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Muito além do carregador: Renew aposta em operação, tecnologia e experiência para construir a nova geração de eletropostos

Em entrevista ao EnergyChannel na Intersolar South America 2026, Eduardo Nicol e Philipe Scarton, sócios da Renew Energia, explicam por que a expansão da eletromobilidade no Brasil dependerá menos de simplesmente instalar carregadores e cada vez mais da qualidade dos equipamentos, localização, monitoramento e experiência entregue ao motorista



Por Ricardo Honório | EnergyChannel

Cobertura Especial — Intersolar South America 2026 | São Paulo


Para quem observa a expansão da eletromobilidade de fora, construir um eletroposto pode parecer relativamente simples: escolher um carregador, encontrar algumas vagas, instalar o equipamento e começar a vender energia.


Na prática, é exatamente aí que os problemas começam.

Um eletroposto depende de uma cadeia inteira funcionando simultaneamente. Precisa de energia, comunicação, carregador, software, manutenção, peças de reposição e suporte. Precisa estar no lugar certo e permanecer acessível quando o motorista precisar. E, enquanto o carro permanece conectado durante 20, 30 ou 40 minutos, o local precisa fazer sentido para quem está esperando.


Na visão de Eduardo Nicol e Philipe Scarton, sócios da Renew Energia, o futuro da infraestrutura brasileira de recarga será definido justamente pela capacidade de integrar todas essas peças.


Em entrevista a Ricardo Honório, jornalista do EnergyChannel, durante a Intersolar South America 2026, os dois executivos analisaram a nova geração de equipamentos que começa a chegar ao país, os riscos de escolhas baseadas apenas em preço e o trabalho necessário para transformar um conjunto de carregadores em uma rede confiável.

Para Nicol, o primeiro cuidado aparece antes mesmo de o eletroposto existir: escolher corretamente o equipamento.


“Estamos vendo no mercado uma série de equipamentos de baixa qualidade entrando”, alerta.

O crescimento da eletromobilidade brasileira está atraindo fabricantes, importadores e novas marcas. Essa diversidade aumenta a competição e pode ajudar a reduzir custos, mas também cria um desafio: saber exatamente o que existe por trás do carregador.

Segundo Nicol, quem opta por uma importação própria ou por fabricantes menos conhecidos precisa fazer uma avaliação muito mais profunda do que simplesmente comparar potência e preço. É preciso conhecer a fábrica, verificar certificações, analisar componentes e compreender se o produto está preparado para atender às normas técnicas aplicáveis ao mercado brasileiro.


Também é necessário olhar para algo que normalmente só aparece depois que o carregador apresenta um problema: quem vai consertá-lo?

Essa pergunta parece operacional, mas pode definir a viabilidade econômica de uma estação.


“Um eletroposto, se perder energia, comunicação ou o carregador, não faz nada”, resume Nicol.

A lógica é direta. Se qualquer uma dessas três camadas falhar, o ativo deixa de produzir receita. E cada hora de indisponibilidade significa não apenas energia que deixou de ser vendida, mas também um motorista frustrado diante de um carregador que aparece no mapa, mas não consegue iniciar uma sessão.


Por isso, Nicol chama atenção para disponibilidade de peças, garantia, assistência técnica e atualização de software. Se uma fonte, placa de comando ou módulo de comunicação apresentar defeito, quanto tempo será necessário para substituí-lo? O fabricante terá suporte no Brasil? Haverá peças disponíveis? A empresa continuará atualizando o sistema?


No universo dos veículos elétricos, essa última pergunta ganha uma importância especial. Novos modelos chegam constantemente ao mercado, com diferentes implementações de comunicação entre veículo e carregador. A infraestrutura precisa acompanhar essa evolução.


É por isso que, na seleção de fornecedores feita pela Renew, Nicol afirma que confiabilidade, garantia e capacidade de atualização pesam tanto quanto a própria especificação do equipamento.

Mas escolher um bom carregador resolve apenas metade do problema.


Um ótimo carregador no lugar errado continua sendo um mau investimento

Depois do equipamento, vem aquilo que Nicol considera decisivo para o sucesso de uma estação: o ponto.


Um eletroposto não existe isoladamente. Ele faz parte do ambiente ao redor.

Segurança, conveniência, acessibilidade, horário de funcionamento e fluxo de veículos interferem diretamente na utilização. Rodovias, shopping centers e vias movimentadas naturalmente oferecem oportunidades, mas a análise precisa ir além do número de carros que passam diante do local.


É preciso entender o que o motorista fará enquanto espera.


“Eu costumo dizer que o eletroposto funciona em um ecossistema com o ambiente em que ele está”, afirma Nicol.

Esse ecossistema pode ter uma academia, padaria, restaurante, bar, loja ou centro comercial. Cada atividade cria um comportamento diferente e, consequentemente, uma necessidade diferente de recarga.


