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- Mercado de eletrolisadores dispara e projeta salto para US$ 14,4 bilhões até 2031
O setor global de eletrolisadores entrou em uma fase de expansão sem precedentes, impulsionado pela corrida mundial para produzir hidrogênio de baixo carbono em larga escala. Novos levantamentos analisados pelo EnergyChannel indicam que o mercado, estimado em cerca de US$ 2 bilhões em 2025 , deve alcançar US$ 14,48 bilhões até 2031 , avançando a uma taxa anual média próxima de 38% . Mercado de eletrolisadores dispara e projeta salto para US$ 14,4 bilhões até 2031 O movimento reflete uma combinação de fatores estratégicos: maior demanda da indústria pesada, integração com parques renováveis, metas de descarbonização e o surgimento de grandes hubs de hidrogênio em diferentes continentes. Tecnologias ganham escala e novos modelos avançam Entre as soluções disponíveis no mercado, os eletrolisadores alcalinos continuam liderando a adoção global. Trata-se da tecnologia mais consolidada, que combina custos competitivos e robustez para aplicações industriais que exigem produção contínua. Ao mesmo tempo, os sistemas PEM (Proton Exchange Membrane) ampliam sua presença, especialmente em operações que dependem de respostas rápidas a variações de energia como plantas conectadas a eólicas e solares e na fabricação de hidrogênio de alta pureza. A partir de 2025, um novo protagonista começa a ganhar destaque: a eletrólise AEM (Anion Exchange Membrane). Essa tecnologia híbrida combina elementos dos dois modelos tradicionais, prometendo eficiência semelhante aos eletrolisadores PEM com custos mais próximos dos sistemas alcalinos. A expectativa é que a AEM registre o crescimento mais acelerado da década, favorecendo aplicações distribuídas, pequenas plantas industriais e novos usos de hidrogênio voltados ao transporte. Europa acelera corredores de hidrogênio e puxa a demanda O continente europeu desponta como o mercado de expansão mais rápida. A região vive uma onda coordenada de projetos estruturantes, que inclui: corredores internacionais de hidrogênio , conectando países e polos industriais; instalações de armazenamento em larga escala ; novos distritos industriais preparados para hidrogênio verde ; incentivos públicos que vão desde licitações nacionais até Contratos por Diferença (CfDs) e programas estratégicos de financiamentos continentais. Iniciativas voltadas a combustíveis sintéticos para aviação, descarbonização do transporte marítimo e redes de aquecimento urbano também aceleram a procura por eletrolisadores no continente. Em resposta, fabricantes europeus expandem suas linhas de produção e implantam gigafábricas para atender à nova demanda. Competição global se intensifica com fusões e expansão industrial O avanço do hidrogênio verde tem estimulado movimentos estratégicos entre os principais fabricantes do setor. Empresas globais fortalecem portfólios tecnológicos, disputam contratos multibilionários e ampliam capacidades produtivas. Em 2025, um dos acontecimentos de maior impacto foi a expansão tecnológica da thyssenkrupp nucera , que incorporou novos ativos de eletrólise alcalina pressurizada, reforçando sua estratégia industrial e aumentando seu alcance em mercados emergentes. A John Cockerill também ampliou sua atuação internacional. Por meio da subsidiária asiática, firmou um acordo para acelerar projetos de hidrogênio e amônia na Ásia, reforçando um portfólio que já reúne dezenas de patentes e histórico de grande participação nas entregas globais de equipamentos alcalinos. Fabricantes como Siemens Energy, Nel e Cummins seguem adotando estratégias semelhantes, combinando parcerias, acordos industriais e expansões de fábricas para garantir presença relevante no novo cenário energético global. Um mercado decisivo para a economia do hidrogênio Com projeções robustas, evolução tecnológica acelerada e metas climáticas pressionando governos e empresas, o mercado de eletrolisadores passa a ocupar papel estratégico na transição energética. A capacidade global instalada até 2031 deverá definir não apenas o preço do hidrogênio verde, mas também a competitividade de setores como aço, fertilizantes, mineração, logística e transporte pesado. A corrida já começou e os próximos anos serão decisivos para determinar quem dominará a infraestrutura crítica da economia do hidrogênio. Mercado de eletrolisadores dispara e projeta salto para US$ 14,4 bilhões até 2031
- Grupo Potencial desenvolve projeto inédito no Brasil para tratamento de efluentes
Com investimento de R$ 120 milhões, o projeto é personalizado e único no país por integrar o reuso total da água tratada à geração de biogás, energia elétrica e vapor, em um modelo sustentável de alta eficiência Grupo Potencial desenvolve projeto inédito no Brasil para tratamento de efluentes O Grupo Potencial está implementando uma das primeiras Estações de Tratamento de Efluentes (ETE) do Brasil com circuito fechado completo de água e energia, um marco em inovação e sustentabilidade industrial. Com investimento de R$ 120 milhões, o sistema integrará as 14 fábricas do complexo agroindustrial em um modelo autossuficiente, que elimina o desperdício e reaproveita integralmente os recursos gerados no processo. Prevista para entrar em operação em dezembro de 2026, a estrutura atenderá a todo o parque industrial da companhia biodiesel, glicerina refinada, glicerólise, etanol e esmagadora de soja criando um circuito fechado totalmente automatizado e integrado, que além de reutilizar toda água tratada, ainda gera biogás, energia elétrica e vapor. “Desenvolvemos uma solução que não existe em nenhum outro lugar do Brasil, pois a partir da combinação de diversas tecnologias e um longo estudo, nós reprojetamos e criamos um sistema integrado para tratamento de efluentes complexos, gerados em múltiplas fábricas,”, explica Robson Antunes, Diretor de Operações do Grupo Potencial. A decisão de investimento surgiu da necessidade de ampliar a capacidade de tratamento dos efluentes diante da expansão do complexo industrial. “A empresa foi além do convencional. Transformamos uma demanda operacional em uma oportunidade de inovação sustentável. Nosso objetivo foi criar uma operação de economia circular, ao invés de apenas tratar e descartar, reaproveitamos tudo e ainda geramos energia limpa”, completa Antunes. Projeto idealizado internamente O projeto foi idealizado pela equipe técnica da Potencial Agro, reforçando o posicionamento da companhia em inovação e sustentabilidade. Por ser uma solução personalizada, o sistema alcançará um nível de tecnologia superior, com 100% de automação e integração entre os processos de água e energia. Embora não seja a maior estação em tamanho, é a primeira de seu tipo no Brasil a combinar, em um mesmo circuito diversas tecnologias, gerando o reuso integral da água, a produção de biogás, a cogeração de energia elétrica e a produção de vapor. O projeto está diretamente inserido na estratégia ESG do Grupo Potencial. Parte da energia gerada para abastecer todo o complexo industrial, será proveniente dessa nova tecnologia, fechando o ciclo de forma inteligente e sustentável. Zero desperdício O diferencial do projeto está na criação de um circuito fechado, onde nenhum recurso é perdido. Toda a água utilizada nas 14 fábricas será coletada e tratada em diversas etapas, como a oxidação avançada, lagoas anaeróbias, aeróbias, ultrafiltração, osmose reversa e eletrodeionização, até alcançar o nível de água ultrapura, retornando 100% ao processo produtivo. Durante o processo, o efluente passará por uma lagoa biodigestora anaeróbia de pressão negativa que irá gerar e captar o biogás, com potencial de geração de 8,8 milhões de Nm³ (metro cúbico normal) por ano. O biogás será destinado às caldeiras de alta pressão, substituindo parcialmente o gás natural e permitindo a cogeração de energia elétrica renovável, que alimentará o próprio complexo industrial. “Nossa solução é personalizada para tratar efluentes de 14 fábricas com características totalmente distintas. É uma complexidade técnica inédita e um exemplo real de sustentabilidade aplicada à indústria”, destaca Mariana de Sarges, gerente de Meio Ambiente do Grupo Potencial. Eficiência e rentabilidade A estação está projetada para tratar efluente com redução de até 90% de insumos químicos, quando comparada a estações de tratamento convencionais, além de ter uma produção de biogás superior ao padrão de mercado. O projeto apresenta uma solução sustentável, com viabilidade econômica comprovada e previsão de retorno financeiro em médio prazo (payback). Dessa forma, a ETE deixa de operar apenas como centro de custo e passa a desempenhar o papel de ativo estratégico para a companhia, contribuindo diretamente para o avanço das práticas ESG do Grupo Potencial. “É um marco para o setor. Conseguimos criar uma estação que une sustentabilidade e eficiência, reduzindo impactos ambientais e gerando valor econômico para toda a operação”, reforça Antunes. O projeto, que já está em fase de implantação, consolida o Grupo Potencial como referência em inovação, economia circular e gestão sustentável de recursos no agronegócio brasileiro. Grupo Potencial desenvolve projeto inédito no Brasil para tratamento de efluentes
