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Por que sua conta de luz ignora o relógio e por que isso está prestes a mudar

Entenda as futuras mudanças no mercado consumidor de eletricidade


Por que sua conta de luz ignora o relógio e por que isso está prestes a mudar
Por que sua conta de luz ignora o relógio e por que isso está prestes a mudar

O consumidor brasileiro já convive há anos com preços que variam conforme horário, demanda e oferta. A antiga bandeira 2 dos táxis cobrava mais caro à noite, aos fins de semana e em feriados. Mais recentemente, aplicativos de transporte e entrega popularizaram as tarifas dinâmicas, que sobem quando há muitos pedidos e poucos prestadores disponíveis.


Nesses setores, a lógica é clara: quando o sistema está pressionado, o preço sobe; quando há folga, ele cai. No setor elétrico, esse princípio também existe — mas, para a maioria dos consumidores, o relógio sempre esteve invisível na conta de luz.


Hoje, apenas 0,1% dos consumidores, cerca de 69 mil unidades em um universo superior a 70 milhões, utiliza a chamada Tarifa Branca, que diferencia o preço da energia conforme o horário de consumo. O modelo é tecnicamente consistente, mas permaneceu marginal. É justamente por isso que ele voltou ao centro do debate regulatório.


O tema voltou à mesa e agora é para valer


Nos últimos meses, a ANEEL promoveu workshops técnicos e abriu consulta pública para discutir a modernização das tarifas aplicáveis aos consumidores de baixa tensão. O diagnóstico é claro: o modelo atual, que ignora o fator tempo, já não conversa com um sistema elétrico cada vez mais renovável, digital e descentralizado.


Entre as propostas em discussão estão a ampliação do público-alvo da tarifa horária, a adoção de modelos de inclusão automática com opção de saída (opt-out) e mudanças na forma como o sinal de preço é apresentado ao consumidor.


Quando o nome atrapalha a política pública


Um dos pontos levantados nesses workshops foi a própria identidade da Tarifa Branca. O nome não comunica seu propósito e não ajuda o consumidor a entender o mecanismo. Para muitos, ele não remete a horário, economia ou estratégia de consumo.


Por isso, surgiu a proposta de um rebranding regulatório, com nomes mais autoexplicativos, como Tarifa Hora Certa. A lógica é simples: se o consumidor não entende rapidamente a regra, ele não reage ao sinal de preço. No setor elétrico, boa regulação também depende de comunicação eficiente.


O desafio do comércio: flexibilidade tem limite


A proposta mais recente mira consumidores da baixa tensão com consumo elevado, acima de 1.000 kWh por mês. E aqui surge um dado central: 73% desse público pertence ao comércio e serviços (Grupo B3).


Diferentemente do transporte por aplicativo, em que o usuário pode decidir pagar mais ou esperar, muitos estabelecimentos operam com horários rígidos. Restaurantes, pizzarias, academias e clínicas não podem simplesmente deslocar sua atividade para o meio do dia sem impacto econômico. Esse é hoje um dos principais pontos de tensão na consulta pública: como aplicar sinais horários a atividades com baixa flexibilidade operacional?


O sol ao meio-dia e o pico no fim da tarde


A urgência dessa discussão nasce da operação do sistema elétrico. A expansão acelerada da geração solar criou um padrão cada vez mais claro: excesso de oferta no meio do dia e forte demanda no fim da tarde e início da noite.


Esse descompasso obriga o acionamento de usinas termelétricas mais caras e emissoras, elevando o custo para todos. A tarifa horária aparece, nesse contexto, como um instrumento para alinhar consumo e geração, reduzindo o pico e o custo sistêmico.


Uma escola para o mercado livre


Outro ponto recorrente nos debates regulatórios é o papel pedagógico da tarifa horária. Com a abertura total do mercado de energia prevista para 2027/2028, o consumidor precisará lidar com preços variáveis, contratos mais complexos e maior exposição ao risco.


Introduzir essa lógica agora, ainda no mercado regulado, funciona como uma fase de aprendizado para consumidores e empresas.


Tecnologia: quando o relógio deixa de ser um problema


A consolidação desse modelo depende menos de vigilância humana e mais de automação. Equipamentos inteligentes, baterias, veículos elétricos e sistemas de gestão energética tendem a responder automaticamente ao sinal de preço.

Nesse cenário, o relógio deixa de ser um obstáculo e passa a ser um aliado silencioso refletido diretamente na conta de luz.


O que está em jogo


A consulta pública segue aberta até março de 2026, e o resultado desse processo pode redefinir a relação do consumidor com o preço da energia. A proposta é migrar de um modelo de perde-perde, em que o consumo no pico encarece a rede para todos, para um arranjo ganha-ganha, baseado em eficiência, menor necessidade de investimentos e redução de emissões.


O preço da energia já varia com o tempo. A diferença é que, agora, o regulador discute como tornar esse relógio visível e justo para todos.


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