O que telecom ensina ao setor elétrico brasileiro
- Marcelo Santos Rodrigues

- 23 de abr.
- 3 min de leitura
O setor elétrico brasileiro está diante da mesma escolha que telecom enfrentou. E ainda pode errar

Eu vivi essa transformação.
Comecei minha trajetória profissional no setor de telecomunicações ainda dentro de um modelo estatal, no final dos anos 1990, um ambiente marcado por restrição de investimento, baixa eficiência operacional e um distanciamento completo do cliente.
Naquele momento, infraestrutura era sinônimo de escassez. Ter uma linha telefônica não era trivial. Era caro, demorado e, muitas vezes, um ativo negociado no mercado paralelo.
Poucos anos depois, esse mesmo setor foi completamente redesenhado. A abertura de mercado trouxe novos entrantes; a tecnologia acelerou exponencialmente (mobile, internet, dados); e o cliente deixou de ser passivo para se tornar o centro da estratégia.
Eu acompanhei e participei dessa virada. E é exatamente por isso que afirmo: o que estamos vivendo hoje no setor elétrico brasileiro não é novo.
O setor elétrico está acumulando as mesmas tensões
Hoje, o setor elétrico caminha para um ponto de ruptura semelhante, não por falta de energia, mas por um modelo que começa a mostrar sinais claros de esgotamento.
Os sintomas já são evidentes:
tarifas pressionadas e de difícil compreensão;
encargos crescentes e pouco transparentes;
subsídios cruzados que distorcem o sistema;
aumento da percepção de risco sobre a confiabilidade da rede.
Em telecom, esse conjunto de fatores precedeu a ruptura. Na energia, estamos no mesmo estágio.
O erro clássico: defender o modelo em vez de preparar a transição
O Brasil já cometeu esse erro antes. Durante anos, tentou preservar um modelo de telecom que já não respondia à realidade. O resultado foi atraso.
No setor elétrico, o risco se repete: insistir em proteger o modelo atual ao invés de preparar o próximo.
A regulação ainda opera, em grande parte, com uma lógica defensiva, focada na estabilidade do sistema existente, e não na evolução do sistema futuro.
A descentralização já começou e não depende da regulação
Existe uma diferença relevante em relação ao passado. Agora, a tecnologia está do lado do cliente. Geração distribuída, baterias, digitalização e mobilidade elétrica estão avançando de forma concreta, muitas vezes à margem da lógica tradicional do setor.
O consumidor já investe em geração própria, busca previsibilidade de custo e procura alternativas à instabilidade da rede.
Em telecom, o ponto de ruptura aconteceu quando o usuário ganhou mobilidade. No setor elétrico, a virada começa quando o cliente ganha autonomia.
E essa autonomia tem um vetor claro: o armazenamento de energia.
A bateria permite:
reduzir dependência da rede;
arbitrar custo energético;
garantir resiliência;
tomar decisões ativas sobre consumo.
Isso desloca o centro do sistema.
A reação regulatória vai definir o ritmo ou travar o setor
Diante dessa transformação, o setor elétrico brasileiro tem duas opções:
Conter (criar barreiras, aumentar encargos e limitar modelos descentralizados) ou orquestrar (integrar novas tecnologias, ajustar sinais econômicos, redesenhar incentivos e reposicionar o papel das distribuidoras).
É uma escolha entre atraso / perda de eficiência e evolução estruturada / ganho sistêmico.
Quem paga a conta?
Hoje, a conta está concentrada onde sempre esteve: no cliente de baixa tensão, ou seja, nas residências, pequenos negócios e consumidores cativos.
Esse modelo cria um ciclo perigoso. Quanto maior o custo, maior o incentivo à saída parcial do sistema. E isso já está ocorrendo.
A bateria não é complemento é ruptura
Um erro recorrente na leitura do setor é tratar a bateria como uma tecnologia acessória.
Não é. Ela é uma ruptura estrutural. Assim como o celular foi para telecom, a bateria redefine o modelo de negócio, a relação com o cliente, o fluxo de valor do sistema e, principalmente, quem controla a decisão energética.
O setor elétrico sempre foi estruturado de forma vertical, mas a próxima fase será horizontal e competitiva.
A disputa será por relacionamento, dados, fidelização e experiência.
A unidade consumidora deixa de ser passiva e passa a ser estratégica.
O Brasil ainda pode escolher
A história não se repete mas se assemelha. O Brasil já viveu essa transformação em telecom. Demorou a reagir, pagou o preço, mas evoluiu.
Agora, no setor elétrico, a janela de decisão está aberta e a mudança não é opcional. A única variável é se será liderada ou forçada.
Se o sistema não se adaptar, o mercado fará isso por conta própria. E, nesse caso, o custo será maior.
Jarlan Lopes é engenheiro, pesquisador e estrategista no setor de energia, com especialização em gestão de energia e uma década de experiência prática, homologando novas tecnologias de lítio ou compartilhando conhecimento técnico que gera resultados reais.
Marcelo Rodrigues é sócio da MR Partners e da EnergyTech 2EX, além de conselheiro da UCB Power e cofundador da ABSAE. Acumula mais de 30 anos de experiência em estratégia, inovação, liderança e desenvolvimento de negócios nos setores de energia, tecnologia e infraestrutura.
O que telecom ensina ao setor elétrico brasileiro









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