Leite vegetal, pegada de carbono e consumo consciente: Nude aposta na transparência climática como estratégia de mercado
- EnergyChannel Brasil

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Por Talita Martins – Programa Liderança em ESG e Sustentabilidade | Energy Channel
A transformação do consumo deixou de ser tendência para se tornar realidade. Consumidores mais atentos à origem dos produtos, ao impacto socioambiental das marcas e à coerência entre discurso e prática vêm redefinindo padrões de mercado especialmente no setor de alimentos e bebidas.
Foi nesse contexto que o Programa Liderança em ESG e Sustentabilidade, do Energy Channel, recebeu Mariana Malufe, Head de Impacto da Nude, para uma conversa sobre descarbonização, cadeia de valor, logística reversa e o papel das empresas na resposta à crise climática.
Segundo Mariana, a Nude nasceu já sob o signo da transformação e da crise.
De Berlim para o Brasil: o nascimento da Nude
A história da marca começa em 2019, em Berlim. Os fundadores, Alex e Giovana, viviam na capital alemã conhecida como um dos polos mais fortes do veganismo na Europa quando tiveram contato com o crescimento acelerado do consumo de leite vegetal.
Em uma cafeteria da cidade, foram apresentados ao leite de aveia como alternativa ao leite animal. Ao perceberem a alta demanda e prateleiras vazias nos supermercados locais, identificaram um movimento estrutural: a substituição de produtos de origem animal por alternativas plant-based estava ganhando escala.
Com a experiência familiar da Giovana cuja família atua há décadas no beneficiamento de aveia decidiram retornar ao Brasil e lançar a Nude, ainda em 2020.
O início oficial da operação ocorreu em 13 de março de 2020, dois dias antes da decretação da pandemia de Covid-19 no país. O lançamento dos produtos nas gôndolas foi adiado para dezembro daquele ano. O período foi utilizado para estruturar a marca sob bases sustentáveis desde a origem.
ESG desde o primeiro produto
Mariana explica que, ainda em 2020, a empresa dedicou-se a três frentes estratégicas:
• Certificação como Empresa B
• Mapeamento da cadeia de fornecedores
• Cálculo da pegada de carbono de cada produto
“Desde o primeiro produto colocamos a pegada de carbono na embalagem. Mesmo quando o consumidor ainda não estava tão atento a esse tema, entendíamos que isso era fundamental para o futuro”, afirma.
A Nude foi pioneira no Brasil ao estampar a pegada de carbono diretamente no rótulo. A decisão teve dois objetivos: comunicar transparência ao consumidor e utilizar o cálculo como ferramenta de gestão para priorização de ações de descarbonização.
Crise climática como eixo central
Mariana destaca que a Nude nasce já dentro da crise climática, um momento em que o mercado financeiro global passou a reconhecer os riscos ambientais como centrais para a economia. No relatório do Fórum Econômico Mundial apresentado em World Economic Forum (Davos), os cinco maiores riscos globais passaram a ser ambientais pela primeira vez.
Diante desse cenário, a empresa definiu mudanças climáticas como seu tema socioambiental prioritário.
“Todos os outros temas ambientais se conectam com clima. A descarbonização é nosso grande foco”, explica.
Do inventário à pegada de produto
No Brasil, menos de 500 empresas realizam inventário de emissões segundo metodologias alinhadas ao GHG Protocol um universo ainda reduzido diante dos milhões de CNPJs ativos no país. Quando se trata de pegada de carbono de produto, o número é ainda menor.
Ao perceber essa lacuna, a Nude decidiu ampliar o debate.
A empresa passou a incentivar outras marcas a calcular e divulgar suas pegadas de carbono, iniciando um movimento colaborativo que hoje reúne 36 empresas no Brasil com rotulagem de impacto climático.
“Se apenas uma marca comunica, o consumidor não consegue comparar. O ideal é que o supermercado inteiro tenha essa informação para que o impacto seja tangível”, afirma Mariana.
Onde está o impacto?
Mesmo sendo uma indústria de alimentos, o impacto direto da Nude é relativamente baixo. A empresa opera em modelo enxuto, com estrutura administrativa em coworking e forte terceirização produtiva.
Segundo Mariana, cerca de 99,9% do impacto da marca está na cadeia de fornecimento.
A aveia utilizada vem do Paraná e é irrigada majoritariamente com água da chuva. No processamento, a casca da aveia é utilizada como biomassa para aquecimento de caldeiras, reduzindo consumo energético fóssil.