É uma mudança importante na maneira de projetar infraestrutura.

Em vez de começar perguntando qual carregador instalar, talvez seja melhor começar perguntando quanto tempo aquele consumidor naturalmente permanecerá naquele lugar.


Um motorista que para rapidamente em uma rodovia tem uma necessidade diferente daquele que passa uma hora em um restaurante. O cliente de uma academia possui outra janela de permanência. Um hóspede de hotel pode deixar o veículo estacionado durante toda a noite.


O carregador precisa acompanhar esse comportamento.


“Você tem que desenhar o comportamento dele conforme o comércio”, observa Ricardo durante a conversa.

Nicol concorda. Cada ponto de parada pode exigir uma arquitetura diferente.

É assim que potência, localização e experiência começam a fazer parte da mesma equação.


O próximo desafio é fazer tudo funcionar quando o motorista chegar


Philipe Scarton leva a conversa para outra dimensão igualmente importante: a operação.

Quem dirige um veículo elétrico conhece um dos problemas mais frequentes da infraestrutura atual. Existem diversas redes e, com elas, diferentes aplicativos, cadastros e procedimentos para iniciar uma recarga.


Na teoria, abastecer um carro elétrico deveria ser simples.


Na prática, o motorista pode chegar ao local, procurar o aplicativo correto, fazer cadastro, adicionar pagamento, tentar iniciar a sessão e descobrir que alguma etapa não funcionou.

É exatamente nesse momento que a qualidade de uma rede deixa de ser medida pela potência escrita na lateral do carregador.


Para Scarton, a experiência precisa continuar depois da instalação.


A Renew trabalha com monitoramento ativo das estações, acompanhando situações em que o cliente apresenta dificuldade para iniciar uma recarga ou utilizar a plataforma.


“A gente sempre tenta entregar uma experiência para o cliente”, explica.

Isso exige integração entre equipamento e software.


Scarton chama atenção para um erro comum: imaginar que uma boa plataforma de gestão consegue compensar um equipamento ruim — ou que um excelente carregador consegue funcionar perfeitamente apoiado por uma plataforma inadequada.

Não consegue.


“Uma plataforma de gestão que não acompanha a qualidade do equipamento não resolve o problema do eletroposto”, afirma.


Hardware e software precisam caminhar juntos.


E, quando algum deles falha, precisa existir uma terceira camada: pessoas capazes de perceber o problema e agir.


É aí que entra o monitoramento.


De uma pessoa acompanhando a rede a uma futura sala de controle


Hoje, explica Nicol, essa estrutura ainda cresce junto com a própria operação.

No começo, uma pessoa pode acompanhar as estações durante o expediente e continuar o monitoramento remotamente em outros períodos. Conforme a rede aumenta, entram duas pessoas, depois três e, em algum momento, a operação exige um verdadeiro centro de monitoramento.


É um processo gradual.


“Daqui a pouco a gente tem um centro de monitoramento com várias pessoas tomando conta disso”, projeta.

A visão ajuda a revelar algo importante sobre o futuro das redes de recarga.

Quanto maior a infraestrutura, menos ela se parece com uma coleção de carregadores independentes e mais se aproxima de uma operação de infraestrutura crítica.

Uma rede com dezenas ou centenas de estações precisa saber, em tempo real, quais carregadores estão disponíveis, quais estão em uso, onde existe falha de comunicação, quais sessões não começaram corretamente e quais equipamentos precisam de intervenção.


O motorista vê apenas o carregador.

Por trás dele, porém, existe uma operação inteira trabalhando para que a experiência pareça simples.

Essa simplicidade é justamente o produto.


Uma rede jovem com ambição de acelerar

Nicol lembra que a operação de recarga da Renew ainda é jovem. Embora a empresa acumule cerca de três anos de experiência em mobilidade elétrica, a rede propriamente dita começou sua trajetória mais recentemente.


“É uma rede criança. Está engatinhando”, brinca.

Mas a expectativa agora é acelerar.


Durante a entrevista, Nicol cita também a parceria com a FX Recharge, que, segundo ele, traz uma proposta diferente para o mercado ao trabalhar o eletroposto não apenas como infraestrutura, mas também como experiência e identidade.


Ele define a proposta como um “eletroposto temático”.

A ideia representa bem a discussão que atravessa toda a entrevista.

Se o motorista precisa permanecer algum tempo no local, a recarga pode deixar de ser simplesmente uma espera obrigatória.

Pode se transformar em experiência.


Nesse modelo, arquitetura, comunicação, conveniência, serviços, comércio e identidade visual passam a fazer parte do próprio produto.


A expectativa dos executivos é que essa combinação ajude a acelerar a expansão das operações nos próximos meses.

Nicol afirma que o grupo trabalha com a ambição de chegar a 100 eletropostos até o final de 2027 e acredita que essa marca poderá ser alcançada antes do prazo inicialmente projetado.


