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Feriados em dias úteis já não podem ser lidos apenas como dias de carga menor

Essa análise foi criada ao realizar um recorte exploratório entre 25/04 e 03/05/2026, justamente para avaliar o movimento no feriado de 1º de maio e isso ajuda a ilustrar uma mudança importante na leitura da operação do sistema elétrico brasileiro, em um sistema com maior presença de geração solar, o desafio não está apenas no nível absoluto da carga, mas na velocidade da recomposição entre o vale diurno (horário solar) e a ponta.


Feriados em dias úteis já não podem ser lidos apenas como dias de carga menor


Eu poderia fazer uma leitura inicial simples, no feriado de 1º de maio, a carga caiu. Só que isso é esperado. Feriados tendem a reduzir parte da atividade econômica, industrial, comercial e alterar o padrão de consumo. Mas a curva horária mostra algo mais relevante.

O 01/05 teve carga de dia não útil, mas uma dinâmica de recomposição no fim da tarde muito intensa. Em outras palavras, o feriado não se comportou simplesmente como um domingo clássico. Ele formou uma curva híbrida de carga baixa no vale, mas recomposição forte no trecho em que a geração solar perde força e a demanda volta a subir.

Quando ampliamos o recorte para incluir o sábado e o domingo posteriores ao feriado, a leitura fica ainda mais interessante já que 01/05 não aparece como um caso isolado. Ele passa a fazer parte de uma sequência em que os dias não úteis apresentam menor nível de carga, mas rampas de recomposição muito relevantes no fim da tarde.

Essa distinção importa porque a operação do sistema não é explicada apenas pelo pico absoluto. Ela depende também da trajetória horária da carga, da composição da geração e dos recursos disponíveis para acomodar transições ao longo do dia.

O próprio ONS apresenta, na página de Carga e Geração do Energia Agora, dados de carga, geração hidráulica, térmica, eólica, solar, nuclear, importação e exportação. A página também informa que a carga global passou a considerar geração não supervisionada a partir de 02/03/2021 e MMGD a partir de 29/04/2023, com o objetivo de retratar de forma mais fiel a carga total do sistema.


O que o feriado mostrou, e o domingo confirmou


Foram comparadas seis referências nessa avaliação, a média do final de semana anterior de 25 a 26/04, a média dos dias úteis de 27 a 29/04, a véspera de 30/04, o feriado de 01/05, o sábado pós-feriado de 02/05 e o domingo pós-feriado de 03/05.


Curva analisada

Carga mínima

Carga máxima

Amplitude diária

Rampa 14h p/ 18h

Rampa 17h p/ 18h

Média 25 a 26/04 (final de semana)

68,6 GW

92,1 GW

23,5 GW

+16,3 GW

+7,0 GW

Média 27 a 29/04 (dias úteis)

73,3 GW

97,7 GW

24,4 GW

+6,9 GW

+3,0 GW

30/04 véspera feriado

73,2 GW

96,1 GW

22,9 GW

+8,3 GW

+3,0 GW

01/05 feriado

65,8 GW

88,1 GW

22,4 GW

+19,4 GW

+7,1 GW

02/05 sábado pós-feriado

66,7 GW

87,5 GW

20,8 GW

+16,0 GW

+5,6 GW

03/05 domingo pós-feriado

58,4 GW

83,1 GW

24,6 GW

+23,1 GW

+7,2 GW


O ponto mais importante é que o feriado não teve a maior amplitude diária da amostra. A maior amplitude apareceu no domingo pós-feriado, com 24,6 GW, seguida pela média dos dias úteis, com 24,4 GW. O final de semana anterior teve 23,5 GW. A véspera teve 22,9 GW. O feriado ficou em 22,4 GW. O sábado pós-feriado ficou em 20,8 GW. Se olharmos apenas o delta máximo e mínimo do dia, a conclusão pode parecer pouco relevante.

Mas essa não é a melhor leitura operacional. A diferença aparece na localização temporal da variação. Entre 14h e 18h, o 01/05 teve uma recomposição de 19,4 GW. Isso foi maior que a média dos dias úteis, que teve 6,9 GW, maior que a véspera, com 8,3 GW, e também superior ao final de semana anterior, com 16,3 GW.