- MAN dá passo decisivo para logística livre de carbono com frota própria de caminhões elétricos
A MAN Truck & Bus iniciou uma virada estrutural em sua cadeia logística ao começar a distribuir seus próprios caminhões utilizando, também, caminhões totalmente elétricos . Créditos: MAN A mudança marca um avanço relevante no processo de descarbonização da fabricante alemã e inaugura um novo modelo intermodal de transporte, no qual trens elétricos fazem o percurso principal e caminhões elétricos assumem o trecho final das entregas . Uma nova arquitetura logística na Europa O novo esquema, desenvolvido em parceria com a operadora logística VEGA International, combina o transporte ferroviário de longa distância com a distribuição elétrica no chamado “último quilômetro”. O sistema já opera semanalmente a partir do terminal ferroviário da VEGA em Rheine, no noroeste da Alemanha, cobrindo um raio de até 300 km em rotas totalmente livres de emissões locais . A etapa anterior o envio dos caminhões recém-fabricados da MAN na planta de Cracóvia, na Polônia, até o terminal ferroviário também ocorre por transporte elétrico sobre trilhos. Com isso, toda a cadeia fábrica, ferrovia e entrega final passa a ser realizada com tecnologias de baixa ou zero emissão. Escala crescente e impacto climático direto Após testes bem-sucedidos com unidades do modelo MAN eTGX , a VEGA iniciou a expansão plena de sua frota elétrica. O plano prevê a inclusão de 30 a 40 novos caminhões elétricos até o fim de 2026 , o que deverá reduzir aproximadamente 2.700 toneladas de CO₂ por ano apenas nesse segmento de operação. O volume transportado por ferrovia também vem crescendo. Desde 2023, a rota que conecta Cracóvia ao terminal de Rheine já levou mais de 11 mil caminhões por trilhos , evitando mais de 6 mil toneladas de CO₂ . Somando todas as rotas da rede ferroviária LionXpress responsável pelo despacho de veículos na Alemanha e Áustria a economia total supera 10,4 mil toneladas de emissões . VEGA acelera sua própria transição energética A VEGA, histórica parceira da MAN, pretende eletrificar toda a logística de distribuição de veículos comerciais até 2030 . Para isso, planeja investir pesado em: +10 caminhões elétricos ainda este ano +20 a 30 unidades adicionais em 2026 Rede própria de carregamento e parques solares em suas bases na Europa Migração gradual para veículos elétricos e modelos a hidrogênio O investimento total ultrapassa € 100 milhões entre infraestrutura, transição de frota e sistemas energéticos próprios. A empresa também adquiriu participação em uma produtora de hidrogênio verde para garantir acesso antecipado à tecnologia e ao combustível. Tecnologias que permitem a eletrificação total O avanço da logística carbono zero depende de soluções específicas. Entre elas: ✔ Sistema ferroviário de carga para caminhões até 4,2 metros de altura Desenvolvido pela VEGA, permite transportar caminhões e reboques em composições ferroviárias sem modificações estruturais. ✔ MAN eTGX com altura de quinta roda de 950 mm Uma característica rara em caminhões elétricos, que facilita o carregamento e o transporte de reboques e veículos novos. ✔ Infraestrutura de carregamento própria A VEGA está construindo hubs privados para reduzir a dependência de eletropostos públicos e aumentar a confiabilidade operacional. MAN amplia metas internas de descarbonização A eletrificação das entregas de caminhões novos é parte de uma estratégia maior. A MAN estabeleceu como objetivo reduzir 30% das emissões logísticas até 2030 , incluindo: distribuição de veículos, envio e reposição de peças, logística de entrada de componentes. A empresa também abriu licitações para eletrificar cerca de 40 rotas logísticas internas com caminhões elétricos a bateria nos próximos anos. Novo padrão de logística automotiva A integração de transporte ferroviário e caminhões elétricos reposiciona MAN e VEGA como referências na transição energética da cadeia automotiva europeia. O modelo demonstra que, com planejamento e infraestrutura, é possível eletrificar integralmente a movimentação de veículos um dos segmentos mais pesados e emissivos do setor de transportes. Para o mercado, a iniciativa aponta um novo padrão: logística limpa, intermodal, eletrificada e com expansão contínua . E, para a MAN, representa um passo sólido rumo a um portfólio industrial alinhado às metas climáticas globais. MAN dá passo decisivo para logística livre de carbono com frota própria de caminhões elétricos
- Noruega se aproxima da eletrificação total e registra novembro mais forte da história no mercado automotivo
A Noruega voltou a redefinir o padrão global de mobilidade elétrica ao registrar, em novembro, um volume histórico de novos carros emplacados praticamente todos 100% elétricos. Noruega se aproxima da eletrificação total e registra novembro mais forte da história no mercado automotivo Segundo levantamento do EnergyChannel, o país nórdico alcançou 19.899 novos registros no mês, sendo 19.427 totalmente elétricos, consolidando um dos maiores índices de eletrificação já vistos no mundo. O número representa 97,6% de participação dos elétricos nas vendas de carros de passeio. Noruega se aproxima da eletrificação total e registra novembro mais forte da história no mercado automotivo O avanço impressiona mesmo para os padrões noruegueses. O volume de veículos elétricos adicionados às ruas foi 8,5 mil unidades maior que em outubro e quase 8,5 mil acima do registrado em novembro do ano passado. A tendência deixa claro que a reta final de 2025 está sendo marcada por uma combinação rara de demanda aquecida, ofertas agressivas e um cenário de incertezas fiscais que têm acelerado a decisão de compra dos consumidores. Antecipação de compras impulsiona corrida pelos elétricos Nos bastidores do setor automotivo norueguês, empresas já vinham apontando um movimento crescente de consumidores antecipando a compra de seus veículos antes de mudanças previstas na política tributária do país. Além disso, campanhas promocionais mais agressivas e a maior oferta de modelos acessíveis vêm ampliando o apelo dos elétricos junto a novos perfis de consumidores. Analistas ouvidos pelo EnergyChannel afirmam que esse conjunto de fatores tem potencial para manter o ritmo elevado também em dezembro, tradicionalmente um mês de forte emplacamento na Noruega. Tesla domina o mercado e quebra recordes anuais Entre todas as marcas que cresceram em novembro, uma delas assumiu papel central: a Tesla. A fabricante norte-americana registrou 6.215 novos veículos no mês e garantiu uma fatia de 31,2% do mercado o melhor resultado em anos e suficiente para colocar a empresa como protagonista absoluta do avanço norueguês em 2025. Com 28.606 carros emplacados no acumulado do ano, a Tesla já superou seu recorde histórico e ultrapassou inclusive marcas alcançadas anteriormente por tradicionais fabricantes europeias. Caso dezembro mantenha o ritmo observado, o país poderá ver a Tesla superar a barreira inédita de 30 mil unidades em um único ano. Logo atrás no ranking de marcas mais vendidas aparecem Volkswagen, Volvo e BMW, todas com crescimento sólido em um país onde o domínio dos 100% elétricos já é praticamente absoluto. Model Y segue líder, mas Model 3 encurta distância No ranking de modelos, o Tesla Model Y continua como o veículo preferido dos noruegueses. Em novembro, foram 3.648 unidades registradas. No entanto, o Model 3 teve desempenho surpreendente, com 2.562 emplacamentos no mesmo mês, diminuindo consideravelmente a diferença entre os dois. Os modelos concorrentes também mostram disputa acirrada pelo topo do mercado elétrico: Volvo EX40: 916 unidades Volkswagen ID.4: 892 Volkswagen ID.7: 780 Volvo EX30: 774 Ford Explorer: 508 Skoda Elroq: 486 Skoda Enyaq: 420 BMW iX1: 418 Marcas chinesas como BYD, XPeng e MG não lideraram o ranking mensal, mas mantêm crescimento consistente ao longo do ano, sobretudo no segmento de SUVs médios, um dos mais competitivos do país. Mercado norueguês envia mensagem ao mundo Os números recordes de novembro reforçam a posição da Noruega como laboratório global da eletromobilidade um país que antecipa transformações que outros mercados devem vivenciar nos próximos anos. Com infraestrutura consolidada, incentivos e forte competitividade entre montadoras, o país mostra como políticas públicas e demanda popular podem acelerar a transição para uma frota praticamente livre de combustíveis fósseis. A expectativa agora é acompanhar se dezembro confirmará a tendência histórica e fechará 2025 com novos recordes, consolidando mais um capítulo da liderança mundial norueguesa na mobilidade elétrica. Noruega se aproxima da eletrificação total e registra novembro mais forte da história no mercado automotivo