Diante disso, temas como água e energia não aparecem como prioridades estratégicas da empresa. O foco permanece em:
• Emissões de carbono
• Logística reversa
• Cadeia de fornecedores
• Inclusão social
Logística reversa além da obrigação legal
A legislação brasileira exige que 30% das embalagens sejam destinadas via logística reversa. A Nude vai além.
Além da compra de créditos de logística reversa para papel cartonado, a empresa investe recursos equivalentes aos 70% restantes em iniciativas estruturantes, como o programa “Preço de Fábrica”, desenvolvido em parceria com a Green Mining.
A iniciativa cria pontos de coleta com remuneração acima do mercado para catadores, estimulando formalização e valorização da cadeia de reciclagem.
“Acreditamos que não basta compensar. É preciso transformar comportamento e gerar impacto social positivo”, explica.
Inclusão social e geração de renda
Na agenda social, a Nude atua com foco em jovens em situação de vulnerabilidade, promovendo inserção formal no mercado de trabalho por meio da cadeia do café — setor com o qual a marca mantém forte conexão.
A estratégia é trabalhar com recortes claros, evitando dispersão de recursos e maximizando impacto.
O “não relatório” de sustentabilidade
Um dos pontos mais inovadores apresentados por Mariana é o chamado “não relatório” de sustentabilidade.
Mesmo sem obrigatoriedade legal por não ser empresa de capital aberto a Nude publica anualmente um documento de prestação de contas. A diferença está na linguagem.
“O relatório tradicional é feito para investidores e especialistas. O nosso é feito para pessoas comuns.”
O documento assume formato quase manifesto, com linguagem acessível e didática. A cada edição, a empresa escolhe um tema para aprofundar conceitos complexos de ESG e clima, como:
• Acordo de Paris
• Partículas por milhão (ppm)
• Conceitos de baixo carbono
A proposta é democratizar o entendimento da agenda climática e aproximar o consumidor do debate.
O mercado de leite vegetal e o potencial climático
O mercado de bebidas vegetais ainda é incipiente no Brasil. Enquanto na Europa e nos Estados Unidos a categoria já representa cerca de 20% de market share, no Brasil não chega a 2%.
A diferença de impacto ambiental é significativa. Segundo Mariana, o leite de origem animal pode variar entre 1,5 e 4,5 kg de CO₂ por litro, com média global estimada em 3,2 kg. Já o leite vegetal da Nude apresenta impacto significativamente inferior.
“Se conseguirmos ampliar a participação dos leites vegetais para 50% da categoria, atingimos metas do Acordo de Paris nesse segmento”, afirma.
Não se trata de eliminação total do consumo animal, mas de diversificação de escolhas com menor intensidade de carbono.
Comunicação como ferramenta estratégica
Para Mariana, o diferencial da Nude está na forma como comunica.
“A gente fala com o consumidor, não para o consumidor.”
A marca reconhece que está promovendo mudança de hábito um processo gradual que exige empatia e diálogo. A comunicação não assume tom impositivo, mas educativo.
A estratégia tem base clara: ampliar a fatia de mercado de alternativas de menor impacto climático.
O papel do consumidor na transição
Durante a entrevista, Talita Martins destacou a importância do poder de consumo como ferramenta de transformação.
A disposição do consumidor em pagar um pouco mais por produtos sustentáveis tende a aumentar à medida que há maior compreensão sobre impacto e externalidades ambientais.
“O consumo é uma decisão diária. Se cada pessoa usar esse poder a favor do meio ambiente, conseguimos acelerar a transição”, conclui Mariana.
Empresas como parte da solução
A conversa reforça um ponto central do debate ESG: as empresas têm responsabilidade significativa na crise climática, mas também capacidade proporcional de liderar soluções.
Ao integrar cálculo de pegada de carbono, logística reversa estruturada, inclusão social e comunicação transparente desde o nascimento da marca, a Nude demonstra que sustentabilidade pode ser estratégia e não apenas obrigação.
No cenário de descarbonização global e discussões ampliadas em fóruns como COP e G20, iniciativas como essa ajudam a trazer o debate do plano diplomático para a decisão cotidiana do consumidor.
A transição energética e climática não acontece apenas nas grandes conferências internacionais ela começa na prateleira do supermercado.
Leite vegetal, pegada de carbono e consumo consciente: Nude aposta na transparência climática como estratégia de mercado










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