Ao ampliar a janela, porém, o domingo pós-feriado aparece como o caso mais intenso de +23,1 GW entre 14h e 18h. Isso reforça a tese principal. O desafio não está apenas no feriado em si, mas na forma como dias não úteis, especialmente com menor carga diurna e forte presença solar, podem concentrar recomposição no fim da tarde.

Em termos relativos, a carga do feriado subiu 28,2% entre 14h e 18h. O domingo pós-feriado subiu 38,6%. O final de semana anterior e o sábado pós-feriado subiram 22,4%. A véspera subiu 9,4%. A média dos dias úteis subiu 7,6%.

Ou seja, o 01/05 não se destacou por ter a maior oscilação total ao longo do dia. Ele se destacou por concentrar recomposição no trecho sensível da operação. E o domingo pós-feriado mostra que essa dinâmica pode ser ainda mais intensa quando o vale diurno é mais profundo.


Feriados em dias úteis já não podem ser lidos apenas como dias de carga menor
Comparativo horário entre final de semana 25–26/04, média dos dias úteis 27–29/04, véspera 30/04, feriado 01/05, sábado pós-feriado 02/05 e domingo pós-feriado 03/05.

Quando a solar sai, quem segura a recomposição?


A leitura por fonte reforça esse diagnóstico, já que no 01/05, entre 14h e 18h, a carga subiu 19,4 GW. Ao mesmo tempo, a solar caiu 21,2 GW. A hidráulica aumentou 37,7 GW, enquanto a térmica subiu apenas 0,3 GW.


No domingo pós-feriado, a carga subiu ainda mais tendo 23,1 GW entre 14h e 18h. A solar caiu 18,3 GW, a hidráulica aumentou 32,0 GW, a eólica aumentou 7,3 GW e a térmica subiu 1,1 GW.


Essa comparação é relevante porque mostra que a rampa não depende apenas do rótulo “feriado” ou “fim de semana”. Ela depende da combinação entre carga, saída da solar, contribuição eólica, modulação hidráulica, térmica disponível e trajetória horária do balanço.


No recorte analisado, a hidráulica seguiu como principal recurso de acomodação da recomposição. A térmica não carregou a rampa do feriado. A eólica contribuiu mais no domingo pós-feriado do que no próprio 01/05. A nuclear permaneceu praticamente estável, cumprindo papel de base e não de flexibilidade.


Essa combinação ajuda a ilustrar o desafio moderno de flexibilidade que a carga recompõe, a solar sai e o balanço do sistema precisa ser recomposto rapidamente, com maior exigência das fontes e recursos capazes de modular.


Isso não significa que o sistema esteve em risco. Significa que a operação está ficando mais sensível à forma horária da curva. O sistema acomoda. Mas a acomodação passa a depender cada vez mais de flexibilidade bem posicionada no tempo.


Fonte / variável

Média 25 a 26/04 (final de semana)

Média 27 a 29/04 (dias úteis)

30/04 véspera

01/05 feriado

02/05 sábado pós

03/05 domingo pós

Carga

+16,3 GW

+6,9 GW

+8,3 GW

+19,4 GW

+16,0 GW

+23,1 GW

Hidráulica

+39,1 GW

+28,1 GW

+30,7 GW

+37,7 GW

+31,1 GW

+32,0 GW

Térmica

+0,7 GW

+1,5 GW

+0,5 GW

+0,3 GW

+1,6 GW

+1,1 GW

Eólica

+5,2 GW

+4,6 GW

+5,7 GW

+3,2 GW

+5,2 GW

+7,3 GW

Solar

-24,9 GW

-27,2 GW

-28,2 GW

-21,2 GW

-22,3 GW

-18,3 GW

No comparativo por fonte horário na rampa das 14h até 18h, Nuclear fica basicamente zerada na relação de incremento/saída.