- Energia “de graça” na Austrália
Por Daniel Lima – ECOnomista A Austrália se prepara para dar um passo ousado na democratização da energia limpa: vai obrigar as empresas de energia a oferecer eletricidade gratuita às residências durante 3 horas diárias, visando usar o excedente da capacidade solar e diminuir o uso do carvão e gás. A partir de julho de 2026, consumidores de Nova Gales do Sul, Austrália do Sul e parte de Queensland terão acesso a até três horas diárias de eletricidade gratuita, no período em que a geração fotovoltaica atinge seu pico. A intervenção é para aproveitar a produção de energia dos telhados solares de mais de 4 milhões das 11 milhões de residências do país que ultrapassou a produção combinada das usinas termelétricas a carvão. Energia “de graça” na Austrália Isso levou o preço da energia diurna em alguns momentos a ficarem negativos, já que as residências alimentadas por energia solar produzem mais energia do que consomem. O programa Solar Sharer, viabilizado por medidores inteligentes, busca ampliar os benefícios da energia solar para quem não dispõe de telhado próprio, permitindo que apartamentos e casas sem infraestrutura adequada aproveitem o excedente produzido pela vizinhança. Com custos de instalação significativamente baixos e uma taxa de adoção superior a um terço dos lares, o país consolida sua posição como referência mundial em políticas de incentivo à geração distribuída e gestão inteligente da demanda. Comparação entre Austrália (Solar Sharer) e Brasil Contexto regulatório e tarifário A Austrália avança com janelas de preço zero no meio do dia para capturar excedentes fotovoltaicos e deslocar consumo, algo que requer regras claras para tarifação dinâmica e medição inteligente. No Brasil, há pilotos de tarifa dinâmica e time-of-use em baixa tensão (como o “Conta Inteligente” de uma concessionária local), sinalizando um movimento semelhante, mas ainda em fase de teste e não universalizado. O debate regulatório sobre reformas tarifárias segue ativo, com medidas que podem alterar compensações e abrir espaço para preços por horário, aproximando o país de modelos com sinalização mais granular de custo e flexibilidade. Infraestrutura de medição e digitalização O Solar Sharer depende de medidores inteligentes para contabilizar e aplicar o preço zero com precisão. O Brasil iniciou diretrizes nacionais: há consulta pública para implantação de medidores inteligentes e uma portaria normativa que estabelece a digitalização das redes, com meta de substituição de medidores até 2035 e implantação inicial em cerca de 4% das unidades consumidoras. Essa infraestrutura é condição para ampliar tarifas horárias, resposta da demanda e controle de cargas, viabilizando políticas semelhantes às australianas. Adoção de geração distribuída e impactos no sistema Ambos os países têm forte penetração de solar distribuída. No Brasil, a GD ultrapassou 40 GW em 2025, com crescimento acelerado e milhões de sistemas conectados, tornando-se grande força de adição de capacidade e com expansão empresarial relevante (2 GW corporativos adicionados em 2025 e R$ 9 bilhões investidos). O setor reconhece benefícios, mas também aponta desafios técnicos: excesso diurno, controle descentralizado e risco operacional, o que tem impulsionado a aposta em armazenamento como complemento à GD. Isso reforça que políticas de preço zero no meio do dia precisam vir acompanhadas de mecanismos de proteção e de flexibilidade. Energia “de graça” na Austrália Viabilidade de um “Solar Sharer” à brasileira Pré-requisitos técnicos: medidores inteligentes, telemetria e plataformas de tarifação dinâmica integradas às distribuidoras, além de automação residencial e empresarial para sincronizar cargas com preços por horário. Alinhamento regulatório: evolução de modelos tarifários da ANEEL e diretrizes do MME para preços temporais mais granulares, garantindo aderência com metas de modernização da rede e segurança do sistema. Integração de armazenamento e GD: incentivar baterias distribuídas e soluções de agregadores de demanda para suavizar rampas vespertinas e reduzir riscos de blecautes; o setor já aponta armazenamento como peça-chave para mitigar o excesso diurno. Oportunidades para empresas e consumidores Empresas: capturar valor com tarifação dinâmica, otimização de curvas de carga, projetos híbridos (FV + BESS), contratos flexíveis e resposta da demanda. A penetração de GD e a digitalização criam espaço para agregadores e serviços de energia baseados em dados. Consumidores: reduzir contas ao deslocar uso para o meio do dia; com medidor inteligente, automação e aparelhos programáveis, a sincronia com janelas baratas ou grátis potencializa a economia, replicando a lógica australiana. Riscos e mitigadores Risco sistêmico: concentração de geração solar e rampas de fim de tarde. Mitigação: armazenamento distribuído, controle de cargas, incentivos a deslocamento para horários não críticos e coordenação com o ONS e distribuidoras. Risco regulatório: incerteza sobre compensações e desenho de tarifas. Mitigação: contratos bem estruturados, cláusulas de ajuste, monitoramento regulatório contínuo e participação em consultas públicas. Risco de adoção: custo de medidores e automação. Mitigação: programas de financiamento e subsídios direcionados, priorizando regiões com alta penetração de GD. Recomendações práticas para um piloto no Brasil Selecionar áreas com alta GD e rede preparada: escolher concessões com maior penetração solar e Infraestrutura AMI (Advanced Metering Infrastructure) que é um sistema de medição avançada que permite comunicação bidirecional entre concessionárias de energia e consumidores, coletando e analisando dados de consumo em tempo real, garantindo medição e faturamento horários confiáveis. Definir janelas de preço zero moduláveis: começar com 2–3 horas no meio do dia e ajustar conforme excedentes e condições de rede, com sinalização prévia aos consumidores. Incentivar automação e cargas flexíveis: parcerias com fabricantes de EVs, bombas de calor, boilers elétricos e controles IoT para facilitar programação de consumo nas janelas grátis. Integrar armazenamento distribuído: incluir baterias em residências e comércios com remuneração por serviços de flexibilidade, reduzindo rampas e agregando estabilidade. Monitorar impactos e publicar métricas: economia média por unidade, redução do pico noturno, perdas técnicas e qualidade de serviço; usar resultados para escalar políticas e ajustar tarifas. Energia “de graça” na Austrália A experiência australiana com o programa Solar Sharer mostra que políticas de tarifação dinâmica e janelas de preço zero podem transformar excedentes solares em benefício coletivo, democratizando o acesso à energia limpa e reduzindo pressões sobre o sistema elétrico. Ao deslocar o consumo para o meio do dia, quando a geração fotovoltaica é abundante, o país não apenas diminui a dependência de fontes fósseis no período noturno, mas também fortalece a integração entre geração distribuída, automação e digitalização da rede. No Brasil, o potencial é igualmente promissor. A elevada penetração da geração distribuída, somada ao avanço gradual da infraestrutura de medição inteligente (AMI), cria condições