sem ampliar desigualdades ou comprometer os sistemas naturais que sustentam a própria vida.


Saber ver o futuro

É exatamente por isso que espaços como o Caldeira são importantes.

O futuro não será construído por uma única tecnologia, uma única empresa ou uma única instituição. Ele será resultado das conexões entre diferentes conhecimentos, pessoas e visões.


Saí da Semana Caldeira com essa impressão: inovar é, de fato, saber ver.

Ver aquilo que ainda não existe. Ver possibilidades onde outros enxergam apenas problemas. Ver a tecnologia como instrumento, e não como finalidade.

E, principalmente, enxergar que sustentabilidade não é um departamento dentro das empresas ou um capítulo separado da inovação.


É uma questão de futuro.

Talvez a maior inovação de que precisamos seja justamente aprender a construir esse futuro juntos com tecnologia, energia limpa, conhecimento, consciência e, sobretudo, uma visão de humanidade capaz de compreender que o planeta não é apenas o lugar onde vivemos.


É a nossa casa.


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