Flexibilidade não é uma tecnologia, é uma necessidade do sistema


Aqui, porém, o ponto não é defender uma solução específica. É mostrar que a forma horária da curva está ganhando importância. Flexibilidade não é sinônimo de uma única fonte ou tecnologia. Ela pode vir de diferentes recursos, dependendo do tempo de resposta necessário, da previsibilidade do evento, da duração da rampa, da localização elétrica, das restrições operativas e do custo de acionamento.


Em alguns casos, a resposta pode vir da modulação hidráulica. Em outros, de intercâmbios, resposta da demanda, gestão de carga, térmicas com maior capacidade de partida e variação, armazenamento, sinalização horária, contratação mais granular ou melhor previsão operacional.


O ponto central é que diferentes rampas exigem diferentes tipos de resposta. Uma recomposição rápida de uma hora não é o mesmo desafio de uma sustentação de quatro horas. Um evento recorrente e previsível não exige a mesma solução de um evento abrupto. Por isso, a discussão sobre flexibilidade precisa sair da pergunta “qual tecnologia resolve?” e avançar para “qual necessidade operacional precisa ser atendida, em qual janela de tempo, com qual confiabilidade e a qual custo?”.


Essa leitura é coerente com a própria evolução institucional do tema. O ONS descreve a resposta da demanda como recurso adicional para atendimento ao SIN, com objetivo de contribuir para confiabilidade e modicidade tarifária, e destaca que mecanismos desse tipo são usados por operadores para tornar a operação mais econômica, segura e flexível. Portanto, a leitura de flexibilidade não deve ser reduzida a uma tecnologia. Ela é um atributo sistêmico.


O que muda quando os dados são normalizados


A normalização dos dados ajuda a evitar outro erro comum, confundir tamanho absoluto com esforço relativo. Em valor absoluto, a hidráulica naturalmente aparece com grandes variações porque é uma fonte dominante no balanço. Mas, mesmo em termos relativos, ela foi fortemente chamada a responder. Entre 14h e 18h, a hidráulica cresceu 114,8% no feriado, percentual muito próximo do final de semana anterior, com 115,2%, e do domingo pós-feriado, com 120,9%.


A carga também mostra essa diferença. Entre 14h e 18h, a variação normalizada foi de 28,2% no feriado e 38,6% no domingo pós-feriado. Na média dos dias úteis, foi apenas 7,6%. Na véspera, 9,4%. Isso reforça que o ponto não é apenas o nível absoluto da carga, mas a velocidade de recomposição no trecho crítico.


A térmica teve comportamento distinto. No feriado, sua variação proporcional entre 14h e 18h foi de apenas 5,8%. No sábado pós-feriado, foi 43,9%. No domingo pós-feriado, 27,4%. Ou seja, a resposta térmica foi muito mais relevante proporcionalmente no pós-feriado do que no próprio 01/05.


A eólica também traz uma leitura importante. No feriado, cresceu 51,8% entre 14h e 18h. No domingo pós-feriado, cresceu 169,1%. Isso ajuda a explicar por que a recomposição do domingo foi intensa, mas com uma composição diferente da do feriado.


A solar teve comportamento esperado de queda muito forte no fim da tarde. O ponto relevante não é a saída da solar isoladamente, mas a coincidência entre essa saída e uma recomposição expressiva da carga.


Por que isso importa para o sistema e para o mercado


Durante muito tempo, a análise operacional foi fortemente orientada pelo nível da carga, pelo pico e pela energia requerida. Esses fatores continuam importantes. Mas, em um sistema com maior participação solar, a pergunta tende a moldar para não bastar saber qual foi a carga do dia. Mas é preciso saber qual foi a recomposição horária que o sistema precisou acomodar.


O ONS informa que as atividades de programação da operação utilizam, entre outros insumos, previsões atualizadas de carga por patamar, condições meteorológicas, estado de armazenamento dos reservatórios, previsões de afluência e diretrizes para a programação diária e a operação em tempo real. Isso reforça que a operação não depende apenas da energia média, mas da combinação entre carga, recursos disponíveis, meteorologia e dinâmica temporal.


