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Fazendas solares no Arkansas mostram que energia limpa e biodiversidade podem crescer juntas

Pesquisas conduzidas pela Universidade do Arkansas indicam que projetos solares bem planejados podem se tornar aliados da conservação ambiental e da agricultura local.


Fazendas solares no Arkansas mostram que energia limpa e biodiversidade podem crescer juntas
Fazendas solares no Arkansas mostram que energia limpa e biodiversidade podem crescer juntas

A energia solar vive uma fase de expansão acelerada nos Estados Unidos. Dados da Administração de Informação Energética dos EUA (EIA) indicam que quase 70 GW de nova capacidade solar devem entrar em operação em 2026 e 2027, um crescimento de 49% em relação ao final de 2025. O avanço é essencial para a descarbonização da matriz energética, mas reacende um debate recorrente: como ampliar a geração renovável sem pressionar terras agrícolas e ecossistemas naturais?


Pesquisas recentes realizadas no estado do Arkansas sugerem que a resposta passa por um conceito cada vez mais relevante no setor: a agrivoltaica, ou o uso duplo do solo para produção de energia e atividades ambientais ou agropecuárias.


Uso duplo do solo: energia, agricultura e vida selvagem

Parques solares de uso duplo são projetados para gerar eletricidade ao mesmo tempo em que apoiam outras funções, como pastoreio de animais, restauração de habitats e proteção de polinizadores. Quando bem planejados, esses projetos reduzem custos operacionais, melhoram a saúde do solo e criam áreas favoráveis à biodiversidade.


Um dos exemplos mais emblemáticos é a Fazenda Solar Happy, localizada no Condado de White, no Arkansas. Com 95 MW de capacidade instalada, o projeto fornece energia suficiente para cerca de 21 mil residências. O diferencial está no manejo do solo: sob e ao redor dos painéis, foram plantadas flores silvestres nativas, essenciais para borboletas-monarca e outros polinizadores.


Durante os meses mais quentes do ano, ovelhas de produtores locais pastam entre as fileiras de painéis, controlando a vegetação de forma natural. A prática reduz o uso de máquinas, diminui custos de manutenção e devolve nutrientes ao solo, criando um ciclo virtuoso entre energia, agricultura e meio ambiente.


Projetos solares como ativos de conservação

O potencial ambiental desses projetos motivou a Universidade do Arkansas a iniciar um dos estudos mais abrangentes já realizados sobre biodiversidade em usinas solares. A pesquisa envolve cerca de 90 projetos solares no Arkansas e em estados vizinhos, analisando a presença de mamíferos, aves, insetos, anfíbios e répteis.


Entre as espécies registradas estão animais raros ou ameaçados, como o texugo-americano, o maçarico-do-campo, a tartaruga-de-caixa-ornamentada, o lagarto-de-vidro-esguio e a borboleta-monarca. A Fazenda Solar Happy é um dos principais objetos de estudo, justamente por combinar vegetação nativa com pastoreio controlado.


Os pesquisadores comparam três cenários:

  • usinas com vegetação nativa e manejo ecológico;

  • usinas tradicionais, com gramíneas ou cascalho;

  • áreas agrícolas convencionais semelhantes às condições anteriores à instalação dos projetos.


O objetivo é gerar dados robustos que orientem políticas públicas, licenciamento ambiental e decisões de investidores, superando análises pontuais ou limitadas a poucas espécies.


Por que o Arkansas virou laboratório natural

O Arkansas reúne características estratégicas para esse tipo de estudo: alta disponibilidade solar, grandes extensões agrícolas e expectativa de forte crescimento de projetos solares nos próximos anos, especialmente na região do Delta do Mississippi. As decisões tomadas agora podem influenciar a paisagem rural e a biodiversidade local por décadas.


Segundo os pesquisadores, os resultados obtidos no estado podem servir de referência para outras regiões agrícolas dos Estados Unidos com características semelhantes.


Benefícios que ultrapassam os limites da usina

Os ganhos ambientais não ficam restritos às cercas dos parques solares. A presença de polinizadores pode beneficiar culturas agrícolas vizinhas, melhorando a produtividade e auxiliando no controle natural de pragas. Em períodos do ano em que flores são escassas nas lavouras, os parques solares com vegetação nativa funcionam como refúgios ecológicos, fortalecendo populações de insetos e aves.


Há também impactos positivos no nível comunitário. Projetos de uso duplo geram empregos sazonais, criam oportunidades educacionais para escolas e universidades e melhoram a aceitação social dos empreendimentos, substituindo áreas visualmente homogêneas por paisagens mais diversas e integradas ao território.


Para proprietários rurais, receitas adicionais com pastoreio e a redução de custos de manutenção representam um aumento real no valor dos contratos de arrendamento.


Um caminho para escalar a energia solar de forma responsável

Especialistas defendem que o planejamento para uso duplo do solo seja incorporado desde a fase inicial de avaliação dos projetos. Isso inclui altura adequada dos painéis, cercamentos compatíveis com a fauna local, contratos de operação que prevejam monitoramento ambiental contínuo e parcerias com universidades e organizações de conservação.


Mais do que gerar eletricidade, a nova geração de parques solares pode contribuir para paisagens rurais mais resilientes, conciliando transição energética, conservação ambiental e desenvolvimento econômico.


A experiência do Arkansas reforça que a expansão da energia solar não precisa ocorrer às custas da natureza. Com planejamento técnico e decisões baseadas em evidências, a agrivoltaica deixa de ser exceção e passa a representar um novo padrão para o setor.


Fazendas solares no Arkansas mostram que energia limpa e biodiversidade podem crescer juntas

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