Mais importante do que o número, entretanto, será fazer essa expansão mantendo o padrão de operação que a empresa pretende construir.

Porque crescer rapidamente com carregadores indisponíveis pode produzir exatamente o efeito contrário: destruir a confiança do motorista.


Análise EnergyChannel | O melhor eletroposto é aquele em que o motorista não percebe a complexidade


A conversa com Eduardo Nicol e Philipe Scarton revela uma mudança importante na maturidade da eletromobilidade brasileira.

A primeira fase desse mercado foi marcada pela necessidade de instalar infraestrutura.

Era preciso colocar carregadores no mapa.

Essa necessidade continua existindo. O Brasil ainda precisará de milhares de novos pontos de recarga para acompanhar o crescimento da frota elétrica.

Mas quantidade, sozinha, não será suficiente.

A próxima disputa será pela qualidade da experiência.

E essa experiência começa muito antes de o motorista conectar o cabo.

Começa na escolha do fabricante.

Passa pela certificação do equipamento, disponibilidade de peças, garantia e atualização de software. Continua na seleção do ponto, na potência adequada ao tempo de permanência e na existência de segurança e conveniência.

Depois entram aplicativo, pagamento, comunicação e monitoramento.

E tudo precisa funcionar ao mesmo tempo.

Essa talvez seja a grande diferença entre instalar um carregador e operar um eletroposto.

O primeiro é um projeto de engenharia.

O segundo é um negócio de serviços.

E negócios de serviços são julgados pela experiência que entregam.

Quando um motorista abastece um veículo a combustão, ele raramente pensa sobre toda a infraestrutura necessária para fazer o combustível chegar à bomba. Ele simplesmente espera que esteja disponível.

A eletromobilidade terá alcançado verdadeira maturidade quando o mesmo acontecer com a recarga elétrica.

O motorista chegará.

Conectará o carro.

Iniciará a sessão.

Pagará.

E seguirá viagem.

Sem pensar na comunicação OCPP, no módulo eletrônico, no servidor, na disponibilidade da rede, no estoque de peças ou no operador que acompanha aquela estação a quilômetros de distância.

Toda essa complexidade continuará existindo.

Só não poderá aparecer para o cliente.

É justamente por isso que o monitoramento defendido por Scarton ganha relevância. A melhor operação não é aquela que nunca apresenta um problema — algo praticamente impossível em qualquer infraestrutura tecnológica de grande escala. É aquela capaz de perceber rapidamente quando algo aconteceu e resolver antes que uma falha se transforme em uma experiência ruim.

Existe ainda outro ponto importante levantado por Nicol: o eletroposto precisa conversar com o lugar onde está instalado.

Essa talvez seja uma das ideias mais interessantes para a próxima geração da infraestrutura brasileira.

Nem toda vaga precisa de recarga ultrarrápida.

Nem todo motorista precisa permanecer 40 minutos.

Nem todo comércio possui o mesmo perfil de permanência.

Uma academia pode pedir uma solução.

Um hotel, outra.

Uma parada rodoviária, outra completamente diferente.

O futuro provavelmente será menos padronizado do que parece.

Em vez de simplesmente espalhar carregadores, as redes mais eficientes precisarão entender o comportamento do consumidor e dimensionar a infraestrutura ao redor dele.

É nesse contexto que propostas de eletropostos temáticos e experiências associadas à recarga começam a fazer sentido.

O carregador deixa de ser o destino.

Passa a ser parte do destino.


E talvez seja justamente essa a próxima fronteira da eletromobilidade brasileira.

Durante anos, a discussão foi sobre quantos carregadores o país precisava instalar.

Agora começa uma pergunta mais difícil:


Muito além do carregador: Renew aposta em operação, tecnologia e experiência para construir a nova geração de eletropostos
Muito além do carregador: Renew aposta em operação, tecnologia e experiência para construir a nova geração de eletropostos

Quantos desses carregadores estarão realmente funcionando quando o motorista precisar deles?


A resposta não estará apenas no equipamento.

Estará na fábrica que o produziu, na engenharia que o selecionou, no ponto onde foi instalado, no software que o controla, na equipe que o monitora e na experiência construída ao redor dele.

Porque uma rede de recarga não nasce quando o carregador é energizado.

Ela nasce quando o motorista aprende que pode confiar que ele estará funcionando quando chegar.


EnergyChannel Special Coverage | Intersolar South America 2026

Entrevistados: Eduardo Nicol e Philipe Scarton

Empresa: Renew Energia

Entrevista: Ricardo Honório — EnergyChannel

Evento: Intersolar South America 2026 - São Paulo, Brasil

EnergyChannel - We Tell the Stories Driving the Energy Transition.


Muito além do carregador: Renew aposta em operação, tecnologia e experiência para construir a nova geração de eletropostos

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