Esse tipo de análise também importa para comercializadores, geradores e consumidores. Quanto maior a granularidade horária da operação, maior a importância de compreender modulação, exposição, perfil de consumo, flexibilidade contratual e capacidade de adaptação.


A leitura não entra em formação de preço. Mas ajuda a explicar por que a granularidade horária passa a ganhar relevância crescente na análise de risco operacional e comercial. É nesse ponto que dados deixam de ser apenas monitoramento e passam a ser inteligência aplicada. A diferença está em transformar curva horária em leitura de decisão é identificar o que mudou, onde a rampa se concentrou, quais fontes responderam, quais riscos foram apenas aparentes e quais sinais merecem acompanhamento recorrente.


Em um mercado mais complexo, esse tipo de leitura separa quem apenas acompanha indicadores de quem consegue antecipar implicações operacionais, comerciais e regulatórias.


Não é só quanta carga, mas quanta rampa


Este é um recorte curto e não deve ser tratado como conclusão definitiva sobre todos os feriados, sábados ou domingos. Mas ele é útil como evidência prática de uma transformação maior de que a leitura horária passa a ser cada vez mais relevante.


O 01/05 mostrou que um dia de carga menor pode, ao mesmo tempo, exigir uma recomposição agressiva no fim da tarde. O 03/05 reforçou o ponto de forma ainda mais clarade que um domingo de carga baixa pode apresentar uma rampa das 14h para 18h superior à do próprio feriado.


Então a questão não é apenas se o dia é útil, feriado, sábado ou domingo. A questão é qual foi o vale, qual foi a velocidade de recomposição e quais recursos precisaram acomodar a transição.


A complexidade operacional deixa de estar concentrada apenas no pico absoluto e passa a depender cada vez mais da rampa. Em um sistema cada vez mais marcado por recursos variáveis e pela maior granularidade da operação, a flexibilidade deixa de ser tema acessório e passa a ser variável relevante de planejamento, operação e desenho de mercado.


Em última instância, a rampa não é apenas um evento operativo. É um teste de coordenação entre operação, sinal econômico, contratação e desenho de mercado.

Nota metodológica


A análise é exploratória e usa dados horários de carga e geração por fonte no SIN capturados em tempo real, considerando seis referências final de semana de 25 a 26/04, média dos dias úteis de 27 a 29/04, véspera de 30/04, feriado de 01/05, sábado pós-feriado de 02/05 e domingo pós-feriado de 03/05/2026.


As rampas foram calculadas pela diferença entre valores horários, com destaque para a janela de 14h para 18h, associada à transição entre o vale diurno e a recomposição do fim da tarde.


A análise não pretende generalizar todos os feriados ou finais de semana, mas ilustrar como a sensibilidade horária da operação pode mudar mesmo em dias de carga menor.


A análise observa a dinâmica agregada do SIN e não substitui estudos eletroenergéticos detalhados. Restrições elétricas, intercâmbios, disponibilidade local de recursos e critérios de segurança operativa podem alterar a leitura completa da operação.


Também é importante observar que os dados horários de carga do ONS possuem observações metodológicas específicas, incluindo mudanças de conceito desde 2021 e incorporação da MMGD a partir de 2023. O ONS Dados Abertos também informa que dados de carga fazem parte de processo de consistência recorrente e podem ser atualizados após a publicação.


Sobre o autor   


Felipe Figueiró é engenheiro eletricista, com mais de 12 anos de atuação no setor elétrico brasileiro. Consultor em estratégia e inteligência de mercado, atua na interpretação de dados complexos e na construção de análises que conectam operação, regulação e impacto econômico no setor. Possui dois MBAs focados em inovação, liderança e inteligência de mercado


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2 comentários

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05 de mai.
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Analisar essas evoluções podem realmente a ajudar ma visão de mercado mais atualizado

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Convidado:
05 de mai.
Avaliado com 3 de 5 estrelas.

A análise da procura passada é interessante e pode fornecer bons dados para prever procura futura. A previsão da oferta não dispensa um modelo de gestão de reservas em contexto aleatório que atenda às restrições técnicas que condicionam a oferta.

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