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Pico do petróleo segue em disputa: por que as projeções globais ainda subestimam a transição energética

Durante as últimas semanas, uma nova narrativa ganhou força no debate energético global: Segundo a Agência Internacional de Energia, a ideia de que a demanda por petróleo continuará crescendo até meados do século, colocando em xeque o conceito de “pico do petróleo”. A leitura rápida de projeções internacionais mais recentes levou parte do mercado a celebrar uma suposta sobrevida prolongada dos combustíveis fósseis.


Pico do petróleo segue em disputa: por que as projeções globais ainda subestimam a transição energética
Pico do petróleo segue em disputa: por que as projeções globais ainda subestimam a transição energética

Mas uma análise mais cuidadosa dos cenários energéticos globais revela uma realidade bem mais complexa e, em muitos pontos, desconectada do que já acontece no mundo real.


No centro dessa discussão está o peso excessivo atribuído às políticas públicas formais e a subestimação de fatores econômicos, tecnológicos e estruturais que estão acelerando a transição energética, especialmente fora das economias avançadas.


Projeções energéticas não são previsões neutras

Relatórios globais de energia trabalham com múltiplos cenários. Alguns assumem continuidade das políticas atuais; outros consideram metas anunciadas, ainda que não totalmente implementadas. O problema não está na existência desses cenários, mas na forma como eles passam a ser tratados como previsões definitivas.


Cenários baseados exclusivamente em políticas vigentes tendem a ignorar um elemento-chave do setor energético moderno: a transição deixou de ser apenas regulatória e passou a ser econômica.


Quando custos caem, cadeias produtivas se consolidam e tecnologias se tornam competitivas por si só, a política deixa de ser o principal motor da mudança.


A armadilha de olhar o mundo pela lente de poucos países

Parte das projeções mais conservadoras sobre renováveis e eletrificação reflete realidades específicas de mercados como os Estados Unidos, onde disputas políticas internas, lobbies consolidados e barreiras comerciais distorcem a dinâmica de adoção tecnológica.

O problema é extrapolar esse cenário para o restante do mundo.


Na maior parte da América Latina, Sudeste Asiático, África e Ásia Central, a expansão da energia solar, da geração distribuída e dos veículos elétricos ocorre menos por ideologia climática e mais por lógica econômica: reduzir importações de combustíveis fósseis, aumentar segurança energética e baixar o custo da energia.


Essas regiões concentram justamente os maiores crescimentos demográficos, urbanos e industriais das próximas décadas.


Energia solar: custos falam mais alto que decretos

As projeções globais ainda tratam a expansão da energia solar como se dependesse majoritariamente de incentivos estatais. Na prática, os números mostram outra história.

O custo dos módulos fotovoltaicos continua caindo, a eficiência cresce e o armazenamento em baterias avança rapidamente. Em muitas regiões do planeta, a energia solar já é a forma mais barata de geração elétrica disponível — com ou sem subsídios.


Além disso, países localizados nas chamadas “faixas solares” regiões tropicais e subtropicais com alta e constante incidência solar têm uma vantagem natural que torna a expansão fotovoltaica quase inevitável do ponto de vista econômico.

Ignorar esse fator estrutural leva a projeções que subestimam a velocidade real da transição.


Veículos elétricos: o Sul Global acelera

Outro ponto frequentemente subestimado é a adoção de veículos elétricos em economias emergentes. A leitura tradicional assume que esses mercados avançarão lentamente, mas os dados recentes mostram o contrário.


O crescimento das vendas de veículos elétricos em países como Brasil, México, Indonésia, Tailândia e Turquia indica uma mudança estrutural. A combinação de:

  • Veículos elétricos mais baratos,

  • Produção asiática em larga escala,

  • Investimentos industriais locais,

  • Alto custo das importações de petróleo,

cria um ambiente altamente favorável à eletrificação do transporte.


Para muitos países em desenvolvimento, eletrificar a frota não é apenas uma escolha ambiental, mas uma estratégia de sobrevivência econômica.


Economia vence a política

A principal falha das projeções conservadoras está em assumir que a transição energética depende, necessariamente, de governos altamente comprometidos com políticas climáticas.


A realidade atual aponta para outro caminho: a transição está sendo puxada por preço, eficiência e segurança energética.

Quando gerar eletricidade localmente com sol e vento custa menos do que importar combustíveis fósseis, a decisão se torna inevitável — independentemente do discurso político.


Petróleo ainda resiste, mas o teto se aproxima

Isso não significa que o consumo de petróleo entrará em colapso imediato. A demanda global segue resiliente, sustentada por inércias econômicas, infraestrutura existente e crescimento de curto prazo em alguns setores.

No entanto, os sinais de saturação são cada vez mais claros. À medida que renováveis, baterias e veículos elétricos avançam, o espaço para crescimento estrutural do petróleo se estreita.


O debate real já não é se o pico da demanda acontecerá, mas quando e com que velocidade o declínio virá depois.


Um erro recorrente nas projeções globais

Outro ponto pouco discutido é a suposição de que o crescimento da demanda energética global será absorvido majoritariamente por combustíveis fósseis.

Ganhos de eficiência, eletrificação de processos e geração descentralizada tendem a reduzir o crescimento líquido do consumo de energia — um fator que segue subestimado em muitas análises.


Se a demanda total crescer menos do que o previsto, a pressão sobre os combustíveis fósseis será ainda maior.


O futuro energético não será liderado apenas pelos países ricos

A grande virada desta década é clara: a transição energética deixou de ser um projeto exclusivo das economias desenvolvidas.

O Sul Global passou a liderar, não por altruísmo climático, mas por racionalidade econômica.


Quem continuar olhando apenas para políticas formais e disputas ideológicas corre o risco de não enxergar o movimento real que já está redesenhando o sistema energético global.


E esse movimento aponta para um mundo onde o petróleo perde espaço não por decreto, mas por falta de competitividade.


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