para pilotos que testem tarifas horárias e períodos de energia gratuita. A adoção de automação residencial e empresarial, aliada ao armazenamento distribuído, pode ampliar a flexibilidade e garantir estabilidade ao sistema. Portanto, replicar iniciativas semelhantes no Brasil não é apenas viável, mas estratégico: abre caminho para uma transição energética mais justa, eficiente e competitiva. Com planejamento regulatório, incentivos à digitalização e integração de tecnologias, o país pode transformar o excedente solar em vantagem econômica e social, redefinindo o papel do consumidor como protagonista da modernização elétrica. Sobre o autor: Economista com MBA em Arquitetura, Construção e Gestão de Construções Sustentáveis, Daniel Lima construiu uma carreira plural e estratégica, atuando nos setores público, privado e terceiro setor. Com ampla experiência em projetos sustentáveis e captação de recursos nacionais e internacionais, Daniel se destacou como Coordenador Geral do PRODETUR Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste, onde liderou iniciativas de impacto regional. Atualmente, é especialista e consultor em energia solar e armazenamento de energia, Diretor da GVD Energia, CEO da Agrosolar Investimentos Sustentáveis, e Conselheiro da Energia Verde do Brasil EVBIO, contribuindo para a transição energética e o fortalecimento da economia verde no país. Seu trabalho une visão econômica, inovação tecnológica e compromisso ambiental pilares essenciais para um futuro mais justo e sustentável. Energia “de graça” na Austrália
- Schneider Electric conquista Selo Sesi ODS 2025 por iniciativa de capacitação profissional com o SENAI
Parceria treina milhares de jovens em energia, automação e sustentabilidade e promove inclusão e Schneider Electric conquista Selo Sesi ODS 2025 por iniciativa de capacitação profissional com o SENAI São Paulo, dezembro de 2025 – A Schneider Electric , líder global em tecnologia de energia, e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) foram contemplados com o Selo Sesi ODS 2025 pelo projeto desenvolvido em conjunto chamado “Acesso a Treinamento - SENAI e Schneider Electric”, em reconhecimento ao impacto social e educacional da iniciativa e às boas práticas de ESG. No Brasil, o programa integra a estratégia global da Schneider Electric de expandir o acesso à educação técnica e à capacitação em energia. A companhia superou a meta de treinar 1 milhão de pessoas em gestão de energia em todo o mundo, tendo alcançado o objetivo com dois trimestres de antecedência. Na América do Sul, mais de 185 mil pessoas foram qualificadas, das quais 119 mil no Brasil, graças a uniões com instituições como SENAI, ETECs, CEAP, AFESU, UNILINS e Enactus, contribuindo para a empregabilidade e inclusão de pessoas de diferentes contextos sociais. “Nossa trajetória ao lado do SENAI já impactou milhares de pessoas no Brasil em cursos práticos de energia e automação, inclusive em comunidades ribeirinhas do Amazonas por meio do Barco Escola Samaúma, que leva formação técnica e laboratórios modernos a regiões de difícil acesso” , afirma Karolina Gutiez, gerente Sênior de Comunicação, Relações Institucionais e Sustentabilidade da Schneider Electric na América do Sul. O diretor geral do SENAI, Gustavo Leal, destaca que essa conquista mostra o potencial de parcerias que unem tecnologia, educação e impacto social: “Essa iniciativa amplia o alcance da formação profissional em energia e automação e nos permite levar qualificação para públicos que, muitas vezes, estão distantes das oportunidades. Além disso, também reforça o nosso compromisso em preparar trabalhadores para as demandas da transição energética e para as habilidades verdes que já movem a indústria.” Desenvolvimento de talentos para a economia verde No contexto da transição energética, o programa também desenvolve green skills - as competências em energia limpa, automação, eletrificação e digitalização - essenciais para impulsionar a transição energética e ajudar a preparar profissionais para o mercado sustentável. A atuação de Rafael Segrera, presidente da Schneider Electric para a América do Sul, como chair do grupo “Empregos e Habilidades Verdes”, da Sustainable Business COP30 (SBCOP), reforça esse compromisso com o desenvolvimento de talentos para a economia verde. “Investir em habilidades verdes é fundamental - tanto que um estudo da SB COP indica que 20% das vagas ‘verdes’ ainda não foram preenchidas. Isso evidencia a lacuna existente entre demanda e oferta de talentos qualificados, bem como a importância de garantir que empresas e comunidades estejam prontas para os desafios do futuro” , acrescenta Gutiez. Sobre a Schneider Electric A Schneider Electric é líder global em tecnologia de energia, promovendo eficiência e sustentabilidade ao eletrificar, automatizar e digitalizar indústrias, empresas e residências. Suas tecnologias permitem que edifícios, data centers, fábricas, infraestruturas e redes funcionem como ecossistemas abertos e interconectados, aumentando desempenho, resiliência e sustentabilidade. O portfólio inclui dispositivos inteligentes, arquiteturas definidas por software, sistemas com inteligência artificial, serviços digitais e consultoria especializada. Com 160 mil funcionários e 1 milhão de parceiros em mais de 100 países, a Schneider Electric é constantemente reconhecida como uma das empresas mais sustentáveis do mundo . www.se.com Schneider Electric conquista Selo Sesi ODS 2025 por iniciativa de capacitação profissional com o SENAI
- COP30: Entre o autoengano coletivo e o despertar de uma nova ordem climática
A COP30, realizada em Belém, foi descrita por muitos como “a COP da verdade”. O rótulo não é gratuito: pela primeira vez, o encontro expôs de forma crua as contradições da governança climática mundial. COP30: Entre o autoengano coletivo e o despertar de uma nova ordem climática De um lado, governos que ainda se recusam a levar a sério os alertas do IPCC e que resistem a qualquer tentativa de traçar um “mapa do caminho” para o abandono dos combustíveis fósseis. COP30: Entre o autoengano coletivo e o despertar de uma nova ordem climática De outro, países e setores da sociedade civil que decidiram escancarar a desgovernança e denunciar o caráter ritualístico das COPs, vistas por críticos como rodadas anuais de autoengano coletivo. Mas reduzir a COP30 a esse embate seria simplificar demais. O evento, apesar das falhas logísticas problemas de infraestrutura em Belém, episódios de insegurança em manifestações que extrapolaram protocolos da ONU e até tormentas tropicais que atrapalharam a organização, conseguiu algo inédito: transformar o debate climático em pauta popular. O tema deixou de ser restrito a diplomatas e especialistas e passou a ocupar conversas em grupos de família, igrejas, ambientes de trabalho e até arquibancadas de futebol. Esse deslocamento do debate para o cotidiano é, por si só, um resultado histórico. O Brasil no centro da geopolítica climática A escolha de Belém como sede não foi apenas um gesto simbólico. Colocou o Brasil no centro da geopolítica climática, reforçando sua posição como potência verde mundial. A Amazônia, antes vista apenas como território a ser protegido, tornou-se ativo estratégico em negociações globais. O Brasil mostrou que pode ser ponte entre o Norte Global e o Sul Global, capaz de dialogar com Europa e Estados Unidos, mas também de liderar junto a Índia, China e países africanos. Esse protagonismo ocorre em um momento de transição da ordem mundial. A guerra comercial e a tensão de uma nova guerra fria reduziram o peso da Europa e dos EUA, enquanto Ásia, Brasil e África emergem como polos decisivos. A COP30 refletiu esse rearranjo: não há mais hegemonia única, mas uma disputa de narrativas e interesses que torna qualquer acordo mais delicado. Precificação de carbono: o preço da poluição Um dos pontos centrais das discussões foi a precificação do carbono. Para quem não está familiarizado, trata-se de colocar um “preço” sobre cada tonelada de dióxido de carbono (CO₂) emitida. A lógica é simples: se poluir custa dinheiro, empresas e governos terão incentivo para reduzir suas emissões. Existem dois mecanismos principais: • Taxa de carbono: funciona como um imposto. Cada tonelada de CO₂ emitida gera um custo direto. • Mercado de carbono: empresas recebem limites de emissão. Se poluem menos, podem vender créditos para outras