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A Nova Fronteira da Geração Distribuída: O Armazenamento como Ativo de Infraestrutura e a Abertura do Mercado Livre

A Nova Fronteira da Geração Distribuída: O Armazenamento como Ativo de Infraestrutura e a Abertura do Mercado Livre
A Nova Fronteira da Geração Distribuída: O Armazenamento como Ativo de Infraestrutura e a Abertura do Mercado Livre

A Geração Distribuída (GD) no Brasil vive um ponto de inflexão. O modelo de sucesso que impulsionou o país a ultrapassar a marca de 30 GW de capacidade instalada em GD solar, baseado quase exclusivamente na lógica de "instalar e injetar" (net metering), começa a esbarrar em limites físicos e regulatórios. A saturação de subestações, a inversão de fluxo de potência e o fim do período de vacância da Lei 14.300/2022 exigem uma evolução rápida do setor. O próximo ciclo de crescimento e rentabilidade não virá apenas da expansão da capacidade de geração, mas da flexibilidade e da inteligência na gestão da energia. É neste cenário que os Sistemas de Armazenamento de Energia em Baterias (BESS) deixam de ser uma promessa tecnológica para se tornarem o ativo de infraestrutura essencial da nova GD e do Mercado Livre de Energia.


O desafio da inversão de fluxo, onde o consumidor injeta energia excedente na rede em volumes que invertem o fluxo tradicional da distribuição, tornou-se uma barreira real para novas conexões. Como apontado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), a inversão de fluxo é um desafio natural da GD que exige regulação inteligente. A solução técnica mais imediata e eficiente para mitigar esse problema localmente é o armazenamento. Baterias permitem que a energia gerada no pico de insolação seja guardada e consumida (ou injetada) em horários de maior demanda, aliviando a rede e destravando projetos que, de outra forma, seriam inviabilizados pelas distribuidoras.


Além de resolver gargalos de conexão, o BESS viabiliza novos modelos de negócio para consumidores do Grupo A (alta tensão), especialmente com a recente abertura do Mercado Livre de Energia para todos os consumidores de alta tensão. A arbitragem de ponta (Time-of-Use) e o peak shaving (corte de pico de demanda) oferecem retornos financeiros tangíveis, protegendo operações críticas contra interrupções e reduzindo a exposição a tarifas elevadas nos horários de maior consumo. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) já reconhece que, com resposta rápida, um sistema BESS consegue evitar interrupções e melhorar a confiabilidade do sistema elétrico como um todo.


No entanto, para que o armazenamento cumpra seu papel transformador na GD e no Mercado Livre, o Brasil precisa superar barreiras regulatórias e tributárias urgentes. Destaco dois pontos críticos que exigem atenção imediata:


1. A Indefinição Regulatória do BESS e os Serviços Ancilares

Ainda carecemos de regras claras e definitivas da ANEEL sobre a injeção de energia armazenada, a hibridização de usinas na GD e a possibilidade de recursos distribuídos prestarem serviços ancilares à rede. A Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR) tem defendido ativamente que a regulamentação do armazenamento é a solução para o curtailment e para destravar investimentos que podem superar R$ 200 bilhões. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) já foi autorizado a contratar serviços ancilares para controle de tensão, mas a participação de sistemas BESS distribuídos nesses mercados ainda carece de um arcabouço claro. Sem um marco regulatório que defina como a bateria interage com a rede, o risco jurídico afasta o capital.


2. A Barreira Tributária, a Bitributação e o REIDI

O modelo tributário atual penaliza a eficiência. A incidência de ICMS, PIS e COFINS sobre a energia que entra e sai da bateria (bitributação) destrói a viabilidade econômica de muitos projetos. É imperativo que o BESS seja reconhecido e tributado como um ativo de infraestrutura, não como um mero consumidor de energia. Avanços recentes, como a inclusão de projetos de armazenamento no REIDI pela Lei 15.269/2025, são passos na direção certa, permitindo a suspensão de PIS/COFINS para projetos de infraestrutura, mas a isenção e a clareza tributária (especialmente do ICMS) precisam alcançar a geração distribuída de forma ampla e definitiva.


Olhando para o cenário global e regional, a América Latina apresenta ritmos distintos. O Chile lidera a regulamentação de armazenamento na região, com regras claras de remuneração por capacidade e injeção, impulsionado pela necessidade de mitigar o curtailment solar no deserto do Atacama. A Colômbia e o México também avançam, impulsionados pela necessidade de confiabilidade e resiliência de suas redes. A China, por sua vez, tem ajustado ativamente suas políticas de exportação, como o recente cancelamento de subsídios e impostos de importação para módulos e baterias, o que impactará a dinâmica de preços globais a partir de 2026. Para o Brasil e a América Latina, isso reforça a necessidade de uma estratégia regional robusta. A viabilidade de montagem local ou regional (como o uso do sistema Maquila no Paraguai para atender o Mercosul) pode ser uma alternativa estratégica para reduzir custos logísticos e proteger o mercado de flutuações internacionais.


O armazenamento não é o futuro da Geração Distribuída e do Mercado Livre; é o presente necessário para destravar os próximos gigawatts de energia limpa no Brasil. Reguladores, legisladores e o mercado precisam alinhar as regras à realidade tecnológica. A bateria é a chave para transformar a GD de um modelo passivo de injeção para um sistema ativo, inteligente e essencial para a segurança energética do país.


Daniel Pansarella é executivo com vasta experiência no setor de energia solar, especializado em tributação, logística, cadeia produtiva de equipamentos e desenvolvimento de negócios para equipamentos solares nos mercados brasileiro e latino-americano. Atualmente, atua como Public Affairs & Business Developer Latam na Trina Solar, uma das principais fabricantes de módulos fotovoltaicos, Trackers e Storage do mundo. É também Vice-Presidente de Cadeia Produtiva do Conselho da ABSOLAR (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), Diretor do Derex-FIESP e Conselheiro de empresas como Brasol (Siemens e BlackRock), Greener e Pacto Energia. Com histórico como professor de comércio exterior e negociações internacionais, atua na intersecção entre estratégia de mercado, regulação e desenvolvimento de negócios na América Latina. Conheça mais em seu perfil no LinkedIn.


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