que poluem mais. Na prática, porém, o sistema ainda é limitado. Até a primeira década deste século, apenas 5% das emissões globais estavam cobertas por algum tipo de precificação. Hoje, esse número subiu para cerca de 28%. É um avanço, mas ainda insuficiente. Além disso, os chamados “créditos de carbono” sofrem com problemas de credibilidade: muitos projetos que dizem compensar emissões não conseguem comprovar de fato o impacto. Estudos mostram que apenas 5% dos offsets avaliados são realmente confiáveis. A pegada de carbono de cada cidadão É comum pensar que precificação de carbono e metas climáticas dizem respeito apenas a governos e grandes empresas. Mas cada cidadão tem sua pegada de carbono — isto é, a quantidade de gases de efeito estufa emitida direta ou indiretamente por suas atividades diárias. • Transporte: andar de carro movido a gasolina ou viajar de avião aumenta significativamente a pegada. COP30: Entre o autoengano coletivo e o despertar de uma nova ordem climática • Alimentação: dietas ricas em carne vermelha têm impacto maior, devido às emissões da pecuária. • Consumo: roupas, eletrônicos e bens de consumo carregam emissões embutidas em sua produção e transporte. • Energia doméstica: uso de eletricidade proveniente de fontes fósseis também pesa na conta. Para ilustrar: • Família urbana de classe média: usa carro diariamente, viaja de avião uma vez por ano, consome carne regularmente e utiliza eletrodomésticos intensivamente. Sua pegada pode chegar a 10 toneladas de CO₂ por pessoa ao ano. • Família rural de baixo consumo: utiliza transporte coletivo ou bicicleta, consome alimentos locais e menos industrializados, tem menor acesso a eletrônicos. Sua pegada pode ser de 2 a 3 toneladas de CO₂ por pessoa ao ano. • Executivo globalizado: viaja de avião várias vezes ao ano, consome produtos importados e tem estilo de vida de alto consumo. Sua pegada pode ultrapassar 20 toneladas de CO₂ anuais. Esses exemplos mostram que a participação de cada pessoa nesse momento é decisiva. Não se trata apenas de esperar que governos criem políticas ou que empresas inovem. O cidadão comum pode reduzir sua pegada ao optar por transporte coletivo, bicicletas, energias renováveis, reciclagem e consumo consciente. Mais do que isso: quando a sociedade pressiona por mudanças, cria ambiente político favorável para que medidas estruturais sejam adotadas. Materiais críticos e a nova geopolítica Outro tema que ganhou força na COP30 foi a disputa por materiais críticos e terras raras, essenciais para tecnologias de baixo carbono. Painéis solares, turbinas eólicas, baterias de carros elétricos e sistemas de armazenamento dependem de minerais como lítio, cobalto, níquel e elementos raros como neodímio e disprósio. Esses materiais não estão distribuídos de forma homogênea pelo planeta. Alguns países concentram reservas estratégicas: • China domina a cadeia de processamento de terras raras, tornando-se peça-chave na transição energética. • África possui grandes reservas de cobalto e lítio, especialmente na República Democrática do Congo. • Brasil tem potencial em minerais críticos, além de sua matriz energética limpa. • Índia busca ampliar sua presença no mercado de baterias e tecnologias renováveis. Mas o interesse nesses materiais não se limita às tecnologias verdes. Eles também são usados na produção de armas de alta tecnologia, como foguetes, mísseis guiados e sistemas de defesa avançados. Essa dupla utilização aumenta ainda mais as tensões geopolíticas, pois países não disputam apenas o futuro energético, mas também o domínio militar. Quem controla o fornecimento de materiais críticos terá poder estratégico nas próximas décadas, tanto na economia quanto na defesa. Essa disputa por recursos já é parte da nova ordem mundial. Países começam a disputar territórios e influências onde esses materiais estão em abundância. A transição energética, portanto, não é apenas uma questão ambiental, mas também geopolítica. Críticas e contranarrativas As críticas à COP30 foram abundantes. Organizações ambientalistas afirmaram que o texto final não trata a crise como crise. Analistas apontaram que, sem um compromisso explícito de redução do uso de carvão, petróleo e gás, o mundo caminha para um aumento de temperatura de quase 3ºC até 2100 praticamente o dobro da meta de estabilização em torno de 1,5ºC. Outros denunciaram erros éticos na forma como se discute a abolição dos fósseis, acusando governos de proteger interesses econômicos em detrimento da sobrevivência planetária. No entanto, é preciso relativizar. Não houve descumprimento do Acordo de Paris em sua essência. O que se viu foi uma avalanche de desinformação e opiniões pobres, muitas vezes ideológicas ou movidas pelo medo da mudança. A essência do acordo permanece viva, mas precisa ser constantemente defendida contra a erosão da confiança pública. O dilema da humanidade O sucesso da COP30 não pode ser medido por manchetes ou opiniões avulsas. O verdadeiro teste será a implementação dos documentos e negociações nos próximos anos. A humanidade vive um momento decisivo: escolher entre ampliar impérios econômicos ou salvar o planeta. Os donos do poder precisam ouvir seus povos, não apenas movimentar engrenagens de dominação e colonialismo. A COP30 mostrou que não há mais como fugir da escolha. Ou seguimos presos ao rentismo fóssil, ou inauguramos uma era de cooperação global capaz de garantir futuro às próximas gerações. Fechamento analítico A COP30 foi criticada como mais uma rodada de promessas não cumpridas. Mas, ao abrir o debate para a sociedade, ao colocar China, Índia, Brasil e África no centro da geopolítica climática e ao refletir a transição para uma nova ordem mundial, ela cumpriu um papel essencial. O sucesso não está em decretos imediatos, mas em ter escancarado a urgência e a pluralidade da crise climática. Agora, é preciso dar vazão aos documentos e negociações e ver como se encaixarão neste momento delicado. A humanidade precisa decidir se continuará a ampliar impérios econômicos ou se terá coragem de salvar o planeta. A COP30 não foi um fracasso: foi o início de uma nova fase, marcada por pluralidade, tensões globais e pela centralidade dos emergentes como protagonistas da transição energética. COP30: Entre o autoengano coletivo e o despertar de uma nova ordem climática
- Curtailment no Brasil: O Paradoxo de cortar renováveis e acionar térmicas em pleno século XXI
Por Laís Victor – Especialista em energias renováveis e Diretora executiva de parcerias. O ano de 2025 marcou um novo capítulo para o setor elétrico brasileiro, revelando de forma ainda mais evidente o descompasso entre a rápida expansão da geração renovável e a capacidade do sistema de absorvê-la. Curtailment no Brasil: O Paradoxo de cortar renováveis e acionar térmicas em pleno século XXI Segundo os painéis públicos de operação do ONS, a geração eólica e solar alcançou patamares históricos de participação na matriz elétrica. Ao mesmo tempo, os próprios registros do operador mostram um aumento recorrente dos episódios de restrição de geração popularmente conhecidos como curtailment quando usinas renováveis precisam reduzir sua produção por limitações da rede. Os painéis oficiais do ONS mostram que, ao longo dos últimos anos, esses cortes deixaram de ser eventos pontuais e passaram a fazer parte da rotina do Sistema Interligado Nacional, especialmente em regiões onde a expansão da transmissão não acompanhou o ritmo acelerado da oferta renovável. Esse cenário contrasta com a vocação do país: de acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o Brasil possui uma das matrizes mais renováveis do mundo, com mais de 50% da geração elétrica nacional proveniente de fontes hidráulicas, solares e eólicas proporção que tem crescido ano após ano. O paradoxo se intensifica quando observamos que, mesmo em dias de elevada disponibilidade de vento e sol, o despacho térmico segue sendo acionado para garantir segurança operativa. Na prática, isso significa que o país convive simultaneamente com o aumento da capacidade renovável, a ampliação de restrições à sua utilização e o uso persistente de fontes mais caras e emissoras. Essa combinação revela um ponto de inflexão para o setor elétrico: o desafio já não é apenas expandir a geração limpa, mas garantir que o sistema esteja preparado para utilizá-la plenamente. E o avanço dos registros de curtailment agora documentados de forma transparente em plataformas oficiais torna impossível ignorar a necessidade de modernização estrutural do modelo brasileiro. O curtailment não revela excesso de energia — revela falta de planejamento É comum ouvir afirmações de que o Brasil já produz “energia demais”. Porém, estudos recentes de planejamento da transmissão conduzidos por EPE e ONS mostram o oposto: o sistema de transmissão não acompanhou a velocidade da expansão renovável, especialmente no Nordeste, região que concentra mais de 85% da potência eólica instalada no país. A Programação Anual de Estudos da Transmissão 2025, publicada pela EPE em conjunto com o ONS, já apontava como prioritários os reforços nos corredores de escoamento do Nordeste para o Sudeste, justamente pelo avanço mais rápido da geração renovável em relação à expansão da rede. Em paralelo, A Nota Técnica LRCAP/2025, elaborada por EPE e ONS, já indicava que a capacidade remanescente de escoamento em diversos corredores estratégicos estava próxima do limite, restringindo a entrada de novos projetos renováveis. Portanto, não sofremos de abundância. Sofremos de desalinhamento crônico entre expansão da geração e expansão da transmissão, um gargalo que distorce preços, aciona termelétricas desnecessariamente e penaliza o consumidor. Da MP 1.304 à Lei 15.269/2025: o que realmente muda para o curtailment A Lei 15.269/2025 representa um passo importante na modernização do setor elétrico ao ampliar a abertura gradual do mercado livre, reorganizar encargos setoriais e estabelecer diretrizes para novas tecnologias, como o armazenamento de energia. Também promove ajustes relevantes nas regras de comercialização do gás natural, compondo um novo arranjo estrutural para o setor. No entanto, quando o tema é curtailment, o avanço é bem mais limitado. O dispositivo que previa um mecanismo mais amplo de ressarcimento por restrição de geração foi vetado, mantendo o assunto no âmbito regulatório da ANEEL e, portanto, ainda sem solução clara ou definitiva. O recado é evidente: embora urgente, o problema dos cortes de energia renovável permanece sem tratamento legislativo específico. Em outras palavras, a Lei 15.269 moderniza partes essenciais do modelo elétrico, mas deixa intocado justamente o ponto que mais afeta a competitividade das fontes limpas. O curtailment segue sendo tratado como um efeito colateral da operação, e não como um risco estrutural que compromete investimentos, sinalização de longo prazo e a própria coerência da transição energética brasileira. Por que continuamos acionando térmicas mesmo com sobra de renováveis? Mesmo diante de sucessivos recordes de geração renovável, o Brasil segue recorrendo ao acionamento de térmicas um fenômeno que, à primeira vista, parece contraditório. Mas a explicação está em pilares estruturais do nosso modelo elétrico, concebido para uma realidade que já não existe. Grande parte das térmicas brasileiras opera sob contratos inflexíveis, que determinam sua utilização mesmo em momentos de baixa necessidade energética. Ou seja, ainda que haja abundância de vento e sol, compromissos contratuais obrigam o sistema a despachar usinas térmicas, independentemente de sua competitividade econômica naquele instante. O modelo atual de formação de preços, baseado predominantemente em um sinal de referência nacional, tende a suavizar diferenças regionais e, por isso, não reflete de forma clara os congestionamentos reais da rede especialmente nos corredores renováveis do Nordeste. Outro fator decisivo é a prioridade operativa atribuída aos recursos hidráulicos. Preservar reservatórios continua sendo um objetivo legítimo para a segurança energética, mas essa estratégia frequentemente implica reduzir a participação da geração renovável justamente nos horários de maior produção, abrindo espaço para o despacho térmico ou para o corte de eólicas e solares. O sistema ainda carece de instrumentos modernos de flexibilidade, como armazenamento em larga escala ou mecanismos de resposta da demanda. Sem essas ferramentas, a operação fica presa a soluções tradicionais que não conversam com a natureza variável e cada vez mais dominante da matriz renovável brasileira. O resultado é um arranjo que continua funcionando sob a lógica do século passado, enquanto a oferta de energia já opera em velocidade e complexidade próprias do século XXI. Esse desalinhamento gera ineficiências, aumenta custos e prejudica a plena integração das fontes limpas, criando um paradoxo energético que o Brasil precisa enfrentar com urgência. Baterias são parte da solução — mas não resolvem sozinhas O debate sobre armazenamento ganhou força à medida que o curtailment se tornou mais frequente no país. A Lei 15.269/2025 estabelece diretrizes para a regulamentação da atividade de armazenamento de energia, atribuindo à ANEEL a responsabilidade de desenvolver um arcabouço específico para esse tipo de recurso. No mesmo sentido, a Consulta Pública nº 39/2023 aprofundou a discussão sobre o papel das baterias na operação e no planejamento do sistema elétrico. Estudos oficiais, como o Caderno de Micro e Minigeração Distribuída e Baterias do PDE 2035, elaborado pela EPE, apontam que o armazenamento tende a desempenhar funções estratégicas nos próximos anos. Entre elas, a capacidade de reduzir cortes em horários de pico da geração solar, aliviar congestionamentos locais, contribuir para a estabilidade e qualidade da rede e habilitar novos modelos de negócio, especialmente em sistemas híbridos e soluções atrás do medidor. Mas o armazenamento não substitui, nem substituirá, a necessidade urgente de ampliar a infraestrutura de transmissão, revisar critérios de despacho e modernizar a formação de preços. Sem resolver as causas estruturais, as baterias se tornam apenas um paliativo caro. O que realmente está em jogo O avanço do curtailment no Brasil vai muito além de um desvio operacional: ele revela um ponto crítico da nossa trajetória energética. Não estamos desperdiçando apenas energia estamos desperdiçando oportunidade. Em um país com recursos renováveis abundantes e custo competitivo, torna-se evidente que o problema não é falta de oferta, mas falta de coerência entre o modelo que temos e o futuro que afirmamos querer liderar. Se quisermos, de fato, ocupar posição de protagonismo na transição global, precisaremos assumir escolhas mais maduras. Isso inclui ampliar a capacidade de transmissão, corrigir distorções que mantêm térmicas operando em pleno excedente renovável e construir regras transparentes para lidar com os cortes sem desestimular novos investimentos. Também será indispensável incorporar flexibilidade ao sistema por meio de armazenamento, soluções híbridas e mecanismos de resposta da demanda e modernizar a formação de preços para refletir a realidade de um sistema cada vez mais dinâmico. O Brasil já dispõe da energia que o mundo deseja. O que ainda falta é a coragem de ajustar o modelo para que essa energia seja usada de forma inteligente, eficiente e estratégica. O curtailment não é um acidente inevitável: é fruto de escolhas institucionais. E, justamente por ser resultado de decisões e não de limitações naturais pode e precisa ser corrigido. O Brasil tem condições de liderar a transição energética global, mas isso exige um modelo capaz de absorver toda a energia limpa que já produz. Sobre a autora Laís Víctor é especialista em energias renováveis e diretora executiva de parcerias, com 15 anos de atuação no setor de energia. Sua atuação inclui o desenvolvimento de negócios, estruturação de alianças estratégicas e apoio à atração de investimentos para projetos de transição energética, com foco na construção de ecossistemas sustentáveis e inovação no mercado global de renováveis. Curtailment no Brasil: O Paradoxo de cortar renováveis e acionar térmicas em pleno século XXI
- Portuária no Reino Unido aprovada para instalar 40MWp de energia solar flutuante
Um porto britânico acaba de dar um passo significativo rumo à transição energética: o Associated British Ports (ABP) obteve autorização para construir o que será o maior projeto de energia solar flutuante do Reino Unido. Portuária no Reino Unido aprovada para instalar 40 MWp de energia solar flutuante A instalação, chamada Barrow EnergyDock, será instalada no cais Cavendish Dock, no porto de Port of Barrow, na região de Cumbria. Projeto escala e formato O sistema contemplará cerca de 47 000 painéis solares montados sobre pontões flutuantes , cobrindo aproximadamente um terço da área aquática do cais . A potência instalada será de até 40 MWp o que, segundo os promotores, seria suficiente para abastecer um volume de eletricidade equivalente ao consumo anual de aproximadamente 14.000 residências . A opção por painéis flutuantes, em vez de solo, permite preservar o espaço terrestre do porto para operações portuárias e atividades industriais, ao mesmo tempo em que incorpora geração renovável de forma eficiente. Objetivos do Barrow EnergyDock A energia gerada será destinada, prioritariamente, ao setor industrial avançado localizado no porto com foco em reduzir o custo de eletricidade, diminuir emissões de carbono e aumentar a resiliência energética local. Além disso, a configuração flutuante não interfere nas atividades de lazer já existentes no cais e há previsão de que o espaço continue disponível para uso recreativo no futuro. Significado para setor portuário e energias renováveis O Barrow EnergyDock representa um marco importante para o mercado de solar flutuante no Reino Unido, elevando a escala desse tipo de instalação no país. A adoção desse formato evidencia um caminho que mistura infraestrutura portuária e geração limpa, agregando valor à cadeia logística e industrial sem comprometer o uso de terra algo especialmente interessante em áreas portuárias densas ou com uso intensivo do solo. Para o contexto mais amplo de energias renováveis, o projeto reforça a viabilidade das unidades de " floating-PV " como alternativa estratégica para expansão solar em regiões com restrições territoriais ou elevada ocupação portuária/industrial. Relevância para o Brasil e para leitores do EnergyChannel Para o Brasil e em especial para regiões com portos ou hidrovias intensas o exemplo de Barrow pode inspirar reflexões sobre a adoção de solar flutuante em docas, reservatórios e áreas aquáticas de uso industrial. Com a crescente demanda por energia limpa e pela descarbonização de setores como transporte, logística e indústria, modelos híbridos de infraestrutura energética + logística podem ganhar tração. Além disso, considerando os tópicos que você frequentemente aborda no EnergyChannel transição energética, sustentabilidade, inovação industrial o Barrow EnergyDock traz um excelente case internacional que ilustra convergência entre renováveis e infraestrutura portuária moderna. Portuária no Reino Unido aprovada para instalar 40MWp de energia solar flutuante
- Postos de Combustível se Reinventam: Corrida por Motoristas de Carros Elétricos Redesenha o Futuro das Paradas Rodoviárias nos EUA
À medida que os veículos elétricos se consolidam nas estradas norte-americanas, um novo movimento ganha força na tradicional rede de postos de combustíveis dos Estados Unidos: transformar o antigo “ pit stop ” de gasolina em um centro de recarga mais confortável, iluminado e preparado para receber motoristas que agora passam cerca de 20 a 30 minutos conectados a um carregador rápido. Postos de Combustível se Reinventam: Corrida por Motoristas de Carros Elétricos Redesenha o Futuro das Paradas Rodoviárias nos EUA O EnergyChannel acompanhou essa tendência e constatou que as grandes redes de conveniência antes conhecidas por seus sanduíches, cafés e corredores intermináveis de snacks avançam para disputar protagonismo também no abastecimento elétrico. Do Abastecimento Relâmpago ao Tempo de Permanência: A Nova Economia da Recarga Diferente do abastecimento com gasolina, onde o consumidor passa poucos minutos na bomba, o motorista de veículo elétrico permanece no local por muito mais tempo. Essa mudança estrutural criou uma nova métrica de sucesso para os varejistas: transformar a espera em consumo dentro da loja . A lógica é simples:✔ vender eletricidade não sustenta o investimento elevado em infraestrutura;✔ o lucro real está na experiência e nos itens que o cliente consome enquanto aguarda. Segundo análises de mercado observadas pelo EnergyChannel , a instalação de carregadores rápidos costuma custar mais de US$ 100 mil por unidade, enquanto a receita anual por carregador ainda é considerada baixa. Para equilibrar a equação, redes investem em banheiros mais limpos, ambientes iluminados, segurança 24 horas e cardápios de conveniência que funcionam como principal chamariz para o público. Redes Investem Pesado e Criam a Próxima Geração de Lojas de Conveniência Grandes varejistas estão remodelando suas unidades para oferecer: áreas de recarga com múltiplos carregadores rápidos; cafés e espaços de descanso; melhor sinalização noturna; maior sensação de segurança; operação 24/7. As redes que mais avançaram nesse modelo já instalaram centenas de pontos de carga e relatam um aumento constante no fluxo de clientes que chegam pela eletricidade e permanecem pelos produtos. Para esses operadores, o carregamento é apenas o começo a missão real é tornar a parada tão atrativa quanto uma cafeteria ou um pequeno restaurante. Corrida por Localização Estratégica e Infraestrutura Elétrica A geografia é crucial: postos tradicionais têm vantagem por já ocuparem pontos estratégicos de alto tráfego, perto de rodovias, serviços e centros urbanos. Mas o desafio vai além do terreno. As redes enfrentam: tarifas de energia instáveis; dificuldade de acesso a grande capacidade elétrica; custos iniciais elevados; necessidade de manutenção constante para evitar carregadores defeituosos, uma das maiores queixas dos motoristas. À medida que mais EVs entram no mercado, cresce a expectativa por estações confiáveis, bem iluminadas e fáceis de acessar e os consumidores estão menos tolerantes a equipamentos quebrados. Programas Federais e o Impasse no Avanço da Infraestrutura Pública O avanço dessas instalações também esteve fortemente ligado a programas nacionais de estímulo à mobilidade elétrica, que destinam bilhões para infraestrutura. Oscilações políticas recentes, no entanto, provocaram um ambiente de incerteza. Apesar disso, parte das grandes redes decidiu manter o ritmo de expansão, apostando que a demanda por recarga rápida em longas rotas continuará crescendo ao longo da próxima década. Carregamento em Casa Ainda Domina — Mas as Viagens Longas Exigem Paradas de Alto Nível Mesmo com o rápido crescimento da eletromobilidade, cerca de 80% dos carregamentos nos EUA continuam ocorrendo em casa . Porém, viagens intermunicipais e deslocamentos profissionais ampliaram a demanda por estações rápidas, especialmente em regiões rurais e estradas interestaduais. Nessas situações, o consumidor tende a priorizar três fatores: Confiabilidade – carregadores funcionais e disponíveis. Segurança e iluminação – principalmente no período noturno. Conveniência – banheiros limpos, comida boa e ambiente confortável. Ou seja: o posto que oferecer a melhor experiência durante os 20 minutos de recarga conquista o cliente, mesmo que não seja o preferido dele no dia a dia. Competição Direta com Redes de Carregamento Dedicadas Além das redes de conveniência, empresas especializadas em recarga rápida continuam expandindo suas operações. Juntas, essas companhias respondem por uma fatia importante do mercado, mas a disputa tende a se intensificar: os varejistas têm localização e comodidades melhores; as redes de recarga têm tecnologia e padronização superiores. A convergência desses dois mundos deve definir o formato da infraestrutura norte-americana de abastecimento elétrico. O Futuro das Paradas na Estrada: Café, Wi-Fi e Kilowatts Os postos de combustível estão em plena metamorfose. O que antes era um local para abastecer rapidamente e seguir viagem está virando um hub de conveniência, descanso e conectividade . A transformação é inevitável tanto pelo avanço dos EVs quanto pelas novas expectativas dos consumidores. No horizonte, especialistas do setor acreditam que as lojas de conveniência se tornarão ambientes mais próximos de cafés, pequenos mercados e pontos de encontro.A recarga será apenas um dos serviços oferecidos talvez o mais importante para atrair o cliente, mas certamente não o mais lucrativo. A competição já começou, e quem conseguir transformar a espera em experiência definirá o futuro das paradas rodoviárias nos Estados Unidos. Postos de Combustível se Reinventam: Corrida por Motoristas de Carros Elétricos Redesenha o Futuro das Paradas Rodoviárias nos EUA
- Precisamos despertar deste delírio coletivo
Por Renato Zimmermann Estamos vivendo um período de delírio coletivo. A realidade, antes compartilhada, parece ter se dissolvido em milhares de fragmentos digitais, cada um moldado por algoritmos que entregam conteúdos sob medida. É como se estivéssemos diante de uma nova Torre de Babel: não nos entendemos mais, não porque falamos línguas diferentes, mas porque habitamos universos paralelos de informação. A desinformação não é apenas ruído. É um processo sistemático de manipulação, que cria narrativas falsas ou distorcidas com objetivos políticos, econômicos ou ideológicos. As fake news são sua face mais visível: notícias fabricadas que circulam como se fossem verdadeiras. Mas a desinformação é mais profunda, estrutural, capaz de corroer democracias e afetar diretamente a saúde mental. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais no mundo, incluindo 14% dos adolescentes. A exposição contínua a informações falsas intensifica quadros de ansiedade e depressão, perpetua estigmas e dificulta o acesso a tratamentos. Esse fenômeno é global. O Fórum Econômico Mundial apontou a desinformação como uma das maiores ameaças globais para 2025, colocando-a no topo dos riscos de curto prazo, à frente de conflitos armados. A OCDE revelou que o Brasil é o país que mais cai em fake news no mundo, com 57% da população incapaz de identificar conteúdos satíricos ou sensacionalistas como falsos. Mas não estamos sozinhos: eleições nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina têm sido marcadas por campanhas de desinformação que fragilizam instituições democráticas. Retornei recentemente de Belém do Pará, onde participei da COP30. A cidade estava preparada, vibrante, e o povo, hospitaleiro. Em cada esquina, um sorriso, um agradecimento por estar ali. Mas, ao regressar, fui surpreendido por perguntas carregadas de preconceito: “Sobreviveu à COP?”, “Não inalou fumaça?”, “Aguentou o fedor da cidade?”. Essas frases revelam como narrativas distorcidas conseguem se instalar no imaginário coletivo. É frustrante perceber que, mesmo diante de uma experiência tão rica, a percepção de muitos foi moldada por informações enviesadas. Eis o poder da desinformação: ela cria imagens falsas que obscurecem a realidade. A COP30, apesar de seus problemas, foi um marco. Nunca mais uma conferência será a mesma depois de passar pelo Brasil. Havia uma harmonia palpável entre povos, culturas e idiomas. Bastava um olhar, um cumprimento, um sorriso para sentir que estávamos unidos por uma causa maior. Essa é a essência do encontro: trazer vozes diversas, da sociedade civil à iniciativa privada, para discutir o futuro do planeta. No entanto, os jogos de interesse tentam capturar o evento em narrativas que servem a agendas particulares. A pauta ambiental é um exemplo claro dessa disputa. Explosões solares podem afetar sistemas de comunicação e energia na Terra, mas são fenômenos cósmicos naturais. Diferente disso, a degradação ambiental causada por humanos é uma escolha ética. Não temos mais o direito de nos colocar como protagonistas absolutos. O planeta é anterior a nós, composto por uma biodiversidade que sustenta a vida em múltiplas formas. A histeria coletiva que vivemos, alimentada pela desinformação e pela ilusão de centralidade humana, nos impede de enxergar que somos apenas parte de um ecossistema maior. Estamos diante de um problema social sem precedentes. A desinformação não é apenas ruído; é uma força corrosiva que afeta saúde mental, democracia e convivência. Este texto não pretende trazer verdades absolutas, mas provocar reflexão. O autor não é dono da verdade, mas também não pode se calar diante de tanta futilidade e informações desencontradas. Precisamos reverter esse quadro. O despertar de consciência é urgente: reconhecer que vivemos em bolhas, que nossas percepções são manipuladas, e que só a busca coletiva por diálogo e ética pode nos tirar desse período de delírio coletivo.
- Baterias de grande porte redefinem o jogo da transição energética
Nas últimas semanas, o que se observa na Austrália expõe uma virada histórica: as baterias de grande escala antes vistas como coadjuvantes assumem hoje papel central na estabilidade e no futuro da rede elétrica, abrindo caminho para o fim da dependência de usinas a carvão. Baterias de grande porte redefinem o jogo da transição energética Recordes emblemáticos: baterias batem marcas de carga e oferta Na última quinta-feira, às 12h45, as baterias conectadas à rede atingiram um pico inédito de carga coletiva de 2,26 GW quase 20% acima do recorde anterior, divulgado apenas dois dias antes. Há um ano, esse valor mal chegava a 875 MW. Mesmo com a maior bateria do país uma instalação de 850 MW / 1680 MWh — fora de operação para manutenção, o volume de baterias em operação superou expectativas e demonstrou a robustez da estratégia. Além disso, durante picos de demanda noturna, as baterias chegaram a responder por 40% da energia fornecida em um momento no estado de South Australia onde a rede já é avançada no uso de renováveis. Nessa situação, as usinas a gás foram relegadas a um papel marginal. Baterias “formadoras de rede”: infraestrutura essencial para aposentar o carvão O verdadeiro divisor de águas está no uso crescente de baterias com inversores “grid-forming” ou seja, capazes de gerar sua própria forma de onda elétrica e fornecer serviços essenciais de estabilidade: controle de voltagem, resposta a falhas, inércia sintética e suporte de frequência. Segundo relatório de uma agência de fomento, com financiamento governamental, grande parte dos novos projetos de baterias já incorpora essa tecnologia transformando-as de simples reservatórios de energia em pilares da operação elétrica moderna. Para muitos operadores de rede, essa capacidade significa que as baterias não servem apenas como complemento à energia renovável, mas como a espinha dorsal de um sistema elétrico confiável garantindo que, mesmo com o desligamento de usinas a carvão, a rede continue segura. Da Austrália para o mundo: lições para a transição energética global O que ocorre hoje na Austrália um dos mercados de energia mais avançados do mundo serve como um case inspirador para outros países que buscam acelerar a transição energética. Baterias grandes, combinadas com renováveis intermitentes como solar e eólica, equilibram oferta e demanda, suavizando oscilações. O uso de baterias com tecnologia de “ grid-forming ” torna desnecessária a manutenção de usinas térmicas antigas apenas para prover segurança de rede reduzindo emissões e custos operacionais. O modelo permite escalabilidade rápida: baterias podem ser instaladas com mais agilidade e menor impacto ambiental que grandes usinas térmicas. O que isso significa para o Brasil e por que devemos observar de perto Mesmo com realidades distintas, o exemplo internacional reforça uma mensagem clara para o Brasil: o armazenamento de energia em larga escala é a peça que falta para consolidar a transição para matrizes limpas de forma confiável. Com a crescente penetração da energia solar e eólica em especial no contexto residencial, comercial e industrial, soluções de armazenamento podem ajudar a suavizar a intermitência, aumentar a confiabilidade da rede e dar suporte a apagões ou picos de demanda Além disso, o avanço de tecnologias como inversores “ grid-forming ” indica que, no futuro, baterias poderão entregar não só armazenamento, mas também estabilidade de rede eliminando a dependência de termelétricas e gerando mais flexibilidade para o sistema elétrico nacional. Para o Brasil, que vive um momento de expansão das renováveis e enfrenta desafios de infraestrutura, o desenvolvimento de políticas públicas e investimentos em armazenamento especialmente em sistemas híbridos (solar + bateria) pode acelerar uma transição energética mais limpa, eficiente e segura. A era das “big batteries” chegou. O recente recorde de carga e participação na oferta elétrica na Austrália, somado à adoção generalizada de baterias com tecnologia “grid-forming”, revela que o futuro da eletricidade não é só renovável, é também inteligente e confiável. O país mostra que é possível aposentar o carvão sem sacrificar a estabilidade da rede, e entrega ao mundo um modelo replicável: com armazenamento de energia de grande escala, rede forte e firmeza, a transição energética deixa de ser um sonho e se torna uma realidade concreta. Baterias de grande porte redefinem o jogo